Que mera quimera.

Lábios amanteigados do cacau puro
Envolve-me a pele o aroma adocicado
Debruço-me às cobertas aquecidas
Fim de tarde em meu imo solitário
Onde há nenhum tempo futuro
Onde as preces fazem-se esquecidas;

A cor d’esta noite é-me aprumo
É um véu de gravuras imaginário
Desenhos sobre a minha melancolia
No infinito d’este teto, neste quarto,
A vida passa como um breve resumo
Enquanto saúdo minha eutimia;

Por tempos invoquei o absurdo
De pressa nas torrentes d’este cenário
Perdi as tênues sutilezas que eu tinha
Vindas d’outrora infância em corolário
À inocência que aquém, agora, é fruto
De uno reluzir em minha umbria;

Hoje na superfície do razoável estulto
Sou espectro sepulcral vagando alado
Que mera quimera que era a minha
Ao pensar que crescer era ser atirado
À liberdade, ao prazer e ao tudo
Enquanto, na verdade, só há nostalgia.

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Obra originalmente publicada pela Fazia Poesia

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