Interiores (O Estupro) - Soneto Dedicado I

 Edgar Degas - L'intérieur (Le Viol), 1868 - 1869 - Impressionism. 

Edgar Degas - L'intérieur (Le Viol), 1868 - 1869 - Impressionism. 

Espero-te, aquecida; superno vislumbro-te
Estiro-me ao solo no tremeluzir soturno
Entreves-me, agonia, teu silêncio profundo
Nem o exíguo murmúrio ousa interromper-te;

Mãos conservadas, tórridas, coercivas, semotas
Estuam acima do admissível pela lonjura dantesca
E e'mim atuas, vívido, no bastar da tua presença
Faz de meus órgãos servis ao relógio que denotas;

N'este traço abominável dos teus braços escusos
Fulmina o aço viril, ouço o ponteiro, está ocluso
O proteges sob o tecido rijo, áspero como tu'alma

Ouço teus passos, mas não vens, és meu delírio
Tempo sórdido, tétrico, que esgana-me em martírio
Infligindo que me disponha a tua pungente calma;


Soneto dedicado à obra de Edgar Degas, por isso leva o mesmo nome, porém traduzido, da pintura. Embora o nome seja sugestivo a algo nada agradável, apreendi o conteúdo do quadro como uma relação de submissão e dominação já previamente estabelecida, por esta razão, dei este tom ao soneto. Não vejo o "abuso" que o nome sugere, exceto pela questão fetichista. Edgar Degas pintava, muitas vezes, baseando-se no que lia ou sabia acerca da história do mundo, esta incrível pintura - que ouso dizer intensa, melancólica, sombria e instigante, não se sabem com certeza qual fora a inspiração de Edgar para criá-la.  A incógnita permite, portanto, releituras diversas. Que há um conteúdo psicológico denso e sexual na obra, isso é evidente, que este é abominável, depende do ponto de vista.