E esta sociedade patriarcal acaba quando?
 Foto de  Sam Manns  em  Unsplash

Foto de Sam Manns em Unsplash

Eu não me autointitulo feminista. Ser “feminista” significa, antes de tudo, limitação. Assim como qualquer outro termo que serve de rótulo, o termo “feminista” segue a mesma linha (importante ressaltar que estou falando do termo, e não da ideia e da luta feminista). Quando buscamos nos envolver com as pessoas, tendemos a levar em conta principalmente ou apenas os seus rótulos. Segundo o Dicionário Online de Língua Portuguesa, “rótulo” significa: “Peça geralmente de papel, com inscrição ou letreiro, que serve para informar sobre o objeto em que é fixada; dístico, letreiro, etiqueta”. Os termos são os rótulos humanos, quando fixados em nosso ser, mostramos ao mundo que somos aquilo e nada mais, ou que somos principalmente aquilo; isso nos limita.

Objetificamos a nós mesmos nos tratando como uma embalagem de shampoo; como se bastasse dizer o que está escrito no rótulo para que o outro indivíduo nos possa conhecer plenamente. Um erro gravíssimo, pois que somos humanos em movimento e cada dia que passa mudamos, aprendemos, tomamos novas decisões. Não somos objetos para termos uma etiqueta colada em nossa testa. Se eu disser que sou feminista, estarei mentindo, sou mais do que feminista, sou um universo de ideias, vontades, humanidade, afetividade e vida. Na luta contra o Patriarcado, eu sou, primeiro, uma pessoa, um ser humano; e meu objetivo é proteger os outros seres humanos e, portanto, qualquer desigualdade, humilhação, abuso, maldade, perseguição, discriminação, preconceito etc. deve ser combatido e eu lutarei por isso.

Um “machista” dificilmente dará ouvidos a uma “feminista”, porque, no geral, já estão separados em grupos diferentes, rotulados com ideias diferentes e, quando se aproximam, visam apenas convencer o outro de que ele está errado. Isso acontece porque o machismo e o feminismo jamais conviverão em paz, logo, pessoas que se autointitulam machistas ou feministas também jamais conviverão em paz. São rótulos que segregam as pessoas. Não estamos percebendo que por detrás de todos esses rótulos, o objetivo de todos nós é o mesmo: Viver com autenticidade, liberdade, respeito, tranquilidade e significatividade!

O sistema patriarcal trabalha com ferramentas de opressão e violência que afetam todos os indivíduos, principalmente aqueles que não são “homens-padrão” (entenda como “homem-padrão” os homens que são considerados exemplos dentro da sociedade patriarcal por causa de suas características superficiais: cor de pele branca, gênero hétero, agressividade, capacidade de liderança etc.). Mas também afeta esses “homens-padrão”, e como exemplo temos ideias do tipo: Homem tem que ser forte e bruto, não pode chorar, não pode ser “sustentado” e deve prover a família — isso gera opressão e repressão aos meninos já na tenra infância. Lembrem-se: Todos os homens já foram, um dia, meninos, crianças inocentes corrompidas pelo sistema. O Patriarcado está enraizado, está na religião das pessoas, está nas palavras das pessoas, está nos gestos, nos movimentos, na infância, no crescimento, nas escolhas; está no inconsciente que é aquele lugar de nosso Ser que só conseguimos acessar com intensa dedicação à reflexão e ao autoquestionamento. Portanto, rotular-se de feminista é muito pouco para tantas instâncias desta nossa luta contra a raiz patriarcal que gera sofrimento ao mundo, que mata, que fere, que impede a vida de seguir seu curso natural, autêntico e principalmente aprazível.

Decerto que é importante que continuemos defendendo causas dentro da sociedade; defender as mulheres, lutar pelo feminismo; no entanto, nós não devemos dizer que somos feministas, em meu ponto de vista eu defendo o feminismo — equidade, direito das mulheres — , mas eu sou humana. Parece bobo, parece irrelevante, mas por experiência própria eu afirmo, isso faz toda a diferença. Quando você se declara ser um ser humano que luta por causas, você abrange o seu potencial, aumenta sua capacidade de ouvir e compreender pontos de vista — inclusive outras causas, inclusive causas contrárias a sua! Você não deve se fechar a um único movimento; na história, bem sabemos, todo aquele que se fechou demais a um único movimento social, cegou-se a ponto de concordar com atrocidades. E, sinceramente, isso acontece em todos os aspectos da vida; é preciso tomar cuidado para não cair no conto da verdade absoluta.

É também importante que olhemos para a perspectiva de que, quando agredimos os outros, estamos lutando com as armas do Patriarcado e portanto, alimentamos o sistema. Quando segregamos, generalizamos através de rótulos ou desconsideramos as causas dos outros, estamos agindo como o Patriarcado nos ensinou. O que significa agredir, generalizar, segregar e desconsiderar? Significa, entre muitas coisas, deixar de lembrar que todos nós — de qualquer etnia, gênero, gosto musical, etc. — todos nós somos humanos e sofremos, aprendemos, existimos e temos nossa singularidade. Homens machistas não são machistas porque acham divertido, eles são machistas porque está enraizado na cultura, na infância, na família, como eu já mencionei. Algo enraizado não se esvai com facilidade, muito menos diante dessa separação social de homens e mulheres onde um joga em cima do outro culpas e justificativas.

Uma professora minha dizia: “Se a pessoa não sabe agir diferente, é porque não aprendeu, vamos ensiná-la”, essa mesma professora ensinou-me que é impossível aprender sem o afeto. Quando atendi crianças na clínica de psicologia, percebi que todas elas tinham algo em comum: Só aprendiam, confiavam, ouviam e entendiam quando sentiam grande afeto pelos psicólogos; o mesmo se dava com adultos, era muito mais fácil gerar reflexão nas consultas, quando os pacientes/clientes estavam vinculados aos estagiários-psicólogos. Durante o curso superior e também na ensino fundamental e médio, eu só me dedicava àquelas matérias que eram ensinadas por professores legais e divertidos, que demonstravam se importar, respeitar e trabalhavam o afeto dentro da relação professor-aluno. Com professores violentos, prepotentes, desrespeitosos, entre outras coisas, era muito difícil conseguir compreender a matéria que eles transmitiam, por mais que eu me dedicasse (é importante destacar aqui que falo de relações comuns e não relações de opressão psicológica em que um dos envolvidos permanece submisso a um abusador mesmo na ausência/deficiência de afetividade — nesse caso, há outras variáveis).

Isso significa que, ficar atacando o outro com agressividade e repulsa, resulta somente em mais agressividade e repulsa. Para ajudar alguém a pensar além de suas crenças e valores é preciso um vínculo afetivo verdadeiro. Por isso nós todos, independente de rótulos, personalidades e características, todos nós humanos somos responsáveis pelo sistema patriarcal, tanto pela ainda vigência do mesmo, quanto pela sua queda que há de vir no futuro; isso, pois, não estamos colocando em questão o nosso próprio comportamento diante da vida; por vezes vejo as pessoas que se dizem “feministas” proferindo frases como: “Não vivo para agradar macho escroto” ou “Nenhum homem pode ser feminista”. Sabemos muito bem apontar o dedo para o erro que os outros cometem conosco, mas os nossos próprios erros nunca são colocados em questão. Qualquer adulto, sem exceção, comete este erro de achar que está correto, mas nunca questionar as suas verdades. Ser responsável não é ser culpado, não é ser merecedor de castigo; é ser consciente, é olhar e ver com amplitude todas as raízes do sistema.

Todos os homens dificilmente conseguem se vincular verdadeiramente às mulheres, porque estão cegos pelo sistema patriarcal que os fazem enxergar a mulher de forma superficial e inferior; além de estarem tomados pelo egocentrismo que também é resultado do Patriarcado. Aqui eu falo de todos os homens, pois, realmente se trata de todos. Alguns conseguem quebrar as barreiras do sistema patriarcal, com empenho e consciência, mas ainda assim é muito difícil, pois está em toda a parte, está vinculado no inconsciente. Lembro-me de certo dia, logo no início de minhas reflexões sobre este assunto, eu estava conversando com meu parceiro sobre o quanto me sentia objetificada pelos homens no geral e o quanto eu percebia que eles faziam isso sem ter noção do ato deles; meu parceiro — o qual considero um homem muito consciente e que luta igual a mim pelos direitos humanos — revelou-me então que, muitas vezes, comete atos machistas com as mulheres que ele tem contato e que, infelizmente, ele só nota o erro após cometê-lo.

Meu parceiro não é o único que age de forma machista e só depois percebe e tenta reverter o erro; eu também faço isso, e todas as mulheres também agem com machismo dia após dia. Nós, até quando estamos conscientes do problema, às vezes nos sentimos inferiores aos homens, às vezes alimentamos inconscientemente a baixa autoestima em razão de nossa aparência — de nossos pêlos, de nosso peso. Quantas vezes dizemos “eu não consigo fazer isso”? É uma frase simples, mas que pode estar vinculada a ideia do sistema de que as mulheres são frágeis. Quantas vezes dizemos “ter filhos é meu sonho”? Parece, igualmente, uma frase inocente; mas está sim vinculada ao sistema patriarcal que ensina que a única coisa prestável na mulher é gerar filhos e que ela só se realiza ao fazê-lo. Diariamente precisamos nos ressignificar, isto é, lembrar-nos de quem somos, do que somos capazes, do porquê e pelo quê lutamos tanto e o quanto isso nos afeta intimamente.

Porque questionar é a alma da existência, é o fundamento do propósito, é a razão pela qual não fomos extintos.

Conseguem perceber que nossas atitudes, dores, alegrias, crenças, ideias e valores têm raízes muito mais profundas do que achamos que tem? O ser-feminista é superficial, pequeno e simplório diante do quanto significa ser mulher dentro de um sistema patriarcal. Lutar pelo direito das mulheres está além do dizer-se ser-feminista; está no dia a dia em que você se olha no espelho, está na dúvida e no questionamento sobre si mesmo, está no quanto você reconhece seu potencial e o quanto você apenas não consegue reconhecê-lo, está no envolvimento que você teve com pessoas na sua infância, está nos traumas, nas angústias, está em tudo isso! Absolutamente! E é preciso que olhemos para tudo isso, para a nossa humanidade, para o nosso desenvolvimento; é nisso que está a verdadeira luta.

Quando uma pessoa se depara com uma “feminista”, ela se depara com o estereótipo da feminista. Porque eis aqui mais uma característica do rótulo: ele sempre traz consigo um estereótipo, pois que ele é simples demais para englobar uma totalidade ampla de significações distintas. O ser-feminista não conta às pessoas o quanto é difícil ver, por exemplo, nossa mãe em um casamento fracassado e sem autoestima; não conta às pessoas o quanto perdemos forças por causa de parceiros(as) abusivos(as); não conta sobre o quanto era doloroso apanhar do pai e o quanto é triste não ter voz entre familiares ou amigos. Porque o rótulo sou-feminista só indica um estereótipo e uma causa. Será que ele conta que certa vez passamos a noite inteira chorando pela morte de nosso peixe dourado? Ou é preciso falar de direitos dos animais para entrar nesse assunto?

Nós não somos “coisas” isoladas. Ninguém é só mulher, ninguém é só homem.

E essa sociedade patriarcal acaba quando? Talvez quando pararmos de gritar por movimentos sociais semi-individuais e começarmos a gritar por autoconhecimento, empatia, humanidade, questionamento e principalmente compreensão. Destruir raízes, nossas próprias raízes, até aquelas que defendemos até a morte; para somente assim destruir as raízes sociais. Deixar de separar a humanidade por crenças, estilos, cores de pele, partido político, causas etc.; pode parecer uma utopia conseguir deixar de separar a humanidade dessas formas tão superficiais e começarmos a ensinar com afetividade e sem prepotência ou desconsideração, mas, sinceramente, não vejo outra possibilidade. Precisamos ir contra o Patriarcado com as armas contrárias.

Não, não é fácil e não será fácil. É muito difícil não se alterar diante das injustiças, diante dos discursos de ódio; é difícil não insultar aqueles que insultam você. O intuito deste texto é gerar reflexão, é claro que não podemos de repente amar todo mundo e levar flores para a guerra — pessoas morrem todos os dias dentro desse sistema doentio e isso é inadmissível. Não podemos fechar os olhos e pedir “paz e amor”, temos que gerar estratégia, investir em pensamento e em dúvida. O problema é que o sistema patriarcal que nos destrói, é o mesmo que nos faz acreditar que “afetividade” é algo romântico e fraco; ou que questionar e pensar é coisa só para filósofo; são essas as mentiras do sistema. A afetividade é sim uma ferramente de suma importância para conquistarmos a justiça que queremos, a equidade, os direitos humanos, a paz, a tolerância e tudo mais. E o questionar-pensar nunca foi característica apenas de filósofos.

Infelizmente não podemos fazer tanto quanto gostaríamos, não estamos ao lado de todas as mulheres quando elas sofrem abusos, infelizmente não podemos ajudar todos os moradores de rua, todas as crianças sem escola, todos os transsexuais que apanham até morrer. Infelizmente temos poucos recursos, segregados por rótulos e perdidos em nossas próprias ideias, não conseguimos alcançar a potência precisa para agir diretamente no problema, salvando mulheres, dando oportunidade a todos os moradores de rua, encontrando escolas para todas as crianças, fortificando a comunidade LGBT+, por isso a reflexão que proponho é importante.

Se aprendermos a usar da afetividade para gerar pensamentos e questionamentos e unir a isso as ações práticas e diárias para ajudar e informar as pessoas que vivenciam o extremo dos males do Patriarcado, haverá sim uma mudança muito mais significativa; no entanto se, por acaso, não ocorrer essa mudança, certamente aprenderemos tanto com a proximidade afetiva que, decerto, já validará imensuravelmente a tentativa. O que não podemos é continuar gerando violências — explícitas ou implícitas — e segregação, pois, isso sim, já está mais do que comprovado, não funciona!

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Originalmente publicado em: NEW ORDER - Revista

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