Neste nada, somos apenas o vazio

Neste nada, somos apenas o vazio. Estamos aqui no mundo coexistente, andamos ao lado de pessoas, nos sentamos próximos aos nossos semelhantes; até mesmo, quando sós em nossa casa, há o vizinho ao lado, o helicóptero, o avião, alguém andando de bicicleta na rua, ou, no caso mais extremo da solidão, há sempre alguém na memória.

Assim é a vida, o vínculo que fazemos com outros além de nós. Mas há, no meio disso, uma lacuna que se expande tetricamente. Por algum motivo estamos esquecendo do valor dos outros em nossa vida singular, tratamos o outro como mísero enquanto nos vangloriamos de nossas convicções. Como se nossa vida individual fosse independe de relações humanas.

Espanta-me que assim seja, e luto diariamente para não agir desta maneira, pois até aquela pessoa há mil milhas longe de mim, que nunca foi vista pelos meus olhos ou tocada por minhas mãos, até mesmo ela é crucial para minha existência. Nós, humanos, sociedade, somos guiados pela mesma linha de infinitos nós. Como um grupo de alpinistas amarrados para que, se um deles desequilibrar-se, haja o suporte dos demais.

Enquanto nos cegamos ao nosso próprio reflexo no espelho, vamos esquecendo que o valor da vida está mesmo no dedicar-se às relações, no ato de ouvir e compreender, no autêntico desejo de apenas estar próximo. Sem pedir um favor, sem julgar uma ação, sem reprimir uma palavra. Apenas estar próximo e sorrir, ter uma boa conversa, doar carinho e cuidado sem esperar reciprocidade.

Pode ser que isso pareça algo retrógrado, fora de moda, ou talvez demasiado inocente. No entanto, tenha certeza, isso é o que nos move. O cuidado e a dedicação na ausência do ego extremo é o que dá sentido à existência. Ouvir mais do que falar, ser verdadeiro ao invés de julgar. Sem essa dedicação somos nada, e nos resta apenas o vazio.

Imagem de Priscilla Du Preez

~

 
AnfemeraOanna SeltenComentário