A esmo

 Foto de  Mishal Ibrahim

Escrevo… tão somente escrevo. Há muito o que guardo no íntimo de mim, há tanto da existência que incompreendo. Saltam-se as indagações a cada passo que ando, em minha frente elas se manifestam, às vezes como horizontes, outras como muros.

Escrevo, pois que nem sempre sorrio e nem sempre choro. Vislumbro o que há de antagônico em cada centímetro de mim; e nunca sou a mesma de noite, ou a mesma de manhã, essa metamorfose infinita permitirá que minhas asas se desdobrem um dia? Que eu finalmente voe?

Escrevo… enquanto escrever me soa Norte. As palavras guiando meu espaço, meu tempo, meu abstrato nadificante. O niilismo de minhas veias é destruído pelo sangue do amor à escrita. Um sentido, o sentido, para prosseguir.

Confessaria que meus dedos teclam enquanto minhas pálpebras cerram ou que minha mente é um universo de pessoas que não sabem sobre o Deus do Silêncio; no entanto, na verdade, agora, nem há mais brisa lá fora ou coerência aqui dentro.

Assim, portanto, escrevo. E se existo é porque escrevo. Nem sempre com rimas e por vezes perdida, pois há sempre um vão nas entrelinhas, vão este que, com afeto, denominei Abysmo; escorrego em cada vírgula e decaio em sua profundidade. De repente eu sou a letra, a linguagem, a noite e o vazio.

A atmosfera é sempre mais escura nas madrugadas de Agosto. O inverno sempre canta a música do sopro. E eu, ínfima, sinto a humanidade que me cabe no peito, gritante e muda, estranhamente consciente… intensamente consciente… tão consciente que me faz apagar as luzes do abajur.