Então cortei meus cabelos

 Foto de  Adam Cybulski

Um ato singelo de alguns milhões de porquês; um ato sombrio que por entrelinhas confessa que é também um ato de luta, de cansaço, de necessidade e de liberdade. O véu da imaculada, da ninfa, cortado com a melhor tesoura da casa, porque “quem sou eu” voltou a me assombrar depois que vi com os olhos bem abertos toda essa opressão sobre meu gênero Mulher.

Não há mais como esconder o rosto redondo detrás das madeixas encaracoladas; nem mesmo há como deixar menos visível os ombros largos que por séculos odiei. Não há manto em minha cabeça, este é meu rosto agora, minhas bochechas, minhas pintas, minhas orelhas. Decerto que sete toneladas foram retiradas de mim após o corte caseiro. Olho no espelho. Essa sou eu. E eu sou mulher.

“O que achou?” — pergunto a ele, seu olhar desconfia. Por que preciso perguntar? O que espero? O que devo ao gênero Homem? Se estou satisfeita em libertar meu rosto, em mostrar meus ombros, em exaltar meu pescoço, por que busco algum tipo, ainda de que latente, de aprovação? O que espero é que não me julguem por eu ter este rosto, estes ombros e este pescoço… Respiro fundo e minha carne me conta que há anos sofro de ansiedade.

Minha carne é pegável, sim, posso apertá-la. Costumo tocá-la, olhá-la e, por vezes, também, odiá-la. Às vezes espero que ela desapareça, podíamos ser esqueletos apenas, guiados por um espírito que escapa um pouco entre as costelas de cálcio. Eu achei, no começo, que tudo era só sobre cortar os meus cabelos, mas a angústia detrás disso é profunda como um poço, como um pélago.

Acho que não pertenço a esse mundo, porventura nem humana eu seja; comecei a pensar isso depois que me incomodei com aqueles que usam o termo “homens” para se referirem à humanidade. Pode ser isso; o rosto e os ombros menos “femininos” agora que me desfiz do véu, cabelos mais parecidos com os cabelos da maioria dos homens. É, talvez eu quisesse isso, ser mais homem para poder me encaixar um pouco melhor neste mundo que fui obrigada a fazer parte.

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Texto originalmente publicado no Medium

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MediumOanna SeltenComentário