Nuomnea: algumas explicações.

Treze horas e o pêndulo alcança o ritmo preciso para tanger o som que desperta os mortos da letargia induzida pela estrela central, a estrela Qalihn. Neste momento magnífico a sombra atinge os acúmens dos alcáceres enquanto, do solo de areia negrume, emerge uma misteriosa névoa em cor brasão.

O clima ainda é ameno, pois o frio ártico aproxima-se somente por volta das dezesseis horas, neste instante, às dezesseis horas, os mais terríficos seres se apoderam das arestas tétricas dentre as construções curvilíneas em vitrais ornamentais do mundo de Nuomnea.

Com atmosfera escura, no vértice de colunas de tungstênio sinuosas, espargia-se luz escarlate iluminando as areias e estradas solitárias.

Às treze, todavia, ainda era possível observar a realidade sem a necessidade da luz elétrica; Qalihn se punha no horizonte que logo tornava-se vennusia, purpúrea e anil iluminando brandamente todo o mundo. Ihnq (o único satélite natural de Nuomnea) fazia-se já evidente, especialmente sublime em si.

Ihnq era sombrio por razões próprias e sua grandiosidade era vista em tons negros, tanto quanto a matéria escura do universo. Os humanos diziam: "Eterna lua nova", pois, assim, aproximavam-se um pouco do que ainda restava em suas memórias acerca do planeta Terra.

Não havia brilho em Ihnq, vê-lo era apenas possível aos seres obscuros de Nuomnea, uma vez que todos eram dotados de visão infernal. Ihnq não refulgia pelo esplender da estrela central, era sim uma eterna "lua nova", mas, de forma sui generis, muitos o viam como símbolo da lúgubre realidade daquele mundo.

O que mais particularmente aprecio em Nuomnea, é a duração do dia. São sete horas de reluzir Qalihn: às seis horas da manhã o astro desperta, às treze horas ele se põe; a partir disso, apenas noite. Dezessete horas noturnas, ainda que, nem sempre, em integral escuridão. Há auroras boreais, há curvas de tons no antes do nascer de Qalihn junto ao adormecer de Ihnq e vice-versa. Todas as cores são particularmente cinéreas, isso, pois, Qalihn está deveras afastado de Nuomnea, ainda mais de Ihnq, por isso o frio, por isso a névoa constante, por isso todas as cores sutilmente opacas.

Cihanno é o mundo mais próximo de Nuomnea e, por tal razão, soa à atmosfera como um segundo (e enorme) satélite. Seu solo é bioluminescente e, em Nuomnea, na estação sazonal de Aqes, ele é o único a tremeluzir na atmosfera. Em Aqes, Qalihn está mais distante, é quase um pequeno ponto pálido nas profundezas de um abismo. 

Com as cores veladas, a escuridão é quase inteiramente predominante; os uivos no horizonte se espargem, a sensação de terror ascende junto à cerração tétrica; um frio na coluna de cada ser humano, mais um dia de luta para não perder a própria alma. Foram cem sobreviventes do desastre que dizimou a população terrestre. Lívia não estava na nave de geração - Jerusalém - que tinha como intuito salvar o que havia de mais importante da raça humana e encontrar um novo lar, mas Maria Eduarda, avó de Lívia, estava.

Quando foi preciso, por imediatismo, pousar a nave de geração, Lívia completava seus vinte anos de idade. Agora sua vida consistia em sobreviver e planejar uma forma de chegar à Cihanno que era, desde o último estudo da inteligência artificial responsável por encontrar um planeta seguro e habitável, o destino da nave Jerusalém.

A nave não resistiu à pressão do sistema Qalihn, sucumbiu e teve de pousar antes de chegar à Cihanno. Aterrissou agressivamente sobre o solo obscuro de Nuomnea. Eram, depois de anos de viagem espacial, quinhentos passageiros; com a queda, restaram apenas oitenta. Todos os sobreviventes se perderam em busca de luz, vinte e três morreram como alimento de Desthiais; dezessete tiveram suas energias sugadas por Uhnkdhr e três caíram em ninhos de Menmor; sobre os demais: não se sabe se viveram ou morreram. Lívia encontrou vestígios dos quarenta e três mortos.

Só havia um jeito de chegar à Cihanno sem possuir uma nave: encontrar um transcurso fractal.