Marih

 Piet Mondrian - Meisjesportret met bloemen (1900)

Piet Mondrian - Meisjesportret met bloemen (1900)

Marih gostava de adormecer antes de seus familiares; pois sabia que seria interrompida em meio à escuridão e, assustada, perder-se-ia do encanto de seus sonhos, os quais adoraria lembrar-se com mais frequência. Todavia, naquela quente noite, Marih distraiu-se demasiado com seus brinquedos, ordenando-os em fileiras longas, a começar pelas bonecas mais parecidas com ela.

Advir o sono, suas pálpebras tornaram-se dois pequenos pesos; a menina aconchegou-se em si mesma, junto às pelúcias, ali no chão da sala e, tão logo, adentrou seu universo psíquico. Sua afetuosa mãe levou-a para a cama, como de costume e, às onze da noite, todos já adormeciam. Nos recantos de cada cômodo, somente o eflúvio do silêncio dissipava-se, somente o breu contornava portas e objetos. Da paz, sabia-se, efêmera; não demoraria para acontecer aquilo novamente, aquilo que aterrorizava Marih, que a confundia tanto, que lhe dava insônias e pesadelos.

O primeiro grito fez-se alto, como trovão ensurdecedor, suficiente para retirar Marih de seu estado letárgico, no entanto, a pequena menina não acordou de imediato. Apenas no segundo grito mesclado a passos apressados que ela despertou inquieta e ansiosa, escondendo-se debaixo das cobertas semichorando de angústia e solidão.

“Marih, Marih!” — bradou a mãe ao adentrar o quarto. Correndo para a cama da filha, a mulher retira-lhe abruptamente todo lençol rosáceo em tons pastéis; a menina, tremendo e chorando, não consegue proferir uma palavra sequer. Sua mãe a abraça com força extrema, apertando-lhe os ossos enquanto agradece. “Graças a Deus está tudo bem contigo, oh, meu Deus, Satanás quer destruir nossa família” — lamuriou a mãe.

O pai de Marih já bem sabia, colocava, toda noite, pequenos algodões úmidos em seus ouvidos, atitude adotada também pelo irmão mais velho de Marih. Contudo, infelizmente, a menina não podia fazer o mesmo. Os pesadelos medíocres e temíveis que vinham à mente de sua mãe, sempre eram com Marih; a morte de Marih se materializava no plano onírico, de inúmeras formas horrendas, com lucidez e perversão, na mente de sua mãe. 

Marih não entendia sobre Satanás, tampouco sobre morte, mas naquela noite, ao ouvir sua mãe chorar dizendo que sonhara outra vez com a morte de sua filha, Marih desejou matar os sonhos de sua mãe, pois que talvez eles fossem Satanás.

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