Melodia
 Foto de  Mouna Tahar  ©

Foto de Mouna Tahar ©

Visões instáveis de minhas pálpebras fechadas,
Uma brisa que canta na janela de madeira,
As paredes vermelhas d’um quarto inacabado,
A tarde de uma manhã solitária por inteira.

Um cansaço que não permite adormecer,
Ouço gotas no asfalto escuro e frio,
A chuva que, dos céus à Terra, vem a descer
Logo afoga em dilúvio os meus sentidos.

Almejo que as gotas não sejam fixadas
No céu nublado em nuvens mais cinzas;
Como desejo que as gotas não sejam fixadas
Nos cerne cerrado, trancado, sem saída.

Cante tua melodia para que eu possa dormir,
Desfaça as sombras que vagueiam lá fora,
Não me acorde dos sonhos que hão de vir,
Não me deixe deixar-te ir embora;

Se no abismo da existência cair meu eu
Quero que saibas: não temo estes abismos,
Nada é mais profundo que eu, entenda,
Nada é mais profundo que eu.

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Obra publicada originalmente pela Fazia Poesia

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