Monólogos Conscientes na Hermenêutica da Solidão IV

Boston Common at Twilight, by Childe Hassam. Date: 1885 | Style: Impressionism | Media: oil, canva | Dimensions: 152.4 x 106.68 cm

Por vezes penso na infância. No início do vir-a-ser e toda a comoção emocional de estar ali, existindo num corpo; a energia que antes era apenas uma abstrata possibilidade agora faz-se efetivamente um ser. Da energia ao ser é uma metamorfose estonteante, é transcendente e fascinante, no entanto o mundo dos seres vivos não está disponível tal como o universo de energia, intuição e possibilidade está disponível. Para tornar-se "ser" é preciso pagar um alto preço que é também a maior dádiva de vir-a-ser: unir à abstralidade o mundo racional. Isso, claro, se estivermos falando do vir-a-ser humano, ou melhor, do vir-a-ser γhr.

Efetivamente, não posso deixar de afirmar que se o vir-a-ser fosse uma escolha racional, nenhuma energia em sã consciência escolheria deixar a abstralidade para apreender tudo que há e veio-a-ser a partir da essência humana. Se bem que, se fosse enfim uma escolha racional, significa que ser uma abstralidade seria já como ser humano. Nascemos sem escolher e caímos no mundo como um raio célere; dependemos dos outros seres para entender o que significa existir. O início do vir-a-ser é a infância, momento de descobrimento, de aprendizagem, seria (ou poderia ser) inefável e excelso se não fosse tão angustiante, frágil e solitário. Entendo que vir-a-ser no mundo humano - dos tempos históricos até os contemporâneos - é um árduo ofício e uma dolorosa experiência.

Apreendo-me realista neste ponto, de forma alguma pessimista. Vejo a infância, a minha e a das crianças, a minha e a dos adultos que, como eu, já foram crianças; o que vejo é drástico sim, triste e como já disse, solitário. Todos os traumas adultos têm raízes infantis, Freud que o diga, e não precisamos de muito para entender que, sim, a infância é nossa maior fonte de traumas. Simples, pois que na infância estamos no início da compreensão da vida e, tal como todos os seres irracionais, viemos-a-ser na pureza do sentimento, na inocência da curiosidade e com encanto nos olhos; até termos nossos sonhos pisados, nossos desejos reprimidos, nossas descobertas oprimidas e nossa subjetividade manuseada como um objeto descartável - e a nossa racionalidade transformada em uma caixa para preencher com ignorância. Nesse período é que nos tornamos um poço de egocentrismo; ah, sim, a inospitalidade da raça humana.

É possível reverter este quadro, até certo ponto, a partir deste certo ponto só é possível ressignificar o quadro. Mas não é sobre isso que me disponho a escrever, a dor qual trago à tona não é sobre a tarefa de uma vida tentando reverter traumas infantis. Direciono-me àquela sensação lúdica, a nostalgia, quando não nos preocupávamos com o clima e com o fim da novela; quando brincar era a única opção, quando adormecer era suave e gentil, quando cada pequena semente alada era tão importante que nos despertava a alegria - pelo ato singelo de assoprá-la e vê-la retomar seu voo; quando o leite materno era a melhor opção, quando havia conforto, fascínio, intensa conexão com o tudo que há e veio-a-ser. Há crianças que já tão cedo perdem o equilibro das suas energias-límpidas do antes-vir-a-ser, porque aqui estão os adultos que ensinam sobre o quanto temos que fazer coisas insignificantes e o quanto nosso ser subjetivo é mísero - o correto é tornar-se nada além de uma cópia mal feita de uma humanidade à esmo. Crianças que sequer podem tomar o quente e suave leite materno, crianças que nascem na morte e vivem pela morte até a morte em si as tomarem.

Diante deste quadro decadente, afirmo, sem dúvida, que não há quem compreenda o universo infantil. Decerto é possível vagamente entendê-lo e debruçar-se a ele com a autêntica intenção de desvendá-lo, contudo, a sua totalidade, sua essência, está lá naquele "eu" que éramos na primeira década de vida. Isso, pois que, lá, na infância, não me ensinaram - nem a mim, nem a ninguém - sobre a plenitude da vida, sobre o preservar da essência destes dias primeiros que nos toca de maneira tão profunda. A palavra é "preservar", dos sonhos aos desejos, da curiosidade à brincadeira, da sinceridade à afetividade. Refletindo chego a conclusão que gostaria de resgatar o envolvimento verossímil que eu-criança tinha com o mundo, dado o encanto preservado do outrora em que eu era apenas uma possibilidade de vir-a-ser, isto é, uma energia.

Talvez ainda reste algo deste eu-criança em minha atual juventude, vejo resquícios ao me deparar com o fato de ser, a afetividade na vida adulta, um envolver-se por conveniência; pois diante disso, eu me entristeço como na infância. E me aflijo também ao presenciar uma sinceridade agressiva, uma falta de empatia, repulsa e doenças frequentes guiando as mentes dos adultos, idosos e jovens como eu. A criança é a única que olha o mundo tal como é, que olha nos olhos dos outros, que vê. Seria, no mínimo, sublime, se preservar fosse, junto à transcender, as palavras-guia de do existir humano desd'estes tempos tenros de prelúdio vir-a-ser. 

Oanna SeltenComentário