Escrevendo Fósmeos e compreendendo-os.

Na Literatura Poética existem espécimens de poemas que possuem singulares características como, por exemplo, o Soneto que é, geralmente, 1) decassílabo (versos com dez sílabas poéticas), 2) feito de dois quartetos e dois tercetos, 3) com escansão fixo, por vezes com tônicas na sexta e na décima sílaba poética. Há diversas regras para definir um Soneto, ou uma Prosa, ou uma Trova ou um Haicai; pois que assim se desenvolve a Lírica da Literatura Poética que existe desde os primórdios e, embora tenha decaído nos tempos atuais, ainda existem aqueles que a defendem e lutam para mantê-la viva e, de preferência, intacta.

A palavra “Lírico” remete ao instrumento “Lira”; o gênero Lírico da Poética é este que, metrificado e escandido, cria musicalidade agradável, tal como uma Lira. Antigamente a Poesia era cantada e, tal como indica a etimologia da palavra em Grego “ποίησις”, seu significado era a manifestação do sentimento estético da beleza através das palavras. Utilizava-se a Lira como acompanhante, muitas vezes, à essa Poesia cantada. “Lírico” também significa “repleto de grandes sentimentos”, ou seja, a Poesia esteve sempre vinculada aos afetos, à emotividade, quiçá despertada pelo som lírico, ou até mesmo pelas inspirações às criações de poemas líricos, tal como a Natureza ou o Amor. Um clássico exemplo: Soneto XVIII de Shakespeare:

Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimmed,
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature's changing course untrimmed:
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow'st,
Nor shall death brag thou wander'st in his shade,
When in eternal lines to time thou grow'st,
   So long as men can breathe, or eyes can see,
   So long lives this, and this gives life to thee.

Todas as formas e visões acerca de Literatura Poética baseiam-se em argumentos plausíveis; a Poesia com musicalidade ou a Poesia sem musicalidade expressam os sentimentos humanos, bem como as subjetivas sensações que o existir proporciona a cada ser. É facto que os sentimentos e os pensamentos, podemos dizer, a razão e a emoção caminham lado a lado, estão vinculadas. Uma poesia é criação possível da razão, emergida pela emoção e sensibilidade à existência. Sem a lógica da racionalidade, seria impossível a contagem silábica, seria improvável até mesmo uma linguagem feita assim, de signos e significações. No entanto, sem dúvida, a expressão pura da racionalidade é algo reservado aos ensaios, monólogos, narrativas e, aceita-se, que à Poesia reserva-se a expressão do emocional. Obviamente não se segue à risca essa premissa, faz-se Poesia sobre tudo e todos; a questão que venho propor é: E se, de alguma forma, fosse possível captar a Poética da pura e plena Razão?

Transmitir ao poema a construção racional e propagar sua peculiar beleza lógica e, mais do que isso, disseminar o seu fundamento questionador junto ao todo existencial humano assentado sobre tal Razão que muito nos pesa o dorso justamente por haver a Razão em si no ato contínuo de questionar; eis as características de um Poema Racional. Contudo, antes de aprofundarmos n’isso, devo contar como cheguei a esta questão.

Conforme criava na Poética de meu imo, notei que frases e estrofes de muitos poemas meus tinham uma vida própria. Como sabem - e se não sabem, saberão agora - sou apaixonada por Filosofia e as questões racionais estão vívidas em mim, de tal modo que devo sempre cuidar para não jazer em suas entranhas questionadoras. Portanto, a estrutura racional está continuamente presente em tudo o que redijo e, pouco a pouco, ela tem se manifestado na Poesia e manuseando sua essência. Fora nos escritos do ano de dois mil e dezessete que passei a notar tais aspectos.

En ~

Ouviste qu’estou na margem d’um flúmen silencioso
Que, se vislumbrado, apreende-se o seu horizonte,
Tão infindo quant’os vazios da íris minha
A qual sei que há tempos esvaiu d’este agora;
E como um sopro de violenta ventania primaveril
Singelas fissuras escarlate n’esta tez nívea-purpúrea
Pois que temeste qu’eu confessasse por fim
A morte que não é mais minha.

A mente funciona em fluxo de pensamentos contínuos, esses pensamentos são hipóteses e perguntas que emergem sem que se possa controlar, a menos que se treine para calar este fluxo. Boa parte d’esta corrente é um rever do vivido, mesclando memórias passadas e situações recém-vivenciadas enquanto se cria incontáveis associações lógicas. N’este continuum há, também, os dados existenciais: Morte e temporalidade, tédio, temor, angústia, euforia e êxtase. Uma poesia moldada nos aspectos citados, precisa de ausência rítmica, pois que a musicalidade pertence às emoções e as emoções, por vezes, encobrem os dados existenciais; uma poesia racional, deve deixar às entrelinhas todos os dados existenciais, ao mesmo tempo, toda a complexidade do fluxo mental deve ser exposta. As lógicas, indagações e associações farão parte da poesia racional, especificamente na construção do verso que, mesmo sem rima, combina palavras em níveis de dificuldade - eis aqui a beleza racional, a hermética união de símbolos e significados.

Eutimia
Oanna Selten
Sep 21, 2017

Acima de mim, há um tempo
Sobre o qual transcorre vida;
Ausências ilusionam-no fugaz
Mas não há nele alterações;
Frustrações o simulam estagnar
Porém, prossegue, idêntico.
Sua apática eutimia, turva-me.
Uma cólera toma-me ardente,
Ódio como catarse de paredes
Que escondem o merencório fato:
Há-de acabar, um dia, sobre mim
O teu predomínio.

Pode-se notar, nos quatro últimos versos de “Eutimia”, escrito em vinte e um de setembro de dois mil e dezessete, o fluxo de criação complexo, tal como o fluxo de pensamento mental; há lógica, versos vinculados, uso de palavras complexas para expressar o existencial - no caso, sobre a temporalidade e a morte - de modo que, a densidade do poema visualmente expresse a densidade das indagações fomentadas no próprio poema. Sabe-se lá o que é “ódio como catarse de paredes”, mas sabe-se, perfeitamente, a angústia da temporalidade e seu efeito no haver humano a partir das indagações características da racionalidade. O verso transmite isso, na leitura silenciosa compreende-se seu prisma e aí descansa a Poética da Razão: O compreender, sem que se precise exercer a lógica para tal, pois que a linguagem redigida e versificada é suficiente.

À poesia racional denominei Fósmeos. Escreve-se Fósmeos quando escreve-se poesia racional. Faz-se um Fósmeo quando se almeja ouvir as viscerais racionais e redigir o seu núcleo de modo a evocar sua etérea beleza. Porventura haja o questionamento sobre como se fazer um Fósmeo e se, para fazê-los, é preciso estudar, por exemplo, o que são os dados existenciais; bem, a mente racional alimenta-se de lógica e informação, ou seja, quanto mais se estuda, se cria, se questiona e se volta ao seus próprios pensamentos, mais se consegue criar a Poesia da Razão, os Fósmeos.

Quantas palavras repetimos
N’uma gana d’expostos órgãos
Energizada por soberba
Do tipo que dizim’a sanidade?

Quantos íntimos estão tomados
Por uma filáucia que não finda
Sem elo à coexistência
Que à existência é tão fulcral?

Quantos espelhos refletindo
As mesmas frontes dissimuladas
Hão de permanecer erguidos
Diante a extinção d’esta estirpe?

Quantos poemas terei escrito
Até que, por fim, tome a sentença
D’evadir-me d’este perfunctório
Gênero Humano?

Indagações, por Oanna Selten | Nov 4, 2018

Como se pode notar, os Fósmeos não aparentam possuir regras versais; em “Eutimia”, “En ~” e “Indagações” há muitas diferenças, isso, pois, que estes são os poemas feitos pelo cerne dos Fósmeos, todavia, eu não havia ponderado acerca dos Fósmeos ao escrever tais Poesias. Somente agora estou disposta a criar, nomear e caracterizar os Fósmeos, retirando-os da mais pura racionalidade em sua beleza poética. Abaixo analiso o primeiro Fósmeo da Coletânea Poética Fósmeos Em Dm.

Suplícios longínquos em tutano horizonte
Corredores do tudo adornado em precipício
Perenidade d’agonia nos chuvosos cristais
Ei de beber teu haver n’uma taça longilínea
ébria hei de ver-te o reflexo espelhado
Solitudinais lampejos perturbadores sorrirão
Pois que tod’ausência consome sem piedade
E contínua esparge-se insólita pouco ínfima
Das verdades intransigentes vislumbradas
Goles à mais queimam minha garganta
Pois que inexistente é a sede imortal
sorvo meu estar, preciso, pois que sou
E, sendo, todo halo é mísero espúrio.

FÓSMEO i
POR oANNA sELTEN

Três Quartetos e um Monóstico - Mesmo sendo uma corrente de pensar contínuo, para haver a lógica, é imprescindível uma sequência fixa.

Ausência Rítmica - A musicalidade está completamente distante dos Fósmeos e deve ser evitada, até mesmo quando sutilmente emergida.

Palavras complexas e/ou longas - O verso de um Fósmeo se faz com a beleza da escolha minuciosa de cada palavra, priorizando-se as mais longas e as de significado mais difícil e/ou palavras nada usuais, pois estas expressam o complexo fractal psíquico, uma vez que, para criar uma palavra hermética é-se preciso debruçar-se à racionalidade nutrindo-a de conhecimentos, dúvidas e lógica.

Elos impensáveis - Um Fósmeo possui ligações impensáveis entre palavras improváveis como, por exemplo: “tutano horizonte”, “adornado em precipício”, “chuvosos cristais”.

Formalidade - Do mesmo modo que palavras complexas expressam a capacidade mental de realizar o mais hermético de si mesma, a formalidade da escrita também o faz. Há una beleza racional na constituição culta do idioma, principalmente o Português que abrange e complementa o Latim, aliás, o uso do Latim em Fósmeos faz-se comum, uma vez que é a linguagem materna de muitos idiomas atuais e possui em sua essência uma beleza lídima, a qual traz ao Ser uma poética vinda diretamente da história humana do desenvolvimento cognitivo. A evolução da língua é a evolução da totalidade humana, a evolução da língua se faz possível juntamente ao desenvolver dos mecanismos lógicos-racionais.

Oanna SeltenComentário