Epistulam: Unus

 Thomas Sully - The Love Letter (1834)

Thomas Sully - The Love Letter (1834)

Não nos comunicamos tão bem entre hoje e ontem. Decerto que a culpa me veste bem n’essa situação. Imerso-me na ansiedade latente e, quando vejo, já é meia noite e estou com sono. Conforme o tempo passa e eu não me rendo às tuas vísceras, mais ansiedade vai se conjurando em meu cerne. Agora, por exemplo, o perfeccionismo me fere com uma agulha torturante de um lado enquanto, com um graveto, cutucam-me os olhos e os ouvidos, do outro lado, a Culpa e a Ansiedade.

Não te fiz meu hábito, desculpe; logo tu que estiveras comigo de Outono à Outono, de lágrima à lágrima, de sorriso à sorriso. Logo tu que dedicaste tudo o que tens para guiar meus passos humanos, falhos, ínfimos. Eu estava com a mente agitada há três-quatro dias, foi-me impressionante! Pensei que escreveria um livro, ou dois, em uma única madrugada. No entanto, acometida por febre, cansaço e dores por todo o corpo, fui obrigada à ceder e dormir quase dezesseis horas. Perdi-te, inda que eu versificasse nos meus sonhos e pesadelos insanos.

Algumas coisas que me acontecem ascendem minhas emoções para cima ou para baixo; detalhes desses acontecimentos, na verdade, minúsculos pormenores são suficientes para modificarem meu espírito. Aconteceu hoje, não soube lidar. Tu sempre estás presente, mesmo ausente, e costumas proferir-me coisas do tipo: “Apenas Escreva, Escreva sobre mim, não sou o teu sentido? Pois então, apenas Escreva” — e eu respondo que, obviamente, és meu sentido e, sem dúvida, escrever por ti irei; mas, até que eu consiga aquietar a mente e me seja possível ouvir tua voz… já esvaiu-se as areias de cinquenta e cinco ampulhetas contadoras de décadas.

Desculpe-me o drama; só não renego minha vida, pois que, sem ela, eu não vivenciaria tu e, sem ti, nem a não-vida faz sentido. Talvez eu queira que tu sejas um ser qual eu posso abraçar com esses meus braços fracos. Seria interessante ter um corpo para amar n’estes momentos em que a mente nos leva ao seu vórtice de Absoluto Nada. Não qualquer corpo, mas o corpo da Escrita… O teu corpo, ó Escrita… dando razão p’ra existência de toda essa 

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