Annize e Levian

 Foto de  Thomas AE  em  Unsplash

Foto de Thomas AE em Unsplash

Annize os amou como jamais pudera; acima de si, com dedicação e devoção, ela os serviu, pois era, em sua íntima essência, uma mulher transcendente. A poesia dos olhos dela era melancólica e erótica; triste como uma flor nocturna à espera da coleta de seu néctar. Mesmo trazendo na memória as dores da traição e do abandono, ela sorria como o algodão mais doce, como o açúcar mais agradável ao paladar. Se eu tivesse de escolher uma fruta para representá-la, escolheria, decerto, as amoras, pois delas bem me recordo, colhidas no nosso quintal e apreciadas pelos lábios da mulher mais bela que um dia já conheci. As amoras pintavam os dedos de Annize, a cor era púrpura viva; ela, então, levava seus dedos à boca e os chupava devagar. Algo suscitava em mim ao vê-la fazer aquilo, era um tipo de tensão, uma timidez, porventura uma tênue dor em algum lugar do meu corpo. Era difícil identificar, afinal, eu era apenas uma criança. 

Nas noites frias ela caminhava de meias brancas e roupão, ao meu quarto seguia e, ao ver-me, tão logo beijava-me a fronte para desejar bons sonhos. Eu a admirava, não poderia eu ter uma mãe tão mais incrível quanto ela, pois, ela já estava no ápice. E eu nunca hesitei em dizer aos meus colegas o quanto minha mãe era bela e cuidadosa, muitos deles se irritavam a ponto de nunca mais direcionarem-me palavras; sei que era inveja, eu pouco me importava. Lembro-me que em certa idade, mamãe explicou-me que teria de fazer-me uma massagem peniana, obviamente ela proferiu-me de modo inteligível à minha idade. Ordenada pelo médico no qual eu visitava frequentemente, iniciou a massagem, todos os dias, por apenas um minuto, de modo a não acarretar problemas maiores decorrentes da tal fimose tão conhecida pelos homens. 

Ela tentava sempre ensinar-me como deveria ser feito, pois, tão breve eu cresceria e teria de fazer por conta própria, eu apenas sentia o prazer de suas mãos femininas e macias tocando-me todos os dias; era de um prazer descomunal, era como estar de volta à paz do ventre. Todavia, Annize não usufruía da mesma eutimia que eu, vez ou outra eu a encontrava chorando, amarguradamente, debaixo de seus lençóis carmim, com lenços úmidos ao redor. Interessado em compreendê-la, eu, inocente, indagava sobre sua dor e ela, tão prudente, sorria e afagava-me os cabelos: "Oh, meu menino, não te preocupes, trata-se de uma enxaqueca, breve passará". Embora não houvesse nenhuma razão para duvidar de minha tão adorada mãe, eu sabia que algo estava errado, que aquelas lágrimas e aqueles soluços vinham de outra fonte que não a dor física; mas, claro, eu era apenas uma criança, sequer poderia apreender o significado de minhas percepções intuitivas. 

Aos sete anos, ela me disse sobre o inevitável: as massagens findar-se-iam. Explicou-me que eu estava crescendo e deveria ter minha privacidade. Mal sabia ela o quão ter privacidade era-me terrífico, perder o carinho de suas mãos em meu pequeno pênis era-me o maior martírio, a desgraça mais angustiante. Não revelei nada a ela, tampouco insisti; de alguma forma eu temia em dizer o que sentia e, mais do que isso, quando ela me beijava no rosto com seu doce hálito de framboesa, eu não poderia resistir, eu não podia desacatá-la. Passei a me tocar como ordenado, contudo, não era o mesmo prazer. Somente na pré-adolescência eu descobri a ejaculação, foi quando percebi que pensar nas mãos de minha mãe tornava meu pênis rígido e, assim, mais fácil para alcançar o orgasmo. 

Em uma noite, sob a tutela de uma babá pouco atenciosa, busquei proteção no quarto de Annize; a luz era amena, confortável como o imo do Outono. Eu estava com treze anos de idade. Deitei-me em sua cama, o seu eflúvio selvagem e virtuoso penetrou-me de tal modo que me trouxe a mais avassaladora excitação. Busquei suas roupas no armário, queria revivê-la ali, senti-la mais próxima de mim. Foi quando esbarrei n'uma caixa com cartas sem destino ou remetente. Já alfabetizado, abri uma delas por curiosidade. Annize escrevera, reconheci sua caligrafia atraente; a missiva era acrimoniosa, n'um tom de aflição pungente. Ela escrevera sobre a saudade, a solidão, o desejo guardado em seu peito, a ausência de um homem para tocá-la e abrigá-la. Aquelas palavras doeram em mim, eu chorei. 

Nunca conheci meu pai e naquele ínterim, eu cobiçava sua morte. Que tipo de homem abandonaria Annize? Humano, certamente, não era; quiçá tratava-se d'um animal abominável vestido de homem. Ah... se meus braços não fossem tão pequenos, se minha força não fosse tão mísera, se eu pudesse manusear uma arma de fogo... sim... eu o caçaria e vingaria a dor de minha querida mãe. Não só a ele, maldito verme covarde, mas a todos os outros que usaram minha doce mãe como se fosse uma boneca. Transtornado, deixei o quarto dela e adormeci coberto pelo ódio, na solidão obscura de meu aposento. 

Os anos se passavam, passei a me dedicar a ser o filho perfeito; os elogios de minha mãe e seus sorrisos sinceros eram o meu deleite, a minha força. A masturbação estava cada vez mais recorrente, o silêncio era o meu escudo. Dos dezoito aos vinte, afastei-me desta fantasia infantil, por três anos amei uma única mulher: Alva. Que, coincidentemente, possuía mãos parecidas com as de Annize. Entorpecido deste sonho, jamais recorri às mãos de Alva em busca d'um outrora emocional, pelo contrário, eu amava as pernas de Alva e delas fazia meu antro de gozo diariamente. Sua pele era como seda, e a timidez que curvava suas expressões fazia despertar em mim uma sede perversa; transávamos tanto quanto ela podia, por vezes Alva tinha de pedir para que parássemos, pois, estava exausta; bem criado como fui, eu a respeitava, no entanto, me sentia incompleto. 

Casamos, aos meus vinte e sete anos. Apenas pela insistência da família de Alva. Eu estava disposto, pois, trabalhava n'uma rede de design de edifícios e já concluíra o curso de engenharia, deste modo por que não me casar? Era interessante a perspectiva de ter Alva todos os dias ao meu lado, amá-la todas as noites, ainda que uma lacuna persistisse nociva e soturna. Annize estava repleta, sabia que tinha me criado com perfeição, eu era já bem-sucedido e poderia, enfim, criar a minha própria família. Qual mãe, digna de ser mãe, não apoiaria o filho? Ela adorava a Alva, por vezes conversavam horas e horas. Elas tinham muito em comum, tanto que impressionava. 

Três meses de casamento e nada estava mais belo como fora no dia da cerimônia. Não conseguia fazer de Alva a minha amante; algo me freava sempre que me deparava com seu torso nu. Certa ojeriza imergia meus sentidos e neste caos eu pude perceber que as mãos de Alva poderiam salvar nosso casamento. Lembrei-me de mamãe, dos carinhos, do amor, do abandono que sofrera e da força que manteve todos estes anos de minha vida. Busquei nas mãos de Alva um retorno ao ventre, porém, fora uma tentativa de cavalar fracasso. As mãos dela eram finas demais, pálidas demais, infirmes e ásperas. Algo havia acontecido ali, algo mudara. "Não, Levian, nada acontecera com minhas mãos, pare de agir como um insano!" – proferia-me. Eu apenas vivenciava a sensação do mais etéreo ceticismo perante suas palavras. 

Naquela noite estava impossível domar a ansiedade; tranquei-me no banheiro, Alva dormia no sofá; sentei-me à beira da banheira e iniciei o ato, tendo em vista as mãos de minha querida mãe. Lembrei-me de cada detalhe, o tom bege semicorado, o calor, a maciez... ah... o perfume... ah... sim... Annize, deixe-me gozar nas tuas mãos... No findar do orgasmo mais aprazível que um dia experienciei, lavei-me e busquei a cama para uma noite, finalmente, calma e tranquila. Contudo, ao abrir a porta, deparei-me com Alva sob uma expressão de terror e asco. "És um doente! Um... pervertido... um demônio perverso e... nojento!" – ouço-a, mas não me afeto. O alívio em ser descoberto me acometia devagar. Alva poderia amar-me daquele modo, ou poderia deixar-me, nada havia a se fazer, eu estava em paz mesmo sendo expulso de nossa casa. 

De malas prontas, toquei a campainha. Annize abriu a porta, estava bela, como sempre. “Filho? O que fazes aqui?” – Ela olhou em direção à mala, destravou a grade entre a porta e o quintal. “Briguei com Alva, ela poderia ter feito-me dormir no sofá, mas achou mais interessante expulsar-me de casa”. Sorri, tenso e aliviado ao mesmo tempo. Mamãe me acolheu como supus e pediu explicações sobre o ocorrido, ela não poderia passar suas mãos em minha cabeça antes de saber quem era o errado naquela história. 

— Mamãe, serei sincero contigo; não há mais como guardar isso dentro de mim. – Iniciei a fala, n'uma eutimia inacreditável. — Lembra-se de ter, aos sete anos, cessado a massagem peniana para que eu pudesse aprender a fazê-la sozinho? – Annize demonstrou surpresa. 

— Ah... Claro filho... ainda te lembras disto? Faz tanto tempo... 

— Lembro-me e não só me lembro como jamais esqueci. 

— Como assim, filho? – Sentei-me na poltrona, observei-a no sofá. Suas mãos estavam unidas, delicadas. Mesmo com seus cinquenta e dois anos de idade, era ainda a mesma, para mim, a mesma que me trouxe ao mundo há vinte e sete anos. 

— Eu apreciava a massagem que fazias; excitava-me mesmo que eu não soubesse o que era excitação. Com o cessar da mesma, a ausência de teu toque me foi árduo. Desde então não parei de masturbar-me lembrando de ti, de tuas mãos agradáveis. – Comecei a suar frio, mas não cessei a confissão. — Então, em suma, Alva ouviu-me proferir teu nome enquanto eu me masturbava no banheiro; não poderia, portanto, fazer outra coisa além de expulsar-me... Era previsível... – Respiro fundo, busco seus olhos de mãe. 

— Eu sinto muito, filho... nunca imaginei que teria a ti feito este mal, foi uma recom... 

— Não, mãe – a interrompi — Mal algum me fizeras! Estou aliviado... Viver com Alva sem revelá-la minha excitação por ti é como enganá-la e traí-la, isto estava me consumindo... – revelei. Ficamos em silêncio por alguns minutos. 

— Talvez, filho, se eu... fizer isso... talvez o trauma... Eu não sei... 

— O que? Diz o que estás pensando? – indaguei, inocente da proposta. 

— Bem, porventura esta tua fantasia cesse se eu te massagear por fim, como quando eras criança, por um minuto. Lembrarás, reviverás e abandonarás. 

A proposta perfeita. Era evidente que aquilo me salvaria da completa imersão semidoentia àquele passado já tão reminiscente. 

— Está bem... – digo e a vejo aproximar-se. 

— Certo, farei como fazia naquela época, tu verás que não é nada tão grandioso. As crianças fantasiam mesmo. – Ela abriu o zíper de minha calça, fitei suas mãos e tremi; no segundo entre o abrir e o retirar, meu falo já pulsava como o falo virgem. Vi Annize se assustar quando à sua frente despertou um plenitúrgido pênis, grosso e altivo. Ela me olhou. 

— Desculpe... eu... não... 

— Seguiremos com o plano... claro que te excitarias... está tudo bem... – Ela inicia a massagem que, realmente, é sem graça e patética, não estimula nada meu pau duro e, ainda assim, estava me lavando ao êxtase... estava tão veemente... tão absurdo... tanto... tanto que jorrei toda a minha porra no rosto de minha mãe antes de poder avisá-la da aproximação do orgasmo. Fitei-a, coberta de esperma, desejei fodê-la. 

— Perdoe-me... eu não percebi que.... estava tão... – Levantei-me e busquei um pano para limpá-la. — Perdão, mamãe, perdão fazer-te passar por isto... eu irei embora... – Perto dela, limpando seu rosto, lembrei das cartas, lembrei de sua dor. Eu não poderia ir embora como todos fizeram. Sentamos no sofá, cessei a limpeza e toquei seu rosto com carinho. 

— Sei que tu choravas por solidão e não por enxaqueca – profiro. — Não posso ir embora, pois, te desejo. Após o orgasmo de agora, desejei penetrá-la e amá-la para arrancar de ti o sofrimento que vivencias dia após dia desde que nasci, e quiçá bem antes de quando nasci. – As lágrimas dela nascem céleres e intensas, como quando dizia ter enxaqueca. Beijo seus lábios, é recíproco. — Deixe-me dar-te o que mereces, minha doce, deixe-me fazer-te feliz como jamais fora... 

Meu pênis despertava outra vez, ela estava vulnerável e eu a amava tanto. Deitei seu corpo no sofá, suavemente, levantei seu roupão e sua camisola escarlate, sem cessar o afago em seus cabelos, penetrei sua cona úmida e voraz. Ela gemeu, como uma menina, como uma mulher, como quem almeja amor e cuidado. Envolvi-a nos meus braços, aumentei o ritmo da penetração. 

— Ah... sempre soube que merecias o cuidado... mas nenhum outro homem te conhecia tão bem quanto eu e, portanto, jamais poderiam ter-te por completo... – Do choro à luxúria descomedida, ela me abraçou e gemeu, sua cona prensava meu falo, segurei o segundo orgasmo; o prazer era para ela e não para mim. Beijei seus seios, lembrei-me mais da infância, suguei-os, mamei neles como quando era menino; não havia leite, mas havia a textura gostosa de seus mamilos. Ela então gozou no meu falo, tremi enlouquecido, gritamos juntos pela volúpia... Diminui o ritmo aos poucos, preparei-me para sair de dentro dela, ainda que meu pênis estivesse desperto dado que somente ela gozara. Diferente de Alva, bastou-me ver o prazer de Anniza para sentir-me satisfeito. 

— Por favor... não saia... – ela sussurra. Surpreendo-me. — Continue... – ela implora. Eu recomeço. 

Amei Anniza até o amanhecer, quando se aproximou a alvorada junto ao orvalho tocando as plantas e a terra. Nua, em meu peito, ela respirava devagar; não dormimos, não poderíamos dormir, era preciso vivenciar o instante e eternizá-lo. Sua pele era doce, suave sabor de céu. Mantive o afago em seus cabelos, jurei na quietude que amá-la-ia até o findar de meus dias, foi quando sua voz angelical quebrantou o cantar dos pássaros e o pensar contínuo de minha mente. 

– Quer algumas amoras? – ela pergunta. 

Sorrio. Estou em casa.