Causas

Caravaggio - Judith decapitando Holofernes, por volta de 1600

Caravaggio - Judith decapitando Holofernes, por volta de 1600

E tu descoses riso d’esta face
Assim bastando que hajas n’este mundo
Te mostras logo e dói-me bem profundo
Em tudo faz-me ser demais fugace;

Fugir eu sinto ser extremo anelo
Do mundo só descer, romper a esfera,
Assim, contigo, eu não me esbarro mera
Que d’este acaso não hei sofrer flagelo;

Prefiro ser-me só, perene em órbita,
A ter que ver-te n’esta carne mórbida
Com este teu caráter bem tacanho

E tal essência, em cumes, tão asquerosa
Que enjoa, pois se faz demais lodosa
Me causa crise infinda d’árduo ranho.

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Para ilustrar “Causas”, escolhi a Judith, pintada por Caravaggio. Meu intuito era enfatizar a mulher em sua necessidade expressa de livrar-se do homem para conseguir paz, paz esta que foi brutalmente arrancada desde a ascensão do patriarcado. Isso foi minha intenção quando busquei uma arte para ilustrar o Soneto; contudo, ao escrevê-lo, almejei expressar somente meu repúdio por um sujeito específico e a face de Judith reforçou cada artéria que excisei p’ra redigir versos tais.

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Altum Lyra, PoesiaOanna SeltenComentário