Eu Sou Uma Mentira

O mundo humano me oprime. Por vezes o enfrento, mas sei que é em vão. Há dias que acordo altruísta e, de modo risível, indago: “Como pode alguém não ser capaz de enfrentar este mundo?”. Alguns dias depois, olho para a porta do quarto e penso: Não consigo sair desta cama hoje, nada faz sentido, me sinto fraca.

Eu digo: “Ei, você tem que enxergar a verdade! Isso é um erro, você está errado!” para, na solidão, lamuriar: “Não há verdade, estamos fadados à ruína”… Esta sou eu, uma mentira; aquela que se culpa por não alcançar as próprias exigências e aquela que prega a vida saudável, mas prefere passar o dia escrevendo a ter que levantar cedo e fazer exercícios físicos. Aquela que abandona um pouco de esperança a cada asfalto, pois que como sangue ela escorre de mim; minha eterna hemorragia; até que acabe de vez, até que eu morra.

Cada dia me sinto mais fraca e sem rumo.

Um vazio se apodera de meu espírito, estou fitando um ponto hialino à minha frente; se alguém se importasse, tão logo questionaria meu silêncio e eu, com toda a minha sinceridade, confessaria que não sei… há algo estranho que não sei. Aqui no meu cerne, no núcleo de meu existir… existe algo que me consome, uma escuridão que se expande.

Tenho inveja dos extrovertidos, dos alegres, dos que são leves e justos.

E como uma mulher, odeio meu próprio corpo e me definho todos os dias; gasto toda a minha energia de vida para tentar ocultar cada vestígio de meu passado que baseava-se tão completamente no sentimento de inferioridade.

Alguns buscam o álcool, eu busco a Filosofia. Não sei qual é pior.

É verdade que o álcool pode acabar com seus órgãos vitais, sua família, sua vida; mas há na Filosofia um tipo de veneno que gradativamente vai obscurecendo os sentimentos, a paz, a vontade… ao mesmo tempo revolta, gera egocentrismo, introspecção. De repente eu sou uma mutação entre racionalidade e ceticismo exacerbado com boas vibrações e socialismo. De repente eu quero ir para uma aldeia e vivenciar a energia da Mãe Natureza para depois desejar um apartamento na Paulista com ar condicionado e toda a tecnologia que estiver disponível nas maiores empresas tecnológicas do mundo.

Eu sou uma mentira. Estou me corroendo. Ontem aceitei meu eu multiforme, hoje considero-me uma farsante. Nem sei mais se escrevo ou se finjo palavras também; me pergunto se estou me enganando, se acho ser capaz de ser Artista da Escrita quando, na verdade, sou só mais uma humana alfabetizada... Eu queria muito ser salva…Todos querem ser salvos… eu achei que poderia me salvar.

MediumOanna SeltenComentário