A Alteridade Husserliana E A Razão Pela Qual Podemos Nos Extinguir
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 Foto de  Alex Iby  em  Unsplash

Foto de Alex Iby em Unsplash

“O outro eu, o primeiro não eu, torna possível a constituição de um domínio novo e infinito do “estranho a mim”, de um mundo do qual pertencem os outros e eu próprio. Em última análise, trata-se de uma comunidade de mónadas e, nomeadamente, de uma comunidade que constitui (pela sua intencionalidade constituinte comum) um só e mesmo mundo” (Husserl, Meditações Cartesias).

O que é “o outro”? Quem é aquele que, tal como eu, vive; aquele que, tal como eu, existe e realiza a si mesmo no mundo? Seria “o outro” um “eu” diferente? Seria “o outro” um reflexo do “eu”? Essas indagações deveriam permear a mente da população humana, uma vez que as situações mais críticas da Sociedade estão assentadas sobre impasses de relacionamento entre pessoas, isto é, entre singularidades. É evidente que Husserl não fala da extinção humana, no entanto, suas reflexões filosóficas acerca da Alteridade são bases interessantes para trazer à tona a possibilidade da extinção, sem exageros, baseando-se em fatos

O “Outro Eu” Não É “Outro Em Si”.

Husserl, não pretende desconsiderar o outro, mas, há que ter em vista que o outro só ganha sentido a partir do próprio sentido que dou originaria e primeiramente a mim.” Quadros (2016, p. 339)

Compreender o “Outro” a partir de como compreendo o “Eu”, gera uma errônea ideia de que o que sinto, penso, desejo está também ao alcance da consciência particular do outro; que as vivências do Eu estão disponíveis a serem vivenciadas igualmente ao Outro, esse pensamento exclui a individualidade e, nesta exclusão, cria-se hábitos sociais que dificultam a coexistência gerando altos níveis de Egocentrismo. Uma prova d’este pensamento está no quanto nesta atual contemporaneidade, as pessoas defendem seus pontos de vida salientando suas experiências particulares e generalizando-as; como se todos fossem capazes de vivenciar o mundo tal como esta pessoa em particular vivenciou. Com o discurso de “Comigo foi assim, então porque você não age da forma que eu agi?”.

Enquanto aceitamos a ideia de que o Outro é um Outro Eu, ele jamais poderá ser um Outro Em Si, um outro diferente do Eu, um Outro próprio do Outro que é um infinito a ser desvelado. Pensando, contudo, pela ideia de Husserl, podemos definir que a premissa do Alter Ego seria a respeito da Essência Constituinte Humana, ou o “monadismo”, isto é, reconhecendo o Eu a partir de uma humanidade possível, com suas universais características, desde a fisiologia até o mecanismo mental/sensual — emoções, sentidos, cognição, desejos, etc. como a mesma substância — sou capaz de compreender o Outro como um Outro Eu, ou seja, um ser com esta substância, esta fisiologia, este mecanismo mental e sensual, esta existência em essência. Com esse pensamento podemos compreender sim o Outro como um Outro Eu — um semelhante — , e faz sentido que assim o seja, pois que nossa existência em si é a referência que temos do que é real, do que é o mundo, do que é viver.

Mas, o erro da generalização está separado deste pensamento por uma barreira muito frágil. É fácil passar da generalização da constituição humana da substância, para a generalização da singularidade humana, criando assim uma discurso que promove somente o ego, como se estivéssemos numa sala de espelhos. E é exatamente isso que acontece nos dias atuais. Não, Husserl não falou disso; em facto Husserl discorreu em sua filosofia como se dá o processo de Alteridade, do reconhecimento do Outro, de “modo que aqueles que são ‘outros para mim não fiquem isolados, mas que, ao contrário, se constituam, na esfera que me pertence (bem entendidos), uma comunidade de eus que existem uns com os outros e uns para os outros, e que engloba a mim mesmo” (Husserl, Meditações Cartesianas), no entanto, a ideia de comunhão transpassada neste pensamento, aparentemente tem perdido sentido a medida em que avançamos nossa história humana.

Espelho, Espelho Meu

Aqueles que pensam de modo parecido, costumam se unir; aqueles que vivenciam as mesmas violências, também o fazem. Assim angariam força para terem suas vozes ouvidas. Isso é uma comunidade de eus que existem uns para os outros e uns com os outros; todavia em algum ponto esta busca deixa de ser um apelo e passa a ser uma necessidade de convencimento e este, quando mal sucedido, dá lugar a violência sutil e explícita, direcionada àqueles que não foram “convencidos”. Quando esta violência é contestada, a primeira reação daquele Eu violento é a justificativa. A Justificativa é o ato de defender-se a todo custo independente se há ou não uma acusação, independente de a acusação gerar ou não reflexão. A acusação em si é o que menos interessa, pois que o ato de justificar a si mesmo é um ato de reforçar o Ego; ouve-se só a si mesmo, vê-se só a si mesmo, independente do mundo, independente do Outro — diferente, semelhante, único, infinito; eis aqui o Mundo Espelhado Do Ego.

Estou longe de defender aqui o moral e o imoral; também não me cabe julgar eticamente aqueles que querem convencer os seus semelhantes. Meu ponto está na totalidade humana, pois que todos os homens e todas as mulheres parecem tomados por essa necessidade de defender-se, justificar-se e espalhar sua verdade para que os Outros tenham ciência de que precisam mudar suas próprias verdades em detrimento de um único Ego (ou de um conjunto de egos tomados pelo fenômeno da similaridade guiada — foram convencidos e deixaram de pensar por si). Na prática, peguemos o que está atual, as eleições; muitos a favor do candidato X apenas conseguiam defendê-lo a todo custo, sem reflexão, sem dedicação à ouvir o diferente, sem realmente vincular-se à essência humana reconhecendo que cada um tem a sua singularidade; e porquê elas não reconheciam? Porque essas pessoas estavam constantemente se justificando, até mesmo quando não questionadas. É como uma necessidade instintiva de falar de si mesmo ininterruptamente. O lado do candidato Y não se diferenciava; pessoas se justificavam, defendiam, pregavam e a reflexão possível, tanto dos defensores de X quanto de Y, não alcançava ninguém. A Reflexão possível era abafada pelos muitos Egos e seus infindáveis espelhos.

Viver com O Outro, reconhecendo-o como um Semelhante, ao mesmo tempo em suas diferenciações, afinal, é Outro, é um Não-Eu semelhante a Mim, requer muito mais cuidado e dedicação; pois que na prática essa Alteridade não alcança a população. Não aprendemos a reconhecer o Outro como um Não-Eu, paramos na parte em que o outro é um Eu e que só a a partir de meu próprio Eu é que reconheço o Outro, sendo o Eu a minha maior referência — neste ponto a maior referência passou a ser defendida até a morte, acima de tudo e de todos. O que acontece quando se vive em um mundo de espelhos? Uma hora ou outra, nada poderá ser mais refletido.

A Extinção E O Solipsismo

Seguindo o pensamento de Husserl, temos a seguinte explicação “Desse a priori apodíctico universal, na sua generalidade indeterminada, mas determinável, participa toda a explicitação dos dados egológicos particulares, como, por exemplo, a evidência –por mais imperfeita que seja –da lembrança que cada um tem de seu passado próprio” (Husserl, Meditações Cartesianas).

Husserl está descrevendo o que, idealmente, deveríamos nós, enquanto seres humanos dotados de racionalidade e emoção, chegar à conclusão e alimentar como princípio primeiro de nossa coexistência. No entanto, isso está fora de questão. Estamos esquecendo que o Outro não tem a mesma História que tem o Eu; e, portanto, não teve as mesmas relações, oportunidades, vivências, nem mesmo agiu diante de suas experiências do mesmo modo que o Eu agiu nas suas. A Extinção se inicia quando os vários Eus buscam nos Não-Eus um Eu. Exemplo extremo é a guerra que muitos países vivenciam e vivenciaram ao longo dos anos, a guerra religiosa, política, capitalista, todas com base na mesma asserção: O que pensa, quer e acredita o Eu deve se sobressair a todo o custo. Aqui, novamente, entra o fenômeno da conversão; o Eu baseado em alguma verdade própria convence os Outros a seguirem seus axiomas. Por que os Outros se convencem? A Conversão nada mais é do que manipular as emoções e sentidos de alguém; não entrarei aqui em detalhes de como isso se dá, pois que é um tema extenso; mas adianto que a conversão só é possível por ação abusiva e violenta, manipulação psicológica por vezes dada através de veladas ameaças.

Se agimos no mundo apenas para fortalecer nossas premissas; esquecemo-nos de que só porque há o Outro é que o Eu é possível. Só na relação autêntica Eu-Outro, isto é, por reconhecimento e cuidado, é que podemos existir e evoluir enquanto humanidade. A Extinção que nos abarcará só é uma possibilidade a partir do momento em que nós, enquanto Sociedade, nos voltamos contra nós mesmos, matando nossos semelhantes, manipulando-os, violentando-os de inúmeras formas. Os animais não-humanos lutam entre si por território e por comida, nós lutamos entre nós por puro Ego, pois que dotados de racionalidade não precisamos lutar por território e nem por comida, sabemos o significado de Dividir e Compartilhar; no entanto, dominados pelo Ego, dominados pela crença de que o Outro é um Eu; lutamos contra todos somente para fortalecer a nós mesmos.

Isso pode, sim, atingir níveis inimagináveis a ponto de todos lutarem entre si até a extinção; a luta não atinge só o corpo humano, mas o mundo em si, o mundo compartilhado, pois que se somos, então, somos no mundo e para o mundo, indissociáveis do mundo. A história já nos conta e a Filosofia nos tenta alertar: Podemos nos autodestruir nessa guerra de espelhos, a menos que comecemos a reconhecer que o Outro é um Outro Em Si, de essência Humana, mas feito de sua Singularidade única. Podemos ter referência do Outro a partir de Nós sem que criemos a falsa proposição de que só existe o Eu, um solipsismo agonizante que de nada acrescenta.

“No esforço de sair do solipsismo do ego, ao chegar na comunidade intersubjetiva dos eus, Husserl percorre um caminho em que o outro é tratado como alter ego, no entanto, nesse percurso, mesmo levando em consideração a comunidade como um avanço na subjetividade transcendental, Husserl corre o risco de cair numa outra forma de “prisão”, “para sair do solipsismo do eu, ele [Husserl] poderá ter constituído, no final das contas, um solipsismo do nós. Dessa maneira, as relações interativas da comunidade intersubjetiva poderão ter caído na rotatividade circular, que não encontra saída” (SOUZA, 2007, p. 71). Apesar do avanço evidente da concepção de Husserl, Ricoeur pretende ir mais adiante na reflexão sobre a alteridade, evitando o risco de tornar a comunidade, uma prisão ou numa fonte de injustiça, quer pela negação do eu, quer pela manipulação.” (Quadros, 2016, p.350)

Ricoeur sim apreendeu o problema da manipulação muito antes deste artigo surgir em minha mente como uma discussão possível, aliás, Ricoeur acrescenta-nos grandes e importantes termos para se pensar a alteridade como, por exemplo, ipseidade e a dialética entre o Eu e o Outro em essência e relação; além dele há Heidegger que nos mostra o ser humano como um Dasein, um ser-aí, jogado no mundo, em coexistência e singularidade; o que me espanta é que, mesmo com a discussão de Ricoeur e Heidegger pós Husserl, abrangendo o pensamento e acrescentando ao estudo da Alteridade as possibilidades de coexistência autêntica, o Ego em Espelho continua em evidência; as sociedades não alcançaram o conhecimento, nem aquelas que a ele tem acesso, muito menos as que a ele não tem acesso. O Conhecimento que possibilitará à humanidade repensar a egolatria, assumi-la e dissipá-la é um conhecimento restrito aos “pensadores”, aos “docentes”, aos “interessados”. Portanto a verdade que não deve ser ocultada é que, não basta haver pensadores que discorram sobre o tema, é preciso que todos os humanos discorram e pensem sobre o tema da Alteridade, seja a partir de Husserl, Heidegger, Ricoeur ou qualquer outra pessoa. Pois que enquanto a filosofia for para filósofos, sua existência não será útil, aliás, só será útil ao Ego daquele que filosofou.

Referências

DE LEEUW, Marc. Paul Ricœur’s Search for a Just Community. The Phenomenological Presupposition of a Life “with and for others”. Études Ricoeuriennes / Ricoeur Studies, [S.l.], v. 8, n. 2, p. 46–54, feb. 2018. Disponível em: RICOEUR.PITT.EDU; Acesso em 2 de Novembro de 2018
HUSSERL, E. Meditações cartesianas. São Paulo: Madras Editora, 2001
SALUM, C. C. & MAHFOUD, M. (2012). A vivência do outro em Edmund Husserl a partir das Meditações Cartesianas. Memorandum, 22, 92–116. Acesso: 8 de Novembro DE 2018 em SEER UFMF
QUADROS, E. M. Discutindo a questão da alteridade em Husserl e Ricoeur. Griot : Revista de Filosofia, v. 14, n. 2, p. 335–357, 18 dez. 2016. Acesso em 8 de Novembro de 2018 em UFRB.EDU

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