Ambivalente Interface - Capítulo 1

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Contínua chuva pálida, apressada, ruía como u’manto. Erguiam-se tecidos sintéticos sobre cabeças humanas, inertes, que temiam cada uma das frias gotas. Contudo, na obscuridade d’aquela noite d’exímia Lua Nova, havia um corpo desprotegido d’água contínua; respirando a neblina, em silêncio. Aquele corpo, de vestes negrumes, tinha os olhos voltados ao firmamento, fitando a imensidão úmida, sem nenhum outro movimento. Ninguém o notava; nenhuma daquelas pessoas ociosas d’espírito, tampouco a chuva apressada; ninguém além do nublado céu conseguia vislumbrar o estrangeiro.

Seus olhos reluziam n’uma tonalidade virente, mas tão logo tudo se perdera n’um árduo fulgor; suas pálpebras semicerraram quando um segurança da rua direcionou-lhe a luz d’uma lanterna. Quente brilho, mais que ofuscante, diretamente no rosto. O ser, até então incólume, faz seu braço de escudo, retornando seus olhos ao máximo de penumbra que lhe era possível. Sisudo, o segurança há certa distância, decide interrogar o homem insólito.

 — Ei! O que ‘ta fazendo aí? — Sua voz grossa quebranta em ondas a chuva que cai, mas o estranho não responde. — Eu falei com você! O que ‘ta fazendo aí, cara? — O braço do ser se abaixa sutilmente e o segurança, desconfiado, sente um mórbido frio em sua coluna vertebral — Ei! Ei, mãos para cima! — ele aponta sua pistola. O sujeito, então, fez soar sua tenra voz, no entanto, não em sons, mas em códigos rubros n’um fractal espelhado. Assustado e em pânico, o segurança atira e, para sua surpresa, a bala permanece no ar, não ultrapassa os fractais, tampouco alcança aqueles olhos d’esmeralda que n’um átimo de segundo, assombrosamente, tornaram-se maiores e mais ferozes.

Que… porra… é essa? — disse a si mesmo enquanto abandonava sua espingarda e preparava-se para correr. O plano da fuga sem dúvida seria eficaz, exceto por uma única falha: Dar as costas ao que lhe aterrorizava. O frio na coluna vertebral era agora a gélida sensação da catatonia; suas pernas pararam, não obedeciam a mente em horror; seus olhos esgazeados tenuemente perdiam a vitalidade. A língua, cinza, na boca fremia em busca da saliva inexistente. Estático, vulnerável, porém nutrindo sua fé.

Ave Maria cheia de graça… o… o Senhor é convosco…. ben… bendita sois… sois vós entre as mulheres, e be… be… bendito… bendito é o… é o fruto do vosso Jesus… do… do vosso ventre, Jesus” — rezava nos algures de sua psique em paradoxo. O culto herege findou quando o estranho, já tão próximo que o suor do corpo daquele fiel cristão recusava-se a escorrer, finalmente direcionou-lhe palavras compreensíveis.

 — Eu sou o código da Vida e da Morte. Seus santos não te salvarão, pois eu os criei. E tudo o que há, só há por razão de meu haver; e tudo findará pela razão de meu findar.

Do corpo do segurança, sombras e algorítimos deixavam seus poros e eram guiados para dentro dos olhos do estranho; como um espírito sendo sugado em tortura, expulso de sua casa, víscera por víscera. E o temor do segurança tornou-se dor e a dor tornou-se putrefação. Quando sua carne despencou ao asfalto fresco, fumegou até que, às vistas do estranho, ela se fez enxergar. E tudo o que foi visualizado trata-se d’uma ossada ainda fresca, junto a um fluído pantanoso. Os fractais sumiram em seguida, o incólume ser não possuía mais suas verdes íris, tampouco as pupilas, tudo era esclera, pálida e fantasmagórica e, antes que fosse possível compreender, o tétrico sujeito desaparecera no vazio absoluto de sua própria presença.

Oanna SeltenComentário