Beth

 Foto de  freestocks.org  em  Unsplash

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Sentada, olhava para a janela semi-aberta. Seus olhos captavam, em desfoque, as luzes da grande cidade; era noite, chovia. Seu vestido de negro chiffon obscurecia ainda mais a noite densa. Ela se perdia em seu silêncio enquanto suas pernas aqueciam-se entre si, a taça Bordeaux em seus dedos cumpridos, unhas rubras; aroma de vinho Cabernet Sauvignon. Talvez apreciasse a ausência de luz, o silêncio e a solidão de um sábado lúgubre, se não fosse o sentimento lânguido de saudade. Não, de maneira alguma ousaria ela confessar que a imagem em sua mente era o perfeito traço do rosto viril de seu, outrora, amante. Em honra à droga que a tornava ébria, em honra a feminilidade de suas entranhas. Ainda assim, a imagem era clara; de certa forma reluzia, ofuscava o orgulho.

Batom rubro no cristal, brisa fria arrepiando a pela nívea. Beth levanta-se; cai sobre si o leve chiffon que delineia as pernas sem deixá-las ocultas. Não poderia deixá-las, pois, eram belas; torneadas e límpidas. Então, embora sutilmente turva, ela se aproximou, elegante, da janela — a mesma que encarava há pouco. “Sade poderia, com maestria, cantar meu desconsolo; orgulho dissimulado.” — Proferiu Beth a si mesma. Podia admirar os casais apaixonados deixando o Cabret Luvier frente ao seu apartamento. Primor aos mais abastados homens; fortúnio feminil. Ela movimentava sua cabeça, sentia-se indignada com a hipocrisia: “Sequer sabem o que é amar…” — Acendeu um cigarro, ainda que odiasse fumar — inconscientemente o fazia por lembrar-se daquele que a invadia o pensar desde que deixara a confraternização de amigos há pouco tempo — cerca de uma hora atrás. Reuniam-se no mesmo local que, agora, ela observava de longe.

‘Svend’ era o nome de seu ex-amante que, ainda, era estranhamente amado. Não com romantismo cego ou paixão dilacerada — era amado por amor puro e simplesmente; sem nada a acrescentar. Pelos olhos verdes ou pela força com que tocava na pele nívea de Beth; porventura pelos lábios quentes e o sexo suculento — não havia como saber exatamente o que mais a deixava em sutil desequilíbrio; o amor velado ou o corpo despido — palavras impudicas nos ouvidos adornados de pérolas.

Mais um gole, droga lícita ingerida, uva alcoólica. A brisa intensificava-se à medida em que os minutos se passavam, Beth ainda observava amantes efêmeros de Cabret Luvier — gostaria de não ser tão Beth, tão entregue ao amor abismal; ao mesmo instante em que se exaltava pela vaidade de ser si mesma. A mulher fatal — de certa forma imortal, jovem-mulher, fêmea intocável.

Todavia… os olhos ainda eram verdes, o toque ainda era ardente, a memória ainda era vívida. Beth fechou seus olhos e sentiu sua cútis arrepiar-se pelo gélido ar das montanhas do Sul. Svend em sua mente — e ela permitiu-se lembrar — não havia como ir contra a memória.

— Suada, assim, vejo que és este éden
Só não te percas do pecado que te exalas
A força feminil da ganância sexual desperta
E a docilidade que só eu vejo nas tuas trêmulas mãos.

— Vais pelo meu silêncio, Svend.
Nunca morri nua, exceto agora.
Tua voz, nos mais belos proferidos vocábulos,
Só dizem que vais.

— Talvez esse seja a tua mortalidade.

— E a tua, Svend, quem julga?

Silêncio. A porta aberta, o fim amargurado. Svend deixara Beth, não por não querê-la, mas por saber que, dentro de seu apartamento no Norte de Hesm — banhado por lagos, pátios e jardins — esperava por ele, sorridente, uma jovem mulher a qual chamava de sua noiva. Ela, ali, acariciava seu abdômen por saber que, em seu vente, nascia a vida que a uniria ao seu esposo outra vez. E assim foi — de modo errôneo e inautêntico. Svend deixou de traí-la, pela responsabilidade de cuidar do seu herdeiro.

Beth sempre soube — e odiava saber tanto. Desde que lacrimou pelo ciúme, soube, estava amando. E a partir disso apenas passou a saber cada vez mais — quiçá, pois, Svend também a amava e, inteiriço, entregava-se; contava a Beth, pouco a pouco, quem era ele e o porquê estava ali. No entanto, era fraco. Partiu. Errou. E a lembrança tornou-se fardo. Para Beth e para Svend que, desde então, masturbava-se solitário sob a água quente do chuveiro enquanto pensava no corpo, na pele, na vulva, nos seios de Beth — e, no quarto ao lado, Beatrize acariciava o rosto de sua filha Amber. Beatrize mentia a si mesma, mentia felicidade — nunca mais fora tocada, beijada, amada; estava sozinha enquanto, em companhia, estava.

Mentiras, desencontros, falsos e ilusórios esquecimentos. Beth abriu seus olhos outra vez, suspirou — a melancolia se esvaiu. Preferia a beleza da recém-paixão, jamais a dor do adeus — ainda que amasse, afastou-se do amor e olhou para si. Decidiu que se entregaria ao que sempre esteve entregue: a si. Dançaria em sua companhia, tocaria seu corpo, amar-se-ia sexualmente pelo resto da noite obscura; estava viva, isso bastava — podia escolher, e em sua liberdade já escolhera.

Sorriu, apagou seu cigarro, abandonara o vinho — buscou a nudez e o toque. Lutando contra a visão vibrante, caminhou para o seu quarto — ela estava disposta a voltar à vida, tornando cinza-ardósia qualquer fúlgido resquício de Svend. No entanto, ao lado da cama, em um móvel sutil, um vaso Turquesa de Argila Ornamental, cheio Gypsophilas recém-colhidas, era culpado por retirar o sorriso frágil dos lábios de Beth.

Era um presente de Svend, chegara na tarde incolor do dia anterior; um cartão anunciava-o. Gypsophilas poderiam representar muito para Beth, todavia, um baixo grau de rancor lhe parecia mais digno de atenção — após um adeus tão frio, não poderia render-se a Svend outra vez, ainda mais naquele ínterim; Svend era, agora, pai. Beth sequer abriu o envelope preso aos finos galhos da planta — preferiu fingir que aquilo tudo era frívolo, irrelevante.

Deitou-se em sua cama, buscou outra vez a morte da lembrança e do sentir. Em pouco tempo amanheceria e as manhãs eram melancolia; por isso se deixou levar pelo silêncio, adormeceu. Em seus sonhos ela se afogou de tal modo que não voltou a acordar — foi levada pela irrealidade onírica, onde podia alcançar facilmente todos os seus desejos; permaneceu lá até ser obrigada a voltar, de súbito, ao som de seu telefone celular.

E a voz de Svend do outro lado da linha, aquela voz tenra e austera.

— Deixe-me subir.
Há sombras das quais não se consegue ver através da luz da razão.
E é nelas que se encontra o princípio,
O motivo primeiro,
A razão absoluta.

E os olhos castanhos jazeram outra vez nos tons verdes de uma íris já conhecida. O mistério das sombras, a luz extinta, escuridão legível. Beth perdeu-se em Svend outra vez, não poderia mais achar o caminho de volta a si — não mais. Nunca mais.