O incurável sentimento de incômodo.

Somos tantos; escrevemos, falamos, utilizamos de todos os instrumentos que temos disponíveis para realizar o tão enraizado anelo de manifestarmo-nos quotidianamente. Inclusive, agora, faço exatamente isso. Nesta gana incalculável, descobrimo-nos tão apegados àquilo que ponderamos, cremos e desejamos que tornar tudo isso uma lei universal acaba por ser, implicitamente ou não, o norte de cada um de nós.

Curioso que tenhamos esse sentido, aliás, curioso como fazemos disso um sentido para nossa existência. Enquanto isso o tempo - aquele que tanto falamos e pouco compreendemos conscientemente - esvai com uma fugacidade impressionante. Viver, ou sobreviver, é essa "coisa" multiforme que ilusiona regozijo. E "coisa" é o substantivo mais adequado, afinal, cada quota de realidade que absorvemos através dos nossos sentidos cruza-nos sempre de modo raso e mal entendemos do que se trata - de repente passou, foi embora e não se viu, ao menos, não com plena lucidez.

O "outro" é senão o nosso deposito egoísta, e se "egoísta" é um termo demasiado terrífico a nós - tanto que nos leva a negá-lo com uma veemência suspeita; então, talvez, o tenhamos com tanta familiaridade que assusta. Como se olhássemos no espelho e nos víssemos exatamente como somos e não como idealizamos ser. E também costumamos esquecer que somos o "outro" daquele "outro" que ignoramos com o nosso ego vazio.

Choramos a ausência de completude, no entanto, não completamos nada e ninguém. Assim que encontramos "a alma gêmea" e "a metade da laranja", que mais ocupa nossos dias com discussões e vivências supérfluas guiados por aquele pensamento tão pequeno e destruidor: "Isso faz parte, é assim mesmo", tratamos de contornar o nosso cérebro para a aceitação incondicional das grades de uma prisão disfarçada de "final feliz" . Sequer notamos que alimentamos diariamente a medianidade.

Sim, cada um com suas escolhas; cada um cuidando de sua liberdade. Dizer que almejo a mundial aceitação do que redijo seria confabular com o dito inicial de um desejo individualista e centralizador. O que faço ao digitar estas linhas é buscar plantar a semente da dúvida, do pensamento; quem sabe trazer a alguém uma interrogação pequenina, bebê, que um dia possa vir a ser adulta e, n'outro dia, sábia anciã.

Porque pensar e indagar parece importante; porque eu, humana, me destaco dos outros animais por ser capaz de pensar com uma tal de "razão"; imagino que essa "razão" deve servir para algo mais valioso do que apenas decidir entre dar um "like" ou reagir com um "love" a algo que sequer li, algo que sequer parei por um minuto para contemplar. 

É tão angustiante sentir que estou só, sim, só; sozinha no incurável sentimento de incômodo diante a superficialidade humana. E este extenso sentimento gera um silêncio que adentra-me o corpo sorrateiramente; a partir de seu apoderamento visceral, cesso tudo, até a escrita, e fecho meus olhos para admirar a escuridão excêntrica de meu espírito, ela sempre me diz a mesma verdade: "Quietude". Assim, apenas assim, encontro a frágil serenidade etérea pelo tempo no coração do incurável sentimento de incômodo.