Compreender transcende o interpretar.

 Edmund Husserl, Martin Heidegger, and Maurice Merleau-Ponty

Edmund Husserl, Martin Heidegger, and Maurice Merleau-Ponty

Só no discorrer autêntico o calar-se próprio é possível. Para poder se calar, o Dasein deve ter algo a dizer, isto é, deve dispor de uma abertura própria e rica de si mesmo [...] O ser-do-calar-se, como modus do discorrer, articula a entendibilidade do Dasein de um modo tão originário que é precisamente dele que provém o autêntico poder-ouvir e o transparente ser-um-com-o-outro.
— Heidegger em Ser e Tempo

Nas palavras de Heidegger: "Die Rede ist Die bedeutungsmäßige Gliederung der befindlichen Verständlichkeit des In-der-Welt-seins", ou seja, o discurso é a articulação significacional da entendibilidade do encontrar-se no ser-no-mundo. Compreendemos nossa existência e, quanto mais a compreendemos, mais articulamos o discorrer para significá-la e entendê-la a partir da consciência. Quando nos envolvemos com nosso ser, buscando esse envolvimento pleno e autêntico com nossa própria constituição humana – sem negá-la, oprimi-la, ocultá-la ou mascará-la – encontramo-nos com nossa essência, com nosso Dasein e todas as características que o compõe. Somente a partir deste encontro e busca constantes é que somos capazes de compreender o outro em sua existência e naquilo que ele tem a dizer, ou calar, sobre seu ser. 

Heidegger afirma: "Nur wer schon versteht, kann zuhören", ou seja, só quem entende a sua própria constituição – que está na busca pelo desvendar-se de si, que está aberto à autenticidade do encontrar-se e do conhecer-se – pode, então, entender o outro ser que não a si.

Neste momento de mais profundo e veemente vínculo ao seu próprio Dasein ("ser" que está "aí no mundo" e dele não se dissocia) o interpretar do discurso alcança o nível além-linguagem, pois, as raízes da constituição-de-ser estão conscientes, mais do que outrora, criando assim a possibilidade de uma verdadeira epoché fenomenológica.

Husserl afirma: "A fim de obter um fenómeno puro, teria então de pôr novamente em questão o eu, e também o tempo, o mundo, e trazer assim à luz um fenómeno puro..." – por em questão pode ser compreendido como "deixar de lado" ou "questionar a forma com que se dá aquele fenômeno" que, no caso, é o "eu", o tempo e o mundo. Colocando em questão, deixando de lado, abrimos espaço para um fenômeno puro manifestar-se. Suspendemos os nossos juízos advindos deste eu-tempo-mundo e buscamos o fenômeno puro em sua manifestação pura – sem absoluta interferência. Eis aí a epoché fenomenológica.

Por que tanta complexidade?  Husserl afirma: "A filosofia é um assunto inteiramente pessoal de quem filosofa. Trata-se da sua sapientia universalis, isto é, do seu saber em busca do universal [...] Só posso tornar-me verdadeiro filósofo pela minha livre decisão de querer viver para este objectivo." e mais: "Fazendo uma reflexão permanente sobre si mesmo, enquanto filósofo meditativo que assim se tornou ele próprio ego transcendental, significa pois ingressar na experiência transcendental de ilimitada abertura, não se contentar com o ego vago, mas rastrear a corrente incessante do ser e da vida cogitantes, observar tudo aquilo que há para observar, penetrá-lo pela explicitação, apreendê- lo descritivamente em conceitos e juízos puros que se vão buscar de modo inteiramente originário a este depósito intuitivo" e ainda "Enquanto homem radicado na atitude natural, como eu era antes da epoché, vivia ingenuamente no interior do mundo; em plena experiência, vigorava para mim, sem mais, o experimentado e, nessa base, eu levava a cabo as minhas outras tomadas de posição. Mas tudo isto decorria em mim sem que eu para aí virasse a minha atenção; o que por mim era experimentado, as coisas, os valores, os fins, constituía o meu interesse, mas não a minha vida experiencial, o meu ser-interessado, o meu tomarposição, o meu subjectivo. Também enquanto vivia naturalmente era o meu eu transcendental, mas eu nada de tal sabia. Para me aperceber da minha peculiaridade absoluta, tive de exercitar justamente a epoché fenomenológica"

Em palavras simplórias: dedico-me a filosofia desde que esta me tomou o ser de modo integral – a qual descrever é impensável dado o caráter transcendente e intuitivo que compõe o fato – à vista disso, o que produzo parte de uma epoché fenomenológica do meu próprio "eu" e que, diante a leitura d'outra consciência que não a minha, é-se imprescindível, para compreensão plena, a mesma postura qual tive para descrever o meu "eu" – reduzir-se e abandonar os juízos para alcançar o fenômeno puro.

Não pelo solipsismo – ou, justamente, por sua razão – cada ser humano é uma consciência subjetiva que cria o envolvimento eu-mundo, eis a possibilidade de tudo ser uma ilusão, exceto a consciência; para não haver um egocentrismo obcecado e cego, a epoché é fundamental – para consigo, para com os outros, para com o mundo. Eis, por fim, a razão de haver uma passagem de Sein und Zeit de Heidegger no início deste texto. Um convite para tornar o "existir" em algo mais autêntico, ainda que coberto por subjetividade, ilusão e quiçá solidão – na possibilidade de um solipsismo absoluto – através do envolver-se ao mundo e aos seres (Dasein) deste mundo – apartando o solipsismo – encontrando a essência de cada coisa-em-si. Eis o sentido que, talvez, torne mais vivível esta vida qual compartilhamos todos – nós, humanos.

Tudo o que for escrito por mim, em especial no diário Monólogos Conscientes na Hermenêutica da Solidão, terão como fundamento estes princípios de compreensão, tanto para com os fenômenos que se manifestam e me vêm de encontro no mundo, quanto para aqueles indivíduos que desejam apreender-me através de minha escrita (que faz-me ser como sou). Somente na compreensão transcendente do interpretar é possível a troca mútua.