O Quarto

 Jonelle Summerfield ©

Jonelle Summerfield ©

O quarto tinha um tom obscuro, a luz que tremeluzia sobre o tapete shaggy advinha da janela semiaberta – a lâmpada áurea que, tênue, difundia seu brilho sobre o asfalto úmido, penetrava o quarto como olhos que, de soslaio, penetram um’alma.

Embora estivesse em completo equilíbrio, dos tons às decorações minuciosamente escolhidas para o ambiente, havia um item que, quando tocado pela luz, deixava evidente outro universo dentro do universo do cômodo.

Uma boneca de porcelana sobre a colcha bouti pálida com detalhes em prata se destacava na imensidão perfeita; nem o pequeno vaso, sobre o criado-mudo, cultivando vívido um cacto, ou o espelho ao lado direito, na parede de textura, poderia chamar a atenção tanto quanto aquela boneca.

Ela estava nua, seus cabelos e tons variavam do rosa ao salmão, os olhos eram azuis e sua pele – no tórax e nas pernas – deixava à mostra o contorno de seus ossos como se estes fossem belíssimas rendas. Entre tais, uma fita de organza, também rosa, transpassava.

A luz sobre a boneca doava-lhe certa vida, como se sabe da vida de uma planta como o cacto, era fácil e completamente plausível sugerir uma hipótese de vida, algum modo de vida, pra’quela boneca. 

Isso, pois, seu rosto era melancólico; seus olhos eram sentimentais, as curvas de seu rosto e a pintura do mesmo indicavam com veemência uma expressão vívida.

A quem pertencia tal boneca? Com menos de trinta centímetros de altura, sobre uma ampla cama de casal, perdida n’um âmbito que não pertencia… ou talvez pertencesse… Tudo o que se sabia dela estava no seu calcanhar – uma fita ligada a um pequeno papel com letras ornamentais que diziam: Boneca Liviehr.

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