Dentrelinhas: "Só você pode ouvir".

Kimi ni shika kikoenai
Sensível, intenso e, mais do que isso: penetrante! A história de Otsuichi, adaptada para mangá, conseguiu me cativar de uma forma excepcional. Narrando uma trama sobre pessoas solitárias que transcendem o razoável universo mediano das palavras vazias e alcançam um nível de comunicação ímpar. 
— Oanna Selten

É difícil, sempre, saber o que o autor quis transmitir através de sua obra, pois, cada leitor percebe de sua própria maneira os detalhes da história. Eu, por exemplo, percebi em "Só você pode ouvir" uma crítica à sociedade da inautenticidade e, ainda, percebi uma atenção especial à questões existenciais cruciais para o alcance da paz de espírito.

Sinopse de "Só você pode ouvir": Ryo possui dificuldades de conversar com seus colegas do colégio e, portanto, não dispõe amizade com os mesmos. Sentindo-se fora do mundo em que vive, mas, tentando adaptar-se à ele, Ryo começa a sonhar em ter um celular, imaginando que poderia, então, conversar através do aparelho, assim como todas as pessoas ao redor o fazem. Com detalhes bem precisos, Ryo cria o seu celular imaginário e isso a proporciona um conforto e uma distração. No entanto, algo surpreendente ocorre quando o seu celular imaginário toca e ela o atende.


Nome original: Kimi ni shika kikoenai, きみにしか聞こえない
Publicado por: Editora JBC
Valor: R$ 13,90 (volume único)
Publicado (no Japão): 2007 (Shounen Ace)
Autor: Otsuichi (conto original), Hiro Kiyohara (mangá)
Gêneros: Drama, Shounen, Sobrenatural


Com a arte impecável de Kyiohara dando vida às nuances do enredo, "Só você pode ouvir" indaga sobre tudo aquilo que existe ao redor e, também, abrange o aspecto da subjetividade como sendo, muitas vezes, a melhor maneira de abandonar a frivolidade da sociedade e encontrar um sentido realmente próprio para o existir. Eu sempre trato, em meus escritos, sobre a característica fundamental do ser humano: dar sentido às coisas do mundo; este mangá deixa mais que evidente essa peculiaridade.

E é de uma sutileza admirável a forma com que assuntos tão complexos transitam entre as páginas de "Só você pode ouvir"; terminei a leitura em pouco mais de meia hora e lágrimas emergiram em meus olhos diante do tocante deste surpreendente enredo. A partir daqui, deixarei evidente os pontos principais da história, se você não quer saber o conteúdo do mangá antes de lê-lo, então, não prossiga com a leitura desta resenha

Inicio a análise com uma indagação: "O que é a realidade?". Vivemos através dos nossos sentidos; por ver, ouvir, tocar, saborear e cheirar é que temos certeza de que existe uma "realidade". A Ciência dá muito valor a essa realidade vinda através dos sentidos, de tal modo que, muitas vezes, rejeitam a ideia abstrata de um sexto sentido, a intuição, e de qualquer outra coisa que não seja considerado "digna de experimento". 

Mas a humanidade funciona através do que não é "digno de experimento" e "Só você pode ouvir" prova isso. Não "prova" por ser "real", mas prova por mostrar com sensibilidade a raiz da humanidade: a significação, a angústia, a efemeridade e temporalidade, a solidão, o isolamento, o coexistir e a autenticidade.

Ryo era sozinha, sem amigos, sem habilidade, sem instrumentos que a adequassem à sociedade ao redor - nenhum aparelho eletrônico tecnológico, nenhuma rede social virtual. Ela estava completamente só. E a solidão é tão humana: somos, e sempre seremos, a singularidade de nosso ser; a solidão que é tão precisa e que, na sociedade atual, é considerada temível, está estigmatizada nesta singularidade. A solidão não é um "mal". Há uma discussão sobre isso que é vital trazer à tona: "solidão" não é "isolamento". Somos solitários pela singularidade subjetiva, mas não conseguimos viver no isolamento por muito tempo, sem compartilhar e sem conviver através d'um envolvimento verossímil, tendemos à profunda depressão. Ryo, mesmo depois de ter compartilhado e convivido com alguém, ainda era solitária e isso se faz ainda mais indubitável diante o final do mangá.

Ryo passava pelo isolamento e pela solidão, ambos tão necessários para ela crescer e desenvolver melhor a sua personalidade. O isolamento, todavia, era tão grande que começou afetá-la demais e deixá-la n'um baixo estado de ânimo. Shinya, aquele que liga para o celular imaginário de Ryo, vivencia a mesma situação (embora de sua própria maneira). Juntos eles aprendem a totalidade de significado da vida.

Porque quando você pensa muito e se afasta do mundo - e principalmente quando você tem ao seu lado pelo menos uma única pessoa compreensível - ocorre uma metamorfose existencial que te leva a um silêncio de paz, um silêncio de entendimento pleno sobre o que significa viver. Não havia mais isolamento, ambos se percebiam com profundidade, ambos escutavam um ao outro e se ajudavam; a solidão sempre estaria ali, porém, com um sentido muito mais importante: o sentido do autoconhecimento.

A segunda ligação do telefone imaginário de Ryo mostra a importância dessa solidão - enquanto encontrar-se consigo mesmo sem a interferência direta de outrem - para o autoconhecimento; Ryo liga para si mesma, no futuro.

A questão não é a possibilidade de acontecer um evento como esse. A questão é: para que Ryo pudesse mudar, acabar com o isolamento destrutivo, ela precisou, primeiro, voltar-se a si mesma e, depois, dar-se a oportunidade de envolver-se com alguém sensível o bastante para compreendê-la, afinal, ela sabia que não havia pessoas realmente compreensíveis ao redor, todos eram rasos demais e muito difíceis de entender.

O "eu do futuro" nada mais é do que uma busca por autoconhecimento, encontrar-se, entender-se, envolver-se a si, aceitar-se a si para conseguir, então, mudar-se.

A amizade de Shinya com Ryo mostra que o envolvimento verossímil pode salvar-nos do isolamento destrutível, no entanto, só seremos realmente salvos do que é destrutível, se alimentarmos autoconhecimento através da solidão e do silêncio. Tudo isso encontra-se nas singelas 190 páginas de "Só você pode ouvir".

Shinya revela dois outros importantes pontos: a temporalidade e o cuidado. O personagem gostava de "consertar as coisas". Em um mundo de pessoas vazias que não se dedicam à consertar nada e escolhem, apenas, a troca do velho pelo novo, como n'um piscar de olhos; havia Shinya que sentia prazer em consertar. Analogia às relações sociais nos dias atuais (e, quiçá, em todos os tempos), será que sabemos como nos envolver com as pessoas e conosco sem desistir facilmente de  "consertar" o que "quebra"? Será que conhecemos o que significa ter cuidado? Emocionei-me com este mangá porque ele me levou à pensar nisso e a questionar a mim mesma.

Por fim, a temporalidade. A morte que é sempre uma possibilidade.

Não costumamos entrar nas profundezas de nosso ser, nos deixamos levar pelo sofrimento do mundo cotidiano e pelo entretenimento; isso nos faz esquecer que a vida é efêmera e que o amanhã não é uma certeza. Assim perdemos o prazer do presente, queremos sempre mais, nos frustramos com a fugacidade dos momentos; queremos arrancar à força, da vida, sorrisos e alegrias ilusórias.

Mas é tão importante viver o momento e deixá-lo acabar se assim for preciso. E às vezes é tão preciso que se acabe....

A realidade é mesmo subjetiva, cheia de abstrações e unicidades. Não preciso ver, ouvir, tocar, saborear ou cheirar as coisas para saber que vivo na realidade, para saber isso basta envolver-me, de fato, com aquilo que, para mim, é realmente significativo.

"Só você pode ouvir" tocou meu ser através de sua significação e, agora, viver já não me é a mesma coisa que era antes da história de Ryo e Shinya.


Esta resenha faz parte de um projeto chamado Qesmnesih, saiba mais sobre: clique aqui.