Místico Colóquio Poético Revelado - Duplo Soneto

 Pintura: Jean Baptiste Santerre (1651-1717) - Girl reading a letter by candlelight

Pintura: Jean Baptiste Santerre (1651-1717) - Girl reading a letter by candlelight

"Nasço do sentir" — disse-me a Poesia.
"E só sou real se vim do núcleo d'alguém".
Assim fez-me compreendê-la muito além
Do que qualquer humano far-me-ia;

"Venho sim em exagero, como um clamor,
Contudo vivifico também na tenuidade"
Segredou-me enquanto eu, em debilidade,
Mostrava-me a indagar a vida com fervor

"Disseram que tu nem sempre vens da essência,
Ó Poesia, Poetas são os viventes por ti,
Alguns, contudo, isso confessaram a mim"

"Fazem-me fruto do Ego por pura insolência!
Calúnia!" — Poetizou — "Estes Poetas falsos
Buscam nada além d'eternidade de aplausos."

"O mal d'esta humanidade, ó Poesia?" — indago
"O mal que aniquilará a existência" — ela diz
Eu, já tão cansada, acolho-me longe dos vis
Prostrada à Poesia, ofereço-lhe um lhano laço

"Propague que não só emerjo do cerne
Como sou, em mim mesma, o próprio Ser
Dos que lançam genuíno compreender
De mim nas obras quais escrevem"

"Sim, ó nume admirável d'imo incomparável
Que tuas vísceras sejam, em cálice, bebidas
Que teu verídico corpo seja a carne e a vida"

Eis que por fim o taciturno inenarrável
Toma-me a inspirar pelo diálogo hiperfísico
E à Poesia, estes versos revelados, eu dedico.

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