Infortúnio Ser Esmirna¹

Nascimento de Adonis - Marcantonio Franceschini, c. 1685-90

Nascimento de Adonis - Marcantonio Franceschini, c. 1685-90

Nunca te escrevi, nem quando ódio havia
Desde os dez outonos quais vivi floreios
Às suaves margens d’este estranho enleio
Mui pensei se o teu descuido amor trazia

Se era mesmo amor que eu fiz pulsar no torso
Vindo, lento, ser desejo ou ser delírio
Como algares tão fulgures da una flor de lírio
Entre tais nevados caules mui introrsos

Bem que havias mesmo dito sobre escolhas
Tantas fiz e estou nutrindo minhas folhas
Não podendo, o ciclo, logo então findar

Culpo aquela deusa, ó, o eflúvio teu
Veio então surdir, nos idos, este meu eu,
Desde então, susténs-me tanto a cona-mar.

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¹ Myrrha (em grego: Μύρρα), também conhecida como Esmirna (em grego: Σμύρνα), é a mãe de Adonis na mitologia grega. Ela foi transformada em uma árvore de mirra depois de ter tido relações sexuais com o pai e deu à luz Adonis, mesmo sendo uma árvore. Na mitologia, Adonis nasceu da união incestuosa entre Mirra e o rei de Chipre, Cíniras. Como sua mãe Cencréia se negava a prestar culto à deusa Afrodite, a mesma lançou-lhe um castigo, despertando na filha uma violenta paixão pelo rei. Em outra versão, Mirra ou Esmirna, como também era chamada, aparece como filha de Téias, rei da Síria. Sua punição deveu-se ao fato da princesa, acometida pela hýbris, pretender igualar-se à deusa em beleza. Atormentada pelo incestuoso desejo, planejou enforcar-se, mas sua aia, Hipólita, a impediu, oferecendo-se para auxiliá-la na tarefa de seduzir o rei.

A curiosidade d’este Soneto é que, ao escrevê-lo, eu não pretendia realizar menções ao mito de Esmirna, tampouco fundamentar meus versos nele; até porque, eu o desconhecia. Ao finalizar a obra, tal como de costume, quis titulá-la e, também, ilustrá-la co’alguma pintura. Portanto realizei uma busca rápida co’intuito d’encontrar tal arte e, quem sabe, inspirar-me na criação do título. Tão pouco tempo bastou para qu’eu me deparasse com “Nascimento de Adonis” de Marcantonio Franceschini; intrigada pela pintura de Franceschini, tratei de ler a respeito de seu significado e, conforme o lia, fui surpreendendo-me seriamente, pois muito vinculado estava, o mito de Esmirna, ao meu Soneto — e vice-versa. Decerto, ponderei, trata-se apenas d’uma coincidência; n’outro átimo, contudo, veio à minha mente: Seria, quiçá, não uma coincidência, mas sim o inexplicável elo de vidas revindas? Há quem possa provar que sim.

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Altum Lyra, PoesiaOanna SeltenComentário