Meninm

 Konstantin Makovsky - Portrait of the Girl (1969)

Konstantin Makovsky - Portrait of the Girl (1969)

Meninm sorria docemente enquanto caminhava pelas pedras de musgo esmeraldino. O céu claro e límpido era cinza, pois, chovera. A manhã pálida e fria obrigava Meninm a usar luvas de lã que a impediam de explorar o êxtase do tato. Da água cristalina e álgida às formigas perdidas em busca de resquícios de folhas para levar ao lar: nada podia ser atingido por ela. Meninm olhou ao redor, sequer uma sombra à vista; a imensa igreja fazia-se taciturna, todos oravam perscrutando possíveis salvações de seus míseros pecados. A menina nívea e rosada como tulipa gargalhou sutilmente - era aprazível fugir quando todos fechavam seus olhos por meia hora. Meninm evadia, pois que a natureza lhe soava mais interessante que a prece.

Altas árvores e copas vazias; o inverno estava vívido e tomava cada centímetro de realidade, Meninm nunca insultou tal estação, era a sua preferida - exceto quando lhe obrigavam a usar luvas de lã; impedir que a veemência sensorial se irradiasse era um ato vil e cruel. Por isso, Meninm abaixou-se e ousou retirar uma de suas luvas; sua pele facial enrubesceu mais veemente, lembrou-se do pecado da desobediência, porém, não se terrificou – o vento envolveu sua pele quente pelo tecido, fascinando seus olhos, levando-os ao reluzir: como se fosse o astro detrás das densas nuvens.

Imersa no oceano encantado do vislumbrar e do sentir, deixou por descuido a pobre luva cair no lago ao seu lado. Assustou-se e esticou seus pequenos braços n’uma tentativa aflitiva de resgatar a peça; o desalento a tomou e o ventanear, antes brisa, geminou n’uma força descomunal.

Assustada, com temor acentuado e olhos lacrimejantes, Meninm correu entre as rochas, acompanhava sua luva no vasto rio. “Está indo para a margem!” – pensou consigo. Quando pousou sobre a beira, a luva foi resgada por mãos firmes cujos longos e finos dedos indicavam ser alguém de mais idade que Meninm. Ao notar as mãos, rogou que não fossem as do seu pai – o castigo pela desobediência era a escuridão: temível penumbra.

A expressão, todavia, era outra. A face era de um homem desconhecido; os olhos negros contrastavam com as roupas no mesmo tom, ele olhava para Meninm. A criança cessou os passos apressados e semissorriu mesmo havendo o sopro do pulmão do mundo a indicar perigo; mesmo movimentando ferozmente os longos cabelos claros da menina e entrevendo uma tempestade advinda de suas entranhas invernais; mesmo assim a Meninm sorriu, pois, já não havia razão para temer o clima, havia alguém que sorria para ela. O homem, então, deu o último trago no cigarro que segurava e aproximou-se. 

Meninm obteve sua luva de volta – foi obrigada a vesti-la úmida, contudo, a pequena criança difundia uma ímpar ledice, voltou à igreja contendo seu próprio júbilo, pois, agora prendia em si um segredo a ser protegido: uma fuga, uma luva quase perdida, um sorriso viril. 

Nos sonhos daquela noite, a lua era o sorriso, os seixos eram verde lã, o lago era diamante líquido e a atmosfera era bioluminescente como águas vivas do mais abismal oceano – e ela, a pequena Meninm, era o ventanear, não mais amedrontador, embora, para sempre, feroz.

~