§ 1

O gênero humano – complexidade profunda por conta de um Ser jogado no mundo. Ser – existir – existência; um mundo compartilhado que se recria, se ressignifica através da linguagem, da criação, da convivência; quotidianidade. O gênero humano cujo ser está aí, neste lugar e este lugar que está aí no gênero humano que está aí neste lugar – quão indissociável. O que sou, sou porque estou – uma troca indiscutível, um movimento dialético. Sou e sou-com aquilo que É e Está aí, sou-com o Aí, puramente, e em tal quadríade existo para poder ser. Sou o Ser que questiona a si mesmo, por isso sou o Ser; Ser que se destrói e se reconstrói a partir de sentidos. Sentidos são significados e tais servem de lentes aos olhos do Ser. Eu vejo beleza imortal e caos abismal nisto que vos apresento, porém, ao outro que olha atento ao mesmo fenômeno do Ser; nada há além de desdém. Dois significados, um fenômeno; por quê? Singularidade do Ser, possibilidade de ser do Ser, de criar sentidos, de criar significados próprios.

Ser, porém, não É somente para si, ou seja, a quadríade faz-se notável. O Ser é para-si, para-com e para-aí; isto é, para consigo como Ser, para com o outro como objeto e para o mundo onde o Ser está jogado, onde o Ser está associado. O quarto item é o Ser para-com-Ser ou, de-frente ao Ser que não o seu próprio Ser. É o outro Ser que, embora intitulado Outro não é um outro dado ou jogado para o externo do Ser; aliás, ideias que corroborem com interno/externo não existem no que se refere ao Ser; o outro não está fora ou dentro do Ser – estão intimamente ligados. Trata-se, então, do início de centenas de elos que constituem a sociedade da forma que hoje se manifesta: Seres que são num mundo, Seres singulares que são num mundo em comum com entes (coisas) e com especificidades circundantes (contextos). O humano não é seu comportamento, o humano é o seu Ser como possibilidade de ser, este poder-ser constitui-se por possibilidade de dar significado aos entes e ao mundo; tal possibilidade é também relacional, não se faz longe ou afastado – contrariamente – só se dá pelo tocante.

Tocar estas teclas com as pontas dos dedos; tocar esta tela com os olhos; tocar este quarto com a presença do meu Ser – o tocante. E o Ser que passa ao meu lado numa rua qualquer, inda sem tocá-lo pelos cinco sentidos, está também no tocante, pois, é presença num mundo que estou presente. Assim faz-se a base daquilo que É quanto ao Ser que se manifesta num mundo de forma diferente dos animais, das plantas, das coisas. Tal diferença refere-se ao questionar; o Ser só é Ser diferente dos entes intramundanos (animais, plantas, coisas) porque questiona a quadríade. Meu corpo é um ente diferenciado dos outros entes do mundo, pois, questiono o ser que É somente em mim.

Muitos Seres, porém, não se questionam, tampouco questionam o que os circundam, tal como Seres ou entes ou mundos; estes Seres são repetidores; repetem sentidos e ideias de outrem; tal outrem se baseia em ideias e princípios superficiais - inautênticos. Uma cadeia de ignorância renasce d’este ciclo; o Ser ignora a quadríade e, ignorando-a, já não mais questiona; igualando-se ao ente (à coisa) que não pensa e não É, somente existe imóvel ou vítima passiva de seus instintos. A esta realidade caminha-se a sociedade e, n’este ano de dois mil e quinze, ano que inicio a escrita de meus pensamentos, eu como raridade pensante que de fato Sou na autenticidade da possibilidade de ser diante ao questionamento possível somente àquele que É; escrevo como forma de calar e falar, como forma de calar e ouvir, como forma de silenciar o ruído que tira o questionamento do Ser que só se É porque questiona.

O que é questionar? É uma maneira de buscar uma explicação acerca de algo confuso para o Ser? Não, trata-se de um ato explicitamente existencial que faz o Ser ser o que é no que diz respeito ao ser-no-mundo e, também, ao poder-ser, autêntico, diante da possibilidade de ser que somente o questionamento oferece, uma vez que, com ele, ressignificações, sentidos e o tocante se mostram num processo único e favorável. O Ser só É porque questiona, o questionar o difere dos entes; o questionar é o ato próprio manifesto e visível do Ser, porém ele – o questionamento – por si só, sem sentido, é um Nada. Questionar sem sentido é forma deficiente de Ser. Questionar sem o tocante à resposta, ignorando-a, é forma deficiente de Ser perante a quadríade já mencionada. Tudo o que diz respeito ao Ser diz respeito à quadríade.

Acordar para o questionamento é uma árdua tarefa, põe o Ser frente às suas tonalidades afetivas, eis a razão pela qual acima autodenominei meu Ser de raridade pensante, tal “elogio” não advém da Egolatria ou, como ouço frequentemente, da minha arrogância; trata-se tão somente de uma verdade, raros os que pensam como eu, não em conteúdo similar, mas em profundidade semelhante; esta conjuntura, embora autêntica, não constitui-se uma dádiva, seu solus principle é a Responsabilidade e n’isto nada há de beleza ou feiume.

S’estes escritos vos trazem lembranças de algo; discirnais: Minha compreensão do haver tornou-se existencialista pela leitura profunda de tais filósofos, contudo, são estes como um guia, pois que caminho e’meu próprio caminho, isto evidenciar-se-á no decorrer das explicações. Agora, em retorno às tonalidades – questionar leva à angústia, ao temor, ao tédio; não podemos ponderar como algo pejorativo; toda crise gerada por tais tonalidades visam o movimento do Ser. A angústia – perda total daquilo que na existência do Ser sentificava (família, relacionamentos, coisas, objetivos – absolutamente o tudo), o Ser se prostra ao Nada. Não somente, na angústia o Ser com consciência de seu estado enquanto Ser – responsabilidade quanto a ter-de-ser e estar-no-mundo, referência também à quadríade e uma característica original de todo o Ser: a morte. Se o Ser é propriamente sentido – a perda absoluta dos sentidos é o nada angustioso do vazio que somente o Ser pode imergir-se. Se o Ser é ser-para-a-morte, a angústia deixa clara a finitude que se estabelece inegável. A existência por um fio, a grande possibilidade de ser – a este, chama-se, Angústia Originária em todo o ente que É.

A angústia originária, porém, não se antecede em todo contexto de uma perda de sentido; o falar da existência ao Ser o leva a tal consciência; o gênero humano tende a busca do escape ileso da angústia que, sabe-se, não tem caráter lúdico-fantástico – a angústia é como é, pois leva o Ser de volta àquilo que ele É, no sentido comum de todo o Ser; a angústia traz o Ser de volta à sua realidade tal como se apresenta e retira tudo aquilo que se faz como muleta quotidiana. O gênero humano vislumbra a fantasia transcendente, pois, dá-lhe conforto na angustia especificamente – mas tal ilusão não altera o fenômeno real da mortalidade, da temporalidade e da responsabilidade do Ser. Quotidiano é o lugar em que o Ser cala a si mesmo pretendendo escapar da angústia. O erro maior do Ser é buscar calar sua existência – é estar alheio à quadríade – pois não vive seu tempo de forma legítima. Segue a maré.

O Ser perante aos entes se ocupa, a partir disso cria uma obra; as obras do Ser do gênero humano têm sido destinadas ao emudecimento da quadríade – compreenda como o ruído. O ruído não permite o silêncio, e a existência comunica-se com o Ser pelo silêncio, a saber, a existência é o Ser e o Ser é a existência, o comunicar-se consigo mesmo do Ser para-si é impossível se o ruído é demasiado estridente. E como é estridente! O mundo criado compartilhado é um caos ruidoso. Quando já não se pode ouvir a base que sustenta o Ser do ente; ou seja, nosso Ser, perdemo-nos no ruído e na quotidianidade. Há quem pondere no valor do perder-se na quotidianidade, pelo fato do Ser não carregar em si todo peso de sua realidade inegável. Se o Ser cega a si mesmo, por instantes, dentre as sombras da caverna; não precisa a todo momento cegar seus olhos com a luz que, fora da caverna, arde em fulgor. Por que pensar que a luz cega? A luz é o conhecimento – eu vos digo, não cega, mas cala. A luz que atravessa brutalmente as retinas daquele que busca o saber, é a luz que cala, que amedronta e enlouquece. É a luz que mostra a verdade absoluta do Ser – é doloroso enxergar a existência num todo a partir das lentes desta luz que é a verdade absoluta. Por isso, a fuga. Fugir de sua condição existencial é o desencontro com a luz.

O Ser é para a morte, morrerá. Sua vida é, de certa forma, curta – além disso há no mundo fatalidades que podem encurtar a existência do Ser. Diante disso, diante desta verdade, podemos compreender sua essência. Retomemos, então: o Ser enquanto existente nasce – é jogado no mundo – sem desejo algum, carregando consigo apenas mecanismos primitivos de sobrevivência e, também, uma evolução completa de sua raça. Este Ser, coloquemos como o Ser primeiro, pois, está com seus primeiros passos no percurso existencial. Este pequeno Ser nada é para além disto, este Ser é, a partir de então, somente a obrigação e a possibilidade de ser. Não há nada a priori da essência desta existência, a essência é, portanto, inicialmente, Nada. O encontro do Ser com o mundo circundante gera uma dialética hermenêutica; o Ser que nada é precisa, então, aprender a ser e, para aprender, precisa do outro Ser que lhe mostrará o conhecimento. Embora o Ser inicial seja tão completamente protótipo, a troca gerada no tocante faz com que a hermenêutica se manifeste – de ambos os lados, do Ser jogado no mundo agora e do Ser jogado no mundo há um tempo, forma-se criações constantes de conhecimentos livres e libertários que irão tirar o Ser Primeiro de sua condição de nada inicial e trará ao Ser já experiente, um novo conhecimento para a sua essência.

Vedes – como já previ – a essência é conhecimento, a essência está associada intimamente ao conhecimento. Mas a existência é primária em todas as suas características imutáveis – morte, angústia, tédio, possibilidade, mundo, relação, etc. – o Ser é, durante sua existência, todo o conhecimento que criou e recebeu; não somente, inda que o Ser ganhe todo o conhecimento possível – será e/ou estará, vez ou outra, frente ao nada do qual esteve no momento de seu nascimento. O nada é sua origem e, vislumbrando com amargo gosto é possível notar que, ao gênero humano, não somente o nada é sua origem como, também, o seu destino.

Oanna SeltenComentário