Fazer aniversário não é mais divertido

 Foto de  Liana Mikah  em  Unsplash

Faz alguns anos que o dia do meu aniversário é um abismo de solidão agônica. Nele uma penumbra de introspecção me acomete e as minhas emoções e sentimentos ficam abaixo do limiar do suportável. É uma mescla de ansiedade e consciência de que será o dia mais falso e raso de todo o ano e que eu terei de dizer “obrigada” sem nenhuma vontade de fazê-lo. A ansiedade, como oposto, é porque ainda guardo reminiscências da infância, quando fazer aniversário era uma festa sem fim! Hoje, aos meus vinte e quatro anos, tudo se resume a quatro balões brancos em uma sala vazia.

O primeiro balão, eu já disse, é a consciência. Ninguém veio me visitar no dia do meu aniversário, nem no dia seguinte, nem no dia anterior; mas algumas pessoas fizeram questão de publicar congratulações nas suas páginas de redes sociais. Elas poderiam ter me ligado, ou poderiam ter mandado uma mensagem privada (como algumas fizeram); mas nos tempos medianos o que tem valor é o escancarado, porque se não tiver “likes” não foi especial. Eu tenho consciência desta medianidade, de ser tudo tão raso quanto o mar que Jesus andou sobre e eu sei que terei de ser igualmente rés, pois que neste ponto eu já estou tão desanimada que não tenho forças para ir contra a mediocridade.

O segundo balão é o da tristeza, porque mesmo aquelas que não revelaram suas congratulações ao mundo como se o aniversário fosse delas, enviaram-me palavras simples, saudações comuns; é o famoso “parabéns, feliz aniversário, tudo de bom, que seus sonhos se realizem”. Só faltaram cantar a música “adeus ano velho, feliz ano novo” — e se fizessem isso seria até mais interessante. Isso me ascende a uma tristeza profunda, ainda mais para mim, que vejo o poder das palavras e tenho que diariamente lidar com pessoas que desprezam as palavras e as utilizam de forma superficial.

Uma amostra evidente de falta de empatia é quando me dizem que Deus vai me abençoar; eis aqui o terceiro balão da minha festa fúnebre de aniversário: A Solidão. E esta solidão não é aquela aprazível e necessária para que o autoconhecimento venha a ser; não, essa solidão é aquela do isolamento, aquela que vem quando não há fé na humanidade, nem vontade de existir. É como estar sem norte, vazio, perdido, invisível. Porque eu não acredito em Deus e dizer que Deus vai me abençoar é o mesmo que dizer que eu não terei benção. Será que ninguém nunca pensou o quanto sem sentido é dizer “fique com Deus, Deus te abençoe” a um ateísta? Não, ninguém pensou, ninguém pensa; o que vale é sua própria crença e não a crença do outro. A ausência de empatia é um soco na minha face, um soco diário; porque caminho sempre guiada pela ética do respeito e da compreensão, dirijo-me às pessoas tentando ao máximo deixar meu ego de lado, e o que recebo é “Deus te abençoe”.

Por último e não menos importante, o quarto balão da minha festa infeliz: A Frustração. Aquela menina doce e inocente que eu era aos meus cinco anos ainda existe em mim, só que hoje ela não é aquela que se encanta pela fantasia criada pelo capitalismo ao redor das festas de aniversário; ela se encanta pelo envolvimento verossímil, pela dedicação, pela lembrança, pelo cuidado. Eu acabo por criar expectativas de que pode ser diferente, que alguém vai me dar um livro de filosofia ou que alguém vai fazer um bolo vegano para mim; acabo achando que mereço amor assim, e então me frustro, porque o que ganho está apenas entorno de quatro balões brancos em uma sala vazia.

Por causa da consciência que tenho disso tudo, eu sei que terei de matar mais um pouco da criança que há em mim, caso contrário eu adoecerei em todos os aspectos da minha vida. E lembro-me com clareza daquela frase que não sei de quem é, mas que um dia ouvi ou li em algum lugar: “Alguns nascem para amar, outros para serem amados” — não faço parte do segundo grupo e preciso aprender a lidar com isso. 

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Se você me desejou um parabéns bem simples, no automático, sem realmente desejar, falando coisas comuns ou cheias de Deus no meio, não se sinta chateado com o texto; é preciso se frustrar um pouco para aprender. Afinal, acabo de aprender a matar mais um pouco de mim. Quem sabe agora, depois deste texto, quando um amigo seu fizer aniversário, você possa no mínimo falar ou escrever umas coisas mais elaboradas. 

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Ontem foi o “meu dia” e a única coisa que ganhei de fato e que realmente foi significativo para mim foi a percepção de que eu sou pequena, sim, pequena; bem ínfima, na verdade, e que tudo o que eu faço ou tudo o que sou trata-se de apenas grãozinhos de areia no deserto. Há muito o que preciso conquistar para conseguir autossuficiência, plena empatia, pleno afeto e plena tolerância; são nesses momentos amargos que eu percebo minhas falhas, minha reles humanidade; e me dou conta que sou dúbia como todos, estou perdida na existência como todos e nada mais posso fazer a não ser prosseguir rumo à prudência.

 
AnfemeraOanna SeltenComentário