Refletir

Indago a este espelho insípido-obscuro
Sobre a veemente morte de meu imo
No anfêmero lancinante paroxismo
Que me envolve n’um asfixiante casulo;

Se não fosse meu tão arredio rosto
Pálido pelo absurdo desespero;
Transmutado a um vidro relho
Que faz pesar culpa em meu dorso;

Eu saberia que minh’alma intrínseca-rara,
É, senão, a única vivenda aprazível
Tanto que mesmo a morte invencível
Torna-se, à língua, liquefacta demerara;

E o isolamento que, ao corpo frígido,
Açoita com haste de metal preciso;
Traria até mesmo um tipo de alegria
À minha infindável e amarga escuridão;

Doaria até mesmo uma espécie de sorriso
Cuja matéria-prima é etéreo abismo
Fazendo quase emergir uma simpatia
Pelo nascer d’outrora em cruel obrigação;

Contudo a veracidade, que é meu puro estase
E causa primeira de minha reluzente insânia,
Do nada-absoluto que em minha seiva orgânica,
Perverso faz-se perpétuo em pungente êxtase;

É tão lúcida que rudemente desnorteia
E priva-me do júbilo sorumbático que poderia,
Porventura, um dia, dar-me a ilusão de regalo.