Ainda Somos Jovens

A nossa essência humana é universal, isto é, existem características de nossa constituição humana que são iguais para todos nós, por exemplo, aprender a se comunicar, pois todo ser humano nasce buscando a imediata comunicação. Além disso, nós somos seres de metamorfose, mudamos a nós mesmos tanto pela necessidade de adaptação quanto pela consciente vontade de mudança. Essa metamorfose é evidente no corpo e na mente — aos dois anos de idade, por exemplo, não temos uma cognição, nem uma linguagem, suficientemente evoluídas para conseguirmos aprender matemática básica. Só com o desenvolver corporal e mental simultâneos é que tornamo-nos capazes de compreender processos abstratos e complexos.

Portanto, todos os seres humanos nascem pré-direcionados ao movimento da transformação, seja ela qual for. Essa transformação física e mental simultânea e mais a capacidade de adaptação, geram uma rede de vínculos e aprendizagens que se dão de infindáveis maneiras dentro da totalidade humana. Assim acontece a vida singular, assim acontece a vida coexistente. No entanto, o seu desenvolvimento tem um fim. As pessoas nascem e morrem, este é o ciclo da vida.

Mas a Sociedade não morre e isso é o que difere nós, pessoas individuais, da totalidade social. A Sociedade não é feita pela essência das pessoas que estão na mesma fase do desenvolvimento singular; a Sociedade é feita pelos conhecimentos totais do montante humano, isto é, aquilo que, em conjunto e individualmente, vamos produzindo de conhecimento durante o ciclo da vida. A Sociedade não é a essência individual, mas é um reflexo dessa essência, ou seja, assim como nós, a totalidade social, o conhecimento humano, passa por fases de desenvolvimento e isso só é possível porque o conhecimento de cada geração humana vai se acumulando.

A suma maioria humana nasce e se desenvolve da infância à terceira idade, cada período é composto de características universais (como a mudança corporal, a capacidade cognitiva e a intensidade dos vínculos afetivos) e características subjetivas (como personalidade, gostos, desejos, etc.); e na plenitude deste mar de gente, há o conhecimento. A Sociedade é este conhecimento acumulativo, atemporal e imortal (enquanto existir humanidade).

No passado as pessoas geravam a rede de conhecimento com base nos poucos dados reais que obtinham de seu ambiente e, também, de sua criatividade. Não havia como saber o que era a tempestade ou o porquê do mar estar hora agitado e hora calmo, logo, elas associavam vivências reais com a imaginação, a fantasia. Por sermos nós seres de questionamentos e sempre ocupados, inconscientemente ou não, com a pergunta “quem sou eu?”, desde sempre tivemos de lidar com a questão da significação da vida. A criação de deuses e a associação de eventos naturais com acontecimentos sobrenaturais é uma prova de que nesse passado, as pessoas não podiam fazer nada além de fantasiar com o significado de tudo aquilo, pois que era tudo tão novo, tão inexplorado, tão magnífico.

Esse período de obscuridade e descoberta se estendeu por anos a fora. As pessoas nasciam e morriam e lentamente o conhecimento humano ia unindo as descobertas com novos questionamentos e novas associações, até o momento em que os deuses começaram a se tornar mitologia, as terras foram todas conhecidas, a tecnologia nasceu e, enfim, a sociedade saiu do conhecimento obscuro e predominantemente fantástico para o então atual conhecimento baseado em ciência, em liberdade de expressão, em grandes dúvidas e em noções de ética e moral muito mais evoluídas e objetivas. Ainda há muito o que descobrir, mas é a racionalidade que guia as descobertas e não mais a fantasia.

O passado da Sociedade, deste modo, pode ser comparado à nossa infância singular, momento de descoberta que nos pegamos admirados pelo mundo e fazemos inúmeras associações fantásticas — eis o porquê das crianças se interessarem pelo lúdico. Lá na nossa tenra infância, falávamos a linguagem da fantasia, da brincadeira, e explorávamos tudo o que podíamos; é o início da vida então tudo é uma incrível aventura.

Agora a Sociedade não está mais na infância, a morte da infância está cada vez mais revelada à nós e sabemos disso, pois quanto mais conhecimento acumulado, mais questionamentos e respostas vão surgindo e mais verdades, que eram outrora irrefutáveis, vão se invalidando. Hoje nós duvidamos mais, nos responsabilizamos mais, nos envolvemos mais; estamos caminhando para a ausência do medo do sobrenatural porque é hora de enfrentar tudo, viver intensamente, lutar por ideais reais, conquistar um mundo melhor.

As coisas do passado se tornaram tolices, o conhecimento até agora acumulado nos dá mais capacidade e com isso, mais poder; se outrora éramos uma Sociedade na infância, hoje, sem dúvida, estamos na pré-adolescência, pois não sabemos ainda lidar com assuntos da sexualidade (embora tenhamos muita curiosidade e estejamos inevitavelmente inclinados a entender este universo), nem das diferenças — queremos sempre andar com quem pensa como a gente; estamos em um momento de defender o que acreditamos sem ter muita noção das coisas, pois é ainda tudo muito confuso; as mudanças vêm de modo fugaz e ainda estamos lidando com o luto pela infância; a responsabilidade pesa agora, tudo começa a vir de forma intensa e ao mesmo tempo, do mesmo jeito que foi nossa pré-adolescência e adolescência individual. E é nesse período que tudo começa mesmo a vir à tona, a realidade bate à porta, é preciso crescer, é preciso decidir, é preciso abandonar a fantasia de uma vez.

A Sociedade é o reflexo de nosso desenvolvimento individual; ela passou pela infância e agora está na pré-adolescência; estamos em um processo natural de desenvolvimento e precisamos fazer com que o movimento ao crescimento social seja evolução e não involução ou estagnação; para isso certamente precisamos ir além de nossa mediocridade que nada mais é do que atravessar a ignorância, no sentido daquilo que estamos ignorando, e olhar com os olhos bem abertos — conscientes, prudentes e sensatos — à tudo o que existe. Como fazer isso? Questionando a tudo e a todos, principalmente a si mesmo e às suas raízes, tal como discorri no texto E essa sociedade patriarcal acabada quando? que fala da segregação social que muito caracteriza a fase adolescente de nossa Sociedade.

Mas o trabalho, claro, ultrapassa o questionamento; devemos retornar às nossas memórias e lembrar com um pouco mais de afeto de quem éramos quando estávamos na infância e adolescência e, a partir disso, aceitar as mudanças, olhá-las com bons olhos, e seguir o curso natural das coisas sem remoer o passado ou desejar seu retorno. Se lembrarmos que a adolescência é importante para uma vida adulta existir, poderemos entender melhor o que está acontecendo no mundo e ir aos poucos transformando a bagunça social em pensamento e conhecimento organizado.

Um dos grandes problemas humanos é nostalgiar demais a ponto de querer preservar valores infantis que só causam discórdia, terror e angústia às demais pessoas. Aceitar a morte da infância social é outro trabalho necessário para evoluirmos enquanto Sociedade; preservando o encanto e a curiosidade pelo novo — como na infância — , mas deixando para trás valores de fantasia como, por exemplo, a preservação da “família”; a ideia de uma “família qual preservar” é totalmente infantil, pois é lá na infância que não queremos abandonar nossos familiares, queremos estar sempre protegidos por eles; onde qualquer problema é facilmente resolvido se chamarmos pelos pais e pelas mães. Hoje, no entanto, sabemos que família é muito mais do que parentes de sangue e que uma família pode ser aquele grupo de amigos que te apoia e que te compreende; essa percepção começa a se delinear no período da adolescência onde é preciso lidar com a vontade de preservar os laços familiares e lidar com o curso natural de evolução que se trata de perceber que não existe uma família; existem relações que acontecem, que vão e vêm, que se transformam.

Portanto, além de questionar nossas raízes, aceitarmos com afeto as mudanças naturais do desenvolvimento e abandonarmos de uma vez por todas os valores infundados de uma infância fantástica, precisamos começar a nos preocupar com os tipos de conhecimentos que vamos carregar nas próximas gerações, pois eles revelarão a vida adulta de nossa Sociedade. É evidente, contudo, que todo o conhecimento é carregado em nossas costas e que há conflitos, talvez infindáveis, entre as gerações, isto é, aqueles que viveram quase a vida toda no período de Infância Social, não conseguem aceitar o período de Adolescência Social, pois que já passaram a vida inteira aprendendo um tipo de realidade (a fantasia, o conservadorismo, a submissão, a ausência de responsabilidade) e agora, diante da mudança, sentem-se ameaçados.

Por isso a consciência é tão importante, por isso eu a menciono em praticamente todos os meus textos; tendemos, nós, da “nova geração”, repudiarmos, insultarmos e até mesmo ameaçarmos aqueles que, da geração anterior, trazem comportamentos que claramente mostram ausência de responsabilidade (preconceito, machismo, discriminação); no entanto, se alimentamos consciência deste desenvolvimento, dessa dificuldade de mudança, desse curso natural, podemos agir mais com estratégia do que com intolerância. Por isso aqui deixo a indagação: O que você é e o que você faz individualmente proporcionará à Sociedade conhecimento para que ela se torne uma Sociedade Adulta prudente?

Ou será que suas atitudes individuais proporcionarão uma vida adulta à base de narcóticos?

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