Saia da superfície

Estamos no mundo, fazemos o mundo e este mundo está marcado por infindável antagonismo; existe muito a conquistar, muito a discutir e, sem sombra dúvida, muito a compreender; lutamos com todas as nossas forças para nutrir o bom senso e a ética e com isso proteger a nossa “verdade”. Parece que estamos nadando contra maré, tamanho é o caos, mas não há maré; o oceano qual estamos é profundo, extenso e calmo; estranhamente calmo — isso, claro, se não estivéssemos nos debatendo desesperadamente na superfície.

Decidi parar de me afogar neste mar, porque a “verdade” que quero trazer à tona não pode ser ouvida, nem mesmo eu a escuto. O que queremos, tanto individualmente quanto coletivamente, não é tão evidente quanto parece. Decerto que almejamos o fim do preconceito, a equidade, a liberdade, a justiça, a paz mundial, no entanto há algo em meio a estes desejos, como um elefante no meio da sala, um elefante que ninguém consegue ver mesmo quando se fala sobre ele.

Este elefante se chama Ego e nós tendemos a acreditar que só os outros o possui. O que um elefante tem a ver com um oceano de gente perdida? É simples: O oceano é a sociedade, nós nos debatemos sem rumo nas águas deste oceano; fazemos barulho, fazemos um barulho insuportável e ninguém consegue ouvir nada coerente, consequentemente sentimos a agonia de não sermos ouvidos — nem pelos outros e nem por nós mesmos — , a aflição de estar invisível perante toda a humanidade é tensa e sufocante. Para suprir esta angústia, alimentamos o ego e o utilizamos como escudo que nos protege da aflição de não sermos ouvidos e não sermos compreendidos verdadeiramente pelos outros humanos — os nossos semelhantes.

Nós precisamos de compreensão. Somos seres de subjetividade, linguagem, criatividade e vivências; o ato de compartilhar é significativo, está historicamente enraizado. Todavia, infelizmente, o ego que existe há muito tempo, impede que compartilhemos de maneira autêntica, isto é, dando e recebendo, falando e ouvindo, tudo com sinceridade e principalmente interesse. Atualmente, na ascensão tecnológica, isso ficou mais manifesto; as redes sociais são focos de Egos, todos falam de si mesmos e ninguém escuta ninguém. Até mesmo quando duas pessoas compartilham da mesma ideia, elas não se escutam, elas apenas sentem-se poderosas por estarem diante a alguém que concorda com elas.

Se todos nós parássemos de nos afogar neste oceano, e parássemos de afogar os outros; encontraríamos o significado da existência que nada mais é do que o compartilhar autêntico de vivências singulares. Somos todos diferentes justamente por essa razão; é na diferença que está a possibilidade do compartilhamento autêntico. Se todos nós fôssemos iguais, compartilharíamos o quê? Compartilharíamos para quê?

Quando pedimos o fim do preconceito, pedimos o reconhecimento do valor das diferenças; quando pedimos equidade, pedimos para ouvir e escutar com atenção e cuidado; quando pedimos liberdade e justiça, pedimos para sermos quem somos sem a angústia de sermos incompreendidos e impedidos de compartilhar. A única verdade realmente verossímil é esta: precisamos ouvir, ver, tocar a essência de cada um — inclusive a nossa — e fazer essa troca de experiências, de diferenças, de perspectivas.

Depois que abandonei o caos da superfície, mergulhei um pouco mais nestas águas e percebi que não faz sentido a vida tal como ela é se não for para haver envolvimento real entre todos; respeito mútuo, cuidado, compreensão e empatia. Parece clichê e realmente é! Batendo na mesma tecla ininterruptamente para que possamos despertar, ver este elefante gigante e enfim fazermos algo para tirá-lo do meio da sala. Se não for assim, se não formos por esse caminho; continuaremos dispersos e perdidos.

O tempo não é um aliado, já passou da hora de alcançarmos o núcleo ferido da humanidade, a essência assentada sobre princípios egocêntricos, e cicatrizar essas feridas a partir da única cura possível: o reconhecimento e compartilhamento genuíno e consciente.

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Texto originalmente publicado pela NEW ORDER - REVISTA 

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