Círculo de Layla
 O Pesadelo Pintura de Johann Heinrich Füssli

O Pesadelo Pintura de Johann Heinrich Füssli

“Consegue ouvir os sons dos pássaros, Layla?” ─ perguntou-se a si mesmo enquanto deitava-se em sua cama. Às seis da manhã ela tentava pegar no sono para perder qualquer fresta de luz do dia. “Os pássaros cantam enquanto você dorme.” ─ pensou, piscando três vezes seguidas e colocando sua cabeça sobre o travesseiro. “Quero me sufocar!” ─ disse. Sua voz abafou-se entre a espuma intensa, o calor de sua expiração aqueceu todo seu rosto deixando-lhe semirrubra. Ela, então, observou pela última vez a janela e a luz da aurora tocando sua pele. Num abrupto movimento fechou a cortina cinza e caiu de bruços no colchão. “Durma!” ─ pensou ─ “Durma agora!”. Trinta minutos depois, Layla caiu no mundo de seu sonhar.

Havia doze monstros, cada um deles era nomeado de acordo com os erros mais impetuosos de Layla. Alguns estavam na lista dos sete pecados capitais, outros na lista de defeitos mundanos. Independente de sua origem, os monstros estavam ali ao redor dela apenas a observando. Numa sala escura e fria. O monstro mais horripilante chamava-se Melancolia, o segundo pior era Luxúria. O terceiro e o quarto quase se fundiam num só, Desespero e Egocentrismo. Eram tantos erros e pecados que ela começou a se afogar em cada um deles. Layla diminuía de tamanho a cada respirar. E embora soubesse perfeitamente que era um sonho, ela não era capaz de acordar. Algo a prendia sobre cama, algo segurava seus olhos, algo prensava suas pálpebras, algo tapava sua boca. Seu corpo pesado, sua mente alerta. Monstros horrendos gritando frases que ela dizia em seu dia a dia para si mesmo. “Você não faz nada certo!” ─ disse o demônio do Pessimismo. “Desejos errôneos vão sacrificar você” ─ disse o demônio da Angústia. “Você deveria desistir de viver!” ­─ proferiu a Ira. Todos procuravam cercá-la, todos vociferavam com vozes pavorosas. Uma formiga sendo pisoteada por humanos era como ela se sentia. Ninguém poderia ouvi-la gritar por socorro. Seus olhos abriram, ela avistou o teto semiclaro, entretanto logo voltou à escuridão eminente. Alguns segundos depois, Layla deu mais um lento e ardiloso piscar. “Preciso acordar” ─ ela pensou, este era um pensamento repetitivo. Seu corpo levantou-se da cama logo que sua mente permitiu um breve escape. Layla se ergueu, estava suando frio, seu corpo tremia e seus ossos pareciam fraquíssimos, dores nas laterais da cabeça latejavam sua consciência. “Que horas são?” ─ perguntou-se, como sempre perguntava ao acordar. O relógio marcava 17h.

A doce ilusão de um fim de tarde. Layla volta do banheiro com os cabelos molhados e com os sentidos dispersos. Um banho frio e uma tristeza nas costas. Ela sabia que onze suicídios haviam ocorrido na rua de sua casa nos últimos quatro meses. E ela sabia que havia doze monstros em seu pesadelo, também sabia que havia nascido no dia doze de Dezembro e que amanhã era o dia de seu aniversário. Olhou pela janela de seu quarto e sentiu espasmos por todo seu corpo, havia alguém a observando do lado de fora da casa. Uma silhueta imóvel de um ser irreconhecível. Layla fechou novamente as cortinas e se sentou na sua cama agarrando-se em suas pernas níveas. Oh! Ela estava tão frágil. Algo parecia se movimentar na sacada de seu quarto, seria a mesma silhueta? Sentiu um imensurável estresse atingir seus órgãos vitais e sua consciência começou a vociferar os insultos de sempre: “Layla, sua maldita vulnerável!” ─ Ela fechou os olhos e tentou se concentrar. Fazia um bom tempo que ela não saía de casa para ir até aquele alto prédio no centro da cidade, neste tempo suas recaídas aumentaram, os vultos e as vozes eram constantes. Ela estava se deteriorando. “Onde estão seus antipsicóticos?” ─ esta voz não era tão agourenta como as outras. Layla abriu os olhos e procurou em meio à escuridão algo que a aliviasse da inconstância. “Onde está você?” ─ bradou alto. Não houvera resposta. Começou a se agitar, ela estava inquieta, as vozes aumentaram e a silhueta parecia tentar abrir a porta da sacada do quarto. A porta que leva para o corredor da casa estava estranha, estava dominada por eles. “Layla…” ─ ela ouviu, novamente, e imediatamente estava passiva. Oh! A catatonia de todos os dias… Pobre Layla…

Um bom tempo de penumbra e silêncio, o clima soturno era diabólico. Layla caminhou até a porta do quarto e a abriu, não havia nada no corredor exceto o breu caótico. Ela estava com fome, porém não podia sair de casa, as pessoas ficariam a olhando e ela ficaria ansiosa, os seus ataques voltariam. Desceu as escadas devagar e chegou até o banheiro, acendeu a luz e viu-se no espelho de forma completamente cadavérica. Ali no armário encontrou alguns remédios: amisulprida, risperidona, quetiapina, olanzapina, ziprasidona. São tantos e, provavelmente, eles irão curá-la desta agonia persistente. Layla tomou todos, todos que sua garganta conseguia suportar, porém, ao abrir a torneira, não era água que saía daquele finíssimo cano podre. Eram insetos. Insetos grandes e asquerosos que imediatamente invadiram sua pele ativando seus receptores sensoriais. Layla caiu no chão do banheiro enquanto pedia socorro com muito comprimidos da boca, na garganta. O desespero era demasiado, os insetos invadiam suas narinas, seus olhos e seus ouvidos. Os comprimidos asfixiavam-na. Logo perdeu a consciência.

Acordou pela manhã metamorfoseada num espectro, seu corpo não a pertencia, estava desencarnada. Sua visão turva condenava a noção de espaço e profundidade. Apoiava-se para se levantar, mas eram movimentos em falsos, então voltava a se render ao chão sujo. Percebeu que o chão era o único a manter-se, ao menos, mais preciso, e começou a engatinhar como uma criança pelos cômodos vazios. Seus batimentos estavam acelerados e havia um leve formigamento em seu braço direito. Seus olhos estavam agitados e sua cútis a se deteriorar como se estivesse prestes a renová-la como uma cobra o faz. Em frente a geladeira, levou suas mãos finas com os ossos do carpo a mostra até aquela textura lisa e fria. Abriu-a. Abruptamente bateu suas costas numa das cadeiras da mesa de jantar, assustada e estupefata, não conseguia acreditar no que suas retinas visualizavam dentro daquele refrigerador. Eram braços, pernas e cabeças congeladas, eram ossos e sangue pingando entre as prateleiras. Tentou correr novamente, mas não tinha sequer noção de sua realidade. Tropeçou nos restos que caíram aos seus pés e bateu sua cabeça no gélido piso.

Era seu aniversário, de fato, dia doze de dezembro. Layla não almejava o suicídio, mas almejava o escape. Precisava sair daquela casa, daqueles cômodos macabros, precisava recuperar sua visão que a cada instante estava mais inconstante. Porém, a queda fora impetuosa e a ferida em seu crânio abominável. Era tarde, muito tarde. Entrou em estado de coma sem previsão de retorno. Em seus sonhos agora era o único lugar em que ela permanecia viva, ou quase viva. E ela não estava sozinha. Havia doze monstros, cada um deles era nomeado de acordo com os erros mais impetuosos de Layla… Algo ali parecia muito familiar, mas ela não conseguia se lembrar.

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