Análise do filme Words And Pictures (2013)

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O tema principal, palavras e imagens, é magnífico! Uma guerra que envolve conhecimento, que fala de sentimento, da importância das palavras e da decadência do mundo televisivo - que levam os jovens a acessarem com tanta facilidade o conhecimento que acabam por se afastarem da essência do mesmo.
— Oanna Selten

Este é um filme do ano de 2013 cujo diretor é Fred Schepisi. No elenco principal, estão: Clive Owen (como Jack Marcus), Juliette Binoche (como Dina Delsanto), Keegar Connor Tracy (como Ellen), Amy Brenneman (como Elspeth Croyden, Bruce Davidson (como Walt), David Negahban (como Will Rashid), Valérie Tian (como Emily). Trata-se de uma comédia dramática e um romance estadunidense muito cativante que abrange o tema das palavras e das imagens, mesclando as duas artes dentro de uma história sutil e comovente.

Sinopse: Em uma escola secundária, começa uma guerra entre dois professores: Jack Marcus (Clive Owen), escritor de sucesso e professor de literatura, e Dina Delsanto (Juliette Binoche), pintora e professora de artes plásticas. Enquanto ele acredita que as palavras são mais importantes do que as imagens, ela afirma a supremacia das fotos e dos quadros. À medida que o embate dos dois se transforma em romance, os alunos tentam descobrir qual linguagem é mais importante (fonte).

O projeto Qesmnesih: Trata-se de um projeto de resenhas gratuitas (Resenha-me) cujo objetivo é ajudar escritores iniciantes a divulgarem sua escrita, bem como alcançarem seu público alvo. Além disso, Qesmnesih também é um projeto de incentivo à cultura a partir de análises de livros (Dentrelinhas) e filmes (Através da 7ª Arte) envolvidos à filosofia existencial. Por último, Qesmnesih tem como essência a busca pela arte de escrever em sua plenitude profunda e veemente, por isso o projeto também se trata de um desafio àqueles que desejam apreender o valor da arte de escrever (O Abysmo Da Escrita). Conheça mais o projeto clicando aqui!

Análise de Words And Pictures


Apostei neste filme ao ver que se tratava de um escritor, filmes com escritores, obviamente, me motivam e me instigam. No entanto, demorei para finalmente apertar o play da Netflix e dedicar duas horas do meu tempo a conhecer a trama. Quando finalmente o fiz, não me arrependi, a história é muito boa, embora possua algumas partes forçadas - aos meus olhos os personagens não tinham um envolvimento realístico dentro do romance, talvez esse tenha sido o objetivo do diretor.

O tema principal, palavras e imagens, é magnífico! Uma guerra que envolve conhecimento, que fala de sentimento, da importância das palavras e da decadência do mundo televisivo - que levam os jovens a acessarem com tanta facilidade o conhecimento que acabam por se afastarem da essência do mesmo. A poesia nas palavras de Marcus e a sensibilidade na pintura de Delsanto me emocionaram inúmeras vezes, tanto que fiquei vislumbrada com os momentos em que a arte se manifestava no filme.

O único detalhe que não me foi aprazível, foi o que já mencionei: o romance. A poesia das palavras de Marcus e a sensibilidade da arte de Delsanto não estiveram no romance dos dois, para mim algo esteve vazio, uma lacuna que não foi preenchida na história. De todo modo, valeu a pena e, a partir deste ponto, se você não quer saber o enredo do filme, sugiro não prosseguir com a leitura.

Marcus defende as palavras e é muito atraente a maneira com que ele expressa admiração a elas; seus argumentos na guerra 'imagens versus palavras' são argumentos quais eu, muitas vezes, já proferi àqueles que insistiam em reclamar da dificuldade da língua portuguesa - aquilo que é fácil demais, não instiga o cérebro. Decerto que eu não sou contra imagens como "aparentemente" ele é no filme.

Marcus: You’re going to see a word, and you’re going to jump on it, or it’s going to jump on you. Then you have it forever.

Outro detalhe que Clive Owen traz à trama com seu personagem, é sobre invenção de palavras ao pedir para seus alunos que se entregassem às significações da linguagem, é extraordinário! Principalmente porque eu já criei inúmeras palavras e sei a importância disso. Definitivamente, se você é escritor, assista a Words And Pictures, pois, os detalhes focalizam no que há de mais visceral do clássico escritor e que, na atualidade de escritores, não existe essa valorização da linguagem, da palavra, da etimologia, da história desta construção humana.

Marcus: You want to talk about making arrows and finding a better place to dig for roots. See, grunting is fine, but it only goes so far, and so are gestures and cave paintings. And so people out of necessity invented words, one by one, then codified them by usage, by mutual agreement, tribe by tribe, nation by nation. We went from "root," "dig," "fire," "arrow," to "multitask," "irreverence," and what is supposedly the most beautiful-sounding frase in the English language,"cellar door." You see, your language is a living, growing thing that sheds old words and absorbs new ones every day. And that's what I want you to do, each of you, invent a new word.

Marcus é alcoolista, isso o prejudica em todo o enredo e levanta questões importantes para quem é artista. Por tempos acreditamos que embriagar-se levava à inspiração, poetas boêmios são a prova deste pensamento ultrapassado. Isso não é verídico, a inspiração de um artista advém do encontro do mesmo com seu próprio ser, com suas angústias, com suas paixões. Não se trata de estar bêbado ou drogado, trata-se de envolvimento íntimo com seu próprio eu e com a universo ao redor.

Delsanto, por sua vez, uma mulher de personalidade forte, nos mostra que a arte não se trata de pura técnica, só é arte se estiver completamente inserida em uma significação emocional, sentimental e - visceral. É possível criar uma incrível pintura a óleo com todos os contornos plausíveis aos críticos, no entanto, o sentimento que a arte transmitirá será ausente se o artista não se entregar plenamente ao que faz. É disso que se trata também a arte de escrever, em partes é preciso abandonar a busca infindável por técnica gramatical e envolver-se àquilo que se escreve; por outro lado, quanto mais se aprende sobre a técnica, mais intimidade se tem com as palavras. Isso proporciona a profundidade, o sentimento e a emoção necessários para dar vida àquilo que é redigido.

Emily: Thank you. Uhm... I want you to see what I'm painting now. I miss your input. Your not being satisfied.

Delsanto: Bring your work over. I'd be glad to be dissatisfied with it [...]

Emily: Class is just not the same anymore. Nobody's pushing. They just go, "That's good, Emily."

A personagem se entrega à sua arte e cativa todos ao redor, principalmente porque ela critica. Sim, ela critica a arte de seus alunos, instiga-os a se entregarem à profundeza de sua criação, não é uma professora que elogia simplesmente e nada mais. Isso acarreta n’outro ponto qual eu tanto pondero sobre. Elogios são bem-vindos, mas de que valem? Não digo que elogiar é desnecessário, digo da maneira com que se elogia. Mais uma vez nos transferimos às palavras e a maneira como utilizamos o seu potencial.

Palavras ou imagens podem ser utilizadas para autoconhecimento, expressão pura da singularidade ou para uma xucra comunicação, para ataque aos outros. Esse é o ápice do filme. A guerra “palavras e imagens” de nada serve, tanto uma quanto outra depende incontestavelmente de quem está por detrás delas; daquele que fala, daquele que expressa.

Aprecio filmes que dão o devido valor à arte visceral, porque é disso que a humanidade precisa; entender que as palavras escritas ou ditas são cruciais para qualquer aspecto da existência, desde uma boa comunicação até uma resolução de problemas externos ou internos. Se o ser humano decidiu desenvolver linguagem é porque já não dava mais para sobreviver urrando, gemendo e lamuriando como um animal selvagem.

Marcus: Proust said that only through art can we get outside of ourselves and know another's view of the universe. And Agee and Updike and Winterson and Delsanto, they give us that view because they give us themselves through words, through pictures.

A arte, seja qual for, é uma necessidade daqueles que se sensibilizam com a realidade em si, com o existir em si. Words And Pictures é um filme que apresenta isso, e muito mais, com leveza e veemência. Definitivamente valeu a pena tê-lo assistido.