Deixo

Deixo que o teu sorriso conte à existência que todo este vazio no peito vale a pena. Deixo que tuas mãos abram esta pequena cela que mantém alguns pássaros de minh’alma. Deixo que teus pés corram n’esta estrada excêntrica que construí e deixo que tua essência construa junto a mim este caminho. Deixo que tuas palavras alcancem meus ouvidos, mesmo quando almejo o silêncio eterno. Deixo que teu olhar quebrante minha ira sempre, todos os dias, sem hesitar, pois que o encanto nas tuas íris ascende-me ao aprazível tal como faz-me o universo. Deixo que os teus significados signifiquem em minha vida e que tuas memórias descansem em meu álbum de fotos.

Deixo que permaneças quando odiar-se, quando indesejar-te, quando frustrar-te, quando cansar-te. Deixo que compartilhes teu saber comigo e também o teu não-saber. Deixo que teu humor faça sala, deixo que alegria seja uma singela flor exalando suave perfume em nosso lar. Deixo que sejas meu lar e eu o teu. Deixo que as sombras se instalem quando preciso, para que possamos vencê-las outra vez. Deixo que teu espírito seja eterno, mesmo sendo, o eterno, um impossível. Deixo que a inspiração que emana de teu corpo possa ser oceano à minha Escrita e eu a deixo mergulhar no mais profundo d’estas águas. Deixo, enfim, o teu azul usufruir de minha escuridão, dar-lhe brilho índigo ímpar e indizível.

Deixo tanto e, por ti, deixo tudo, sabendo que nunca me permitirias deixar o que amo. Deixo tanto e, por nós, deixo o mundo; vou além do absurdo para nos firmarmos no firmamento. Deixo tanto, só não te deixo, pois que a ausência de mim não te veste e a tua falta jamais me será tragável.

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