Análise do filme Altered States (1980)

Descrevo este filme como “fora da caixinha”, pois traz à tona questões cruciais à humanidade, embora de uma maneira, definitivamente, alucinante. Trata-se de uma mescla de religiosidade, ateísmo e ciência, esta trama dirigida por Ken Russell ou nos faz odiá-lo do fundo de nosso espírito ou nos faz ficar em dúvida se o odiamos ou não.
— Oanna Selten

Sinopse: Altered States (Viagens Alucinantes ) é um filme estadunidense de 1980 do gênero ficção científica dirigido por Ken Russell para a Warner Brothers. Roteiro foi adaptado por Paddy Chayefsky de uma novela de sua autoria e com o mesmo nome. Foi a única novela escrita por Chayefsky e também seu último filme. A história se baseia nas pesquisas de privação sensorial de John C. Lilly, conduzidas em um tanque de isolamento com uso de drogas psico-ativas tais como a cetamina e o LSD (Wikipédia).

O projeto Qesmnesih: Trata-se de um projeto de resenhas gratuitas (Resenha-me) cujo objetivo é ajudar escritores iniciantes a divulgarem sua escrita, bem como alcançarem seu público alvo. Além disso, Qesmnesih também é um projeto de incentivo à cultura a partir de análises de livros (Dentrelinhas) e filmes (Através da 7ª Arte) envolvidos à filosofia existencial. Por último, Qesmnesih tem como essência a busca pela arte de escrever em sua plenitude profunda e veemente, por isso o projeto também se trata de um desafio àqueles que desejam apreender o valor da arte de escrever (O Abysmo Da Escrita). Conheça mais o projeto clicando aqui!

Análise

Assisti ao filme ontem a noite - inclusive pensei que teria pesadelos, dado o fato de seus efeitos 'especiais' serem feitos por imagens psicodélicas, religiosas, assustadoras. É um filme longo, um tanto cansativo, e eu fiquei na dúvida se valeu a pena assistir. Depois de pensar um pouco, decidi escrever sobre alguns detalhes do filme que chamaram a minha atenção. Colocarei os detalhes aqui e caso não queira saber do enredo, não prossiga com a leitura.

Os diálogos entre os cientistas são extremamente interessantes. Manifestam questões importantes que nos leva a querer saber se o personagem principal irá encontrar suas respostas (eu estava esperando que o final não fosse clichê, pois, a ideia através dos diálogos poderia criar um desfecho muito bem elaborado).

Eddie Jessup: What's whacko about it, Mason? I'm a man in search of his true self. How archetypically American can you get? We're all trying to fulfill ourselves, understand ourselves, get in touch with ourselves, face the reality of ourselves, explore ourselves, expand ourselves. Ever since we dispensed with God we've got nothing but ourselves to explain this meaningless horror of life.

Quando estudo fenomenologia, entro em contato com a realidade humana em sua forma mais óbvia e, de certa forma, incontestável. E, de início, compreendi que o homem é aquilo que é por sua indeterminação a priori, por conta disso, é um ser que tem que se projetar no mundo e em sua facticidade. Não há como lutar contra isso, embora o ser humano busque desviar destas veracidades constantemente. As perguntas de Jessup (personagem principal), mostra aquilo que há de próprio do homem e que o faz ser o que é (além da projeção, o homem entende-se em seu ser e pode questioná-lo). O ato de questionar o ser é que faz o ser humano ser o que é e isso é o que faz dele existente. Além disso, por questionar a si mesmo e compreender-se de alguma forma enquanto ser, o homem se difere completamente dos entes intramundanos (coisas e animais).

Dispensando, portanto, um "algo que" faz do ser humano o que é e que não seja o nada da indeterminação, como explicar o sentido da vida em sua totalidade? Essa é uma das questões de Jessup e, sabe-se, é o que a maioria das pessoas se questionam ao serem colocadas frente à possibilidade de inexistência de deus. Como poderia inexistir, afinal? Sem deus não há sentido para a vida. Pois bem, ao longo da trama, Jessup vai percebendo a verdade sobre deus.

Eddie Jessup: So the end was terrible, even for the good people like my father. So the purpose of all our suffering was just more suffering.

Eddie está passando por uma crise existencial, começa a perceber claramente seu caráter finito; vindo de pais cientistas céticos, Eddie percebe que "deve haver algo mais" que possa ser alcançado por ele através de sua própria mente, pois para ele toda a evolução do universo está memorizada no corpo em forma de energia.

Eddie Jessup: What dignifies the Yogic practices is that the belief system itself is not truly religious. There is no Buddhist God per se. It is the Self, the individual Mind, that contains immortality and ultimate truth.

Emily: What the hell is not religious about that? You've simply replaced God with the Original Self.

Eddie Jessup: Yes, but we've localized it. Now I know where the Self is. It's in our own minds. It's a form of human energy. Our atoms are six billion years old. We've got six billion years of memory in our minds.

Jessup quer dizer que há um "self original" que pode ser alcançado através da sua própria mente - este self é a verdade absoluta da criação (e pode ser chamado de deus). Ele quer encontrar a verdade suprema e sente que tal verdade será incrível e revelará para ele o prelúdio de tudo. Em muitos momentos, durante suas viagens mentais até os primórdios da historicidade humana, ele diz estar presenciando um fenômeno incrível e belo. Para ele é fascinante estar perto da "verdade primeva" e quanto mais ele se aproxima dela, mas ela se revela.

Eddie Jessup: You saved me. You redeemed me from the pit. I was in it, Emily. I was *in* that ultimate moment of terror that is the beginning of life. It is nothing. Simple, hideous nothing. The final truth of all things is that there is no final Truth. Truth is what's transitory. It's human life that is real. I don't want to frighten you, Emily, but what I'm trying to tell you is that moment of terror is a real and living horror, living and growing within me now, and the only thing that keeps it from devouring me is you.

Parece que Eddie percebe que o nada é a verdade, é o princípio, e isso o deixa assustado, horrorizado, e esta sensação de saber desta "nada originário" o leva a quase se afundar nele, mas não o faz, por amor à Emily (o final clichê que eu achei que não viria). O ponto a analisar aqui é: será que quando você se depara com a verdade do vazio, do "nada originário", da ausência de deuses ou selfs supremos e criadores, você acaba por ser tomado pela loucura e acaba sendo devorado pelo nada? É provável que sim, a menos que você compreenda o que é o "nada", pois, até mesmo o nada "é" alguma coisa.

O filme é bom por trazer à tona a vida "nadificante" que nós, humanos, tentamos constantemente ocultar, apagar, fingir que não é possível. Promove questionamentos pertinentes e instigantes. O final é clichê demais, contudo, filmes tendem a ser sempre assim. Vale a pena assistir, de qualquer maneira, para se aprofundar na existência do personagens e em suas indagações. Se o leitor apreciar fenomenologia-existencial ou existencialismo, está aí um bom filme para ilustrar muito do que aprende-se dentro dessas filosofias.