Ihvie

 Carolus-Duran - Portrait of a Girl (1870)

Carolus-Duran - Portrait of a Girl (1870)

Ihvie costumava assistir a um desenho animado deveras peculiar; iniciava às seis horas da manhã e se propagava até às seis e meia. Já estava em seu milésimo septingentésimo trigésimo quarto capítulo, tal número era imponderável, porém, quem o poderia questionar? A história narrada emergia em Ihvie alguns sentimentos que somente seriam compreendidos após um indizível advir – antes disso, bastava a sensação.

A menina acordava turva, olhos lacrimejantes; segurava seu amigo urso – Sr. Ferido, era seu nome, pois perdera um de seus olhos e, com o tempo, rasgara-se a costura de sua orelha esquerda e de seu braço direito; dado estes acontecimentos, Ihvie achou de bom grado renomear o urso de pelúcia: era a melhor forma de mostrá-lo que ainda havia amor mesmo havendo imperfeições.

O Sr. Ferido era enlaçado pelos braços da menina que, debaixo de uma manta se cobria e, por fim, caminhava fugaz até o sofá da sala de estar.

Ihzie iniciava sua rotina de sexta-feira com “Encontre-me Savie”. Tratava-se de um desenho animado sobre uma menina de cinco anos de idade que sofrera uma metamorfose, como uma borboleta, e se tornara uma super-humana. As razões de sua mutação era o enredo que contornava a história; Savie, em cada capítulo, encontrava uma pista que lhe fornecia sutis informações – no entanto, cabia ao telespectador imaginar o elo entre tais rastros.

Dentre as especialidades da super-humana Savie, havia uma em especial que levava Ihvie a um estado de medo e fascinação: Savie ouvia uma música fora do plano da realidade e quando o som espargia, tudo se paralisava. Se ela estava em sua escola, por exemplo, todo o prédio, os objetos e as pessoas – com exceção dela – tornavam-se borrões cinerícios; Savie, então, despertava-se n’uma busca intensa sobre a origem deste som.

Certo dia, Ihvie aguardava o início do programa quando, subitamente, teve a visão roubada por um negrume estático. Tudo ao seu redor tornou-se paralisia obscura e, antes que Ihvie pudesse trazer aquilo à sua cognição, uma música fez-se ao seu redor. Esta, todavia, era diferente das do universo de Savie, esta era cantada. A voz, grave, melancólica e tétrica vocalizava, lentamente, a cada toque ritmado do piano-fantasma: “Morre morrere investa desarma insanas”.

Em choque e completamente extasiada, Ihvie viu-se como Savie, o mundo enquanto sombras e mistérios – tantos segredos a desvendar. Por isso levantou-se do sofá, abandonando o Sr. Ferido e a manta; caminhando e vislumbrando; dançando seu olhar a cada centímetro de tal incrível fenômeno – o relógio parado como nunca estivera; a inexistência do tempo.

Sequer notou que a música aumentava gradativamente.

Foi quando se fez à sua frente o espectro vampiresco de um ser aquém de seu mundo: “Morre morrere investa desarma insanas” – o movimento de seus ossos bucais, as sete línguas, a fumaça de seu pulmão à mostra, a cor hialina de lágrimas silver esvaindo de seus vazios e infindos globos oculares.

Ele estende sua mão coberta por espinhos e sangue.

Ihzie rosa sub’me allum silie m’a inm” – Aos ouvidos da menina, todo o sentido da proposta lhe guiava: as palavras eram compreendidas, eram como entorpecentes. Por isso Ihvie se deixou segurar os espinhos e, quando foi ferida por eles, ela desapareceu.

O relógio voltou ao seu curso contínuo.

Na televisão discorria a cena de uma menina n’um belo vestido branco, pendurada e amarrada por fitas de cetim carmim e, com ela, palavras se narravam graciosamente: “Ihvie, a Pequena Títere no Mundo Dos Sette".

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