Niher

 Konstantin Makovsky - Portrait of the Italian Boy

Konstantin Makovsky - Portrait of the Italian Boy

Niher estava, outra vez, amarrando seus brinquedos no tronco d'uma árvore pequena e fina; com cordas de galho maleáveis e ainda verdes, o pequeno e solitário menino divertia-se em silêncio. Um único objeto, porém, jamais era amarrado: boneco de plástico do vilão mais perverso e monstruoso dos desenhos animados; Niher sempre estava disposto a acompanhar a saga de Stravinus - o vilão - que com seus poderes imensuráveis lutava sempre para dominar as constelações. Para o menino, tratava-se de um deleite vivenciar a emoção do caos que Stravinus fazia emergir nos demais personagens.

N'um primeiro momento, todos os heróis e os jovens garotos estremeciam quando Stravinus estava prestes a manifestar-se em presença; n'um segundo momento, todas as jovens, até mesmo as heroínas, tinham um súbito colapso que as turvava em seus cinco sentidos. Todos sabiam muito bem que quando o mal se tornava evidente, o caos turvava as inocentes mentes. Niher era instigado por aquilo e, por essa razão, prezava por seu boneco de Stravinus, imaginava-se sendo ele.

Niher olhou ao seu redor, nada havia além de árvores e névoa frágil que se espargia com a brisa outonal. Estava escondendo um segredo, havia em suas vísceras um temor pelo segredo, pela culpa; algum adulto o estaria observando? Havia possibilidade de surgir, de repente, alguém que imediatamente o castigaria? Mesmo diante à dúvida, retirou de sua mala - a que levava para a escola todos os dias - uma boneca nua, ornamental, completamente flexível, de silicone e com longos cabelos negros. Seus olhos verdes estavam semifechados, pálpebras sensuais induziam sensações e suas curvas beiravam a perfeição. Cada detalhe de sua cútis tornava impossível cessar a admiração que emergia assim que era vista.

Niher segurou-a em sua pequena mão esquerda e em seguida fitou Stravinus em sua mão direita. Foi quando uma imagem veio à sua mente infantil: Stravinus, o cruel e desumano vilão, encontrou casualmente com uma mulher que, pela fragilidade de sua existência estigmatizada em seu corpo e semblante, fez despertar nele o mais bestial de suas entranhas. Ele, então, a sequestrou e atou o corpo dela n'uma árvore qualquer d'uma floresta densa e terrível. Agora ele faria mal a ela.

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