Monólogos Conscientes na Hermenêutica da Solidão II

 Francisco Goya, The Adoration of the Name of The Lord (1772)

Francisco Goya, The Adoration of the Name of The Lord (1772)

Pensar na ideia de Deus para uma ex-cristã é munição para o ego dos cristãos atuais que estão sempre enraizados na única busca que lhes soa autêntica: pregar a palavras. "Pregar" que vem de "prego", os cristãos se acham os "martelos" do mundo, prendendo pessoa por pessoa na "madeira da metafísica" rsrs... "Acreditar" e "ter fé" tornou-se "ser cristão" e eu, que sempre fui cristã, pela ira de ver os meus "irmãos em Cristo" pregando palavras de ódio e incoerência, tornei-me cética.

O ceticismo é uma armadilha, bem como a ideia de Deus, bem como a mente humana. A mente humana é um maldito labirinto cheio de saídas e que busca sempre seguir o mesmo percurso assim que encontra uma das saídas, a mente jamais tenta descobrir outra para por em prova novas possibilidades. Esta é a mente humana: um mísero conjunto de hábitos. É por isso que busco a consciência, esta que está acima do hábito, do quotidiano, da metafísica, do ceticismo, da fé.

De fato é uma busca angustiante, principalmente porque, antes de perceber, a mente já está reinando. Hoje mesmo eu fiz as mesmas coisas de ontem (as quais não gostei), no entanto, somente agora me dei conta disso. Estou me repetindo, assim como a mente deseja. Não, a mente não está "fora" de mim, tampouco vive para me sabotar. Trata-se de um meio de ser, um modo de ser instintivo. A mente defende a si própria, isto é, nos defende. Seguir um hábito sempre soa mais seguro do que se aventurar. 

Não gosto que digam que sou abençoada por Deus - eis um dos pontos em que estive pensando. Se ele existe, prefiro que abençoe pessoas que sofrem mais, que são ignorantes, que estão dominadas pela mente e já sequer sabem o que é consciência. Se é para abençoar, escolha as crianças na Síria e não eu. Eu estou bem aqui, eu consigo pelo meu próprio mérito... Sempre que me direcionam um "Deus te abençoe", quem me dera dizer "Não, obrigada" sem que me achassem o próprio anticristo. Não sou contra Cristo, nem contra Deus ou deuses; sou contra os hábitos ignorantes e a baixa consciência; querendo ou não, a ideia de Deus e a religiosidade estão vinculadas à baixa consciência.

Não sou mais cética, ou, pelo menos, estou deixando de ser; isso não significa que acreditarei em Deus ou deuses, significa apenas que acreditarei no que observo. Eu não observo milagres, não observo Deus, não observo bençãos. Eu observo a mente e seus hábitos, a consciência e seu poder, a vida em si e a morte. Observo as raízes do que há e do que veio-a-ser. Acredito nisso que observo e isso não significa que estou acreditando em contos de fadas. O plano racional está vívido em meu cérebro. Acreditar é uma ferramenta (mal usada pelos crentes em metafísica) crucial para a consciência absoluta. Acreditar significa não duvidar, as dúvidas podem gerar estagnação; isso não quer, também, dizer que deve se fechar os olhos; não, o acreditar deve ser consciente, racional e compreensível, mas nunca, absolutamente nunca, cético. 

Se por um instante hesitei que seria capaz de conseguir ganhar algo apenas com o poder da mente, o obstáculo está posto, provavelmente não conseguirei atrair o objeto desejado. Mais uma coisa interessante é: não adianta repetir diariamente que ganhará algo ou que algo acontecerá; a atração pelo pensamento não acontece primeiro no plano cognitivo, mas sim no plano sensitivo. Exatamente! Sentir que acontecerá algo é muito mais potente do que a pronúncia básica do "Eu acredito e vai acontecer"; lembro-me da frase "good vibes" da sociedade egocêntrica de hoje: "foco, força e fé" - nada é mais risível que essa frase. Sua raiz é o ego puro, a vaidade. Quer foco, força e fé? Faça silêncio e deixe de buscar "likes" no Facebook.

Escrevo para mim mesma, pois, escrever para pessoas é extenuante. Nunca - ou quase nunca - são capazes de compreender o que transferi à arte em relação a elas. Compreender a arte não é caçar um "por que?", é sentir que a efemeridade foi imortalizada ali, nas palavras, e tudo o que se pode fazer é sentir - abandonar a racionalidade - apenas sentir... no silêncio... Sentir consciente é uma lei para mim.