Escrevendo Fósmeos e compreendendo-os.

Etienne Adolphe Piot (1850-1910) A Blonde Beauty Holding

Etienne Adolphe Piot (1850-1910) A Blonde Beauty Holding

Se a Razão em sua constituição pura fosse capaz de conceber Poesia, o faria através de Fósmeos. A Razão pode ser compreendida como a instância mental responsável por gerar lógica a partir da análise das premissas da realidade, podendo, com isso, dar conclusões coerentes baseando-se em fatos. Por muito a Razão é vista como oposta à Emoção, uma vez que esta última manifesta-se no impulso, geralmente advindo d’uma associação errônea, fragilizada e/ou deturpada dos dados da realidade.

A Emoção, decerto, tem uma constituição própria, ela dita o tom da existência singular, isto é, tal como a tonalidade d’uma música ou de um poema escandido; a Emoção assenta-se sobre o sensual e o fantástico. O ver, o ouvir, o tocar, o degustar e a olfação estão sempre passíveis de equívocos, pois acontecem independente — embora não dissociadas — dos dados da realidade. Isso é o sensual. Tomemos como exemplo quando, sozinhos à noite, vemos, de relance, uma silhueta humana no quarto, de imediato temos a reação corporal do medo — coração palpitante, respiração ofegante, ansiedade — , a emoção do medo emerge por meio da visão; ao aproximarmo-nos da silhueta, percebemos, pela visão, que se trata apenas de algumas roupas penduradas, logo o medo se esvai. Em outro exemplo, sentimos o cheiro de uma comida, aquela feita por um ente querido, mesmo que não estejamos cozinhando, mesmo que não estejamos próximos de uma cozinha; sente-se o cheiro, pois há uma memória vinculada ao sentimento de afeto, de saudade. Não são dados reais, pois, não estão no presente, estão na memória; no primeiro caso, o da silhueta, os dados reais estão deturpados e, quando estamos fragilizados, seja de modo físico ou psíquico, as associações racionais se confundem e, com isso, ascendem-nos às emoções ambíguas e ilídimas.

Sim, os mecanismos racionais e emocionais estão vinculados; a logica racional pode, por vezes, impedir a emoção de florir e a emoção, quando muito à flor da pele, impede a lógica racional de estabilizar-se. A Poesia, por sua vez, é a voz da Emoção e do Sentimento; a diferença entre emoção e sentimento é seu continuum, isto é, emoções são fugazes e baseiam-se no sensual que, por sua vez, pode ser ilusório ou real — não entrarei aqui na discussão minuciosa sobre o que é ou não é ilusão, pois, estender-me-ia desnecessariamente — ; já os sentimentos são mais enraizados, não nascem, se constroem dia após dia e essa construção depende de inúmeros fatores relacionais e vivenciais — as bases de um sentimento estão sempre no sensual, no racional, no emocional e no intuicional. O Intuicional pode ser compreendido como tudo aquilo que a Razão não consegue conceber e que as emoções não conseguem plenamente vivenciar; pois é como se a Intuição não falasse o mesmo idioma que a Emoção e a Razão. Por que os Sentimentos têm raízes intuicionais? Porque muitos foram fundamentados em crenças espirituais e esperanças; a crença espiritual e a esperança, na prática, estão mescladas, mas diferirei aqui somente para fazê-los compreender que se trata de tudo o que é imaterial, seja baseado em uma ideia de “sobrenatural” ou numa ideia de “futuro”. As ideias são imateriais, tomemos como exemplo a crença em um salvador e a esperança de conseguir construir uma família com alguém; no primeiro caso, há o perene sentimento de glória e paz futuras, talvez no pós-morte; no segundo caso, há o perene sentimento de possibilidade de realização e vivência prazerosa no futuro, antes que o tempo passe.

A Esperança e a Crença são essencialmente intuicionais, mas a Intuição não é somente a Esperança e a Crença, ela é, principalmente, a apreensão consciente sobre a totalidade do possível a partir do vivido e do histórico existencial; bem, isso é um pouco difícil de entender e eu não explicarei aqui, pois, é um assunto amplo demais e poderá afastar o propósito d’este ensaio que é elucidar o que são os Fósmeos.

Sabemos, então, o que é e como funciona a Razão, a Emoção e os Sentimentos; agora podemos imaginar como seria se a Razão, em toda a sua lógica baseada em dados reais, pudesse conceber de si uma Poesia. A Poesia pode ser entendida como a Arte de compor versos, mas popularmente é vista como a Arte de deixar-se sentir, emocionar-se e abrir-se plenamente por meio da Arte. Portanto, toda forma de expressão pura de sentimentos, vivências, emoções e desejos vindos da essência de um ser, é Poesia. Poesia é o que encanta, o que desperta, o que fascina, o que toca o espírito de alguma forma; e essa é a mesma definição de Arte. Poesia e Arte tornaram-se a mesma, toda forma de arte autêntica, expressiva e tocante, é Poesia e vice-versa.

Claro que a nossa racionalidade poderá contestar isso, sim, pois é disso que vive a Razão: Do contestar para encontrar a lógica perfeita. Se ao ler este ensaio, sentes vontade de questionar o que expliquei sobra a Poesia, a Emoção, e tudo os demais conceitos, então estás presenciando o agir pleno da Razão. Pare e se deixe viver a plenitude d’este momento; diga-me, pois, se não há certa poética n’esta manifestação racional? Bem, eu vejo tal poética e, por isso, criei os Fósmeos.

Fósmeos são expressões Poéticas da Razão em toda a sua plenitude questionadora e lógica, toda a sua capacidade de apreender a realidade buscando vê-la tal como é, sem acrescentar nada. Compreender esse fenômeno é simples, basta estudar as bases do método cartesiano, o método que rege a maioria das ciências de hoje em dia. O método de Descartes é completamente originado na lógica da Razão e será que n’isso cabe a Poesia enquanto livre expressão sentimental, emocional, intuitiva? O ato de versar, a lógica dos poemas, tais como o Soneto, está muito próxima da Razão, pois há uma ordem e uma lógica precisa para que sejam criados; os sentimentos transpassados através destes poemas é que são mais emocionais e sentimentais, fala-se de amor, de medo, me angústia e, embora tudo isso faça parte da totalidade do gênero humano, a pura Razão não se atrai pela ambiguidade, de certa forma caótica, d’estas instâncias. Portanto, para que a Razão faça Poesia, basta compreender que tipo de expressão ela espargirá em seus versos.

A Essência da Razão é: A dúvida, o questionamento, a lógica, a realidade tal como é apreendida na ausência de qualquer tipo de intuição e emoção e, por fim, o terror. Deixe-me explicar-vos o terror. O terror da Razão é a incapacidade de ser dissociada das demais instâncias mentais e, também, a eterna incerteza que a faz duvidar até de si mesma. A Poesia Racional, portanto, teria de expressar estas cinco características e outras mais; discorrerei mais profundamente sobre isso.

A Razão se guia pela lógica, portanto, a Poesia da Razão precisa ser lógica. A Linguagem em si já tem um esquema lógico, isto é, signos (letras) que formam sílabas, que formam palavras com significados; por exemplo: “C” é uma consoante que, junto com “A” que é uma vogal, forma a sílaba “CA” que nós, humanos, conseguimos pronunciar e escrever. Unindo a sílaba “Ca” com a sílaba “Sa” temos uma lógica significacional: “CASA” — uma palavra; todas as palavras tem significados, usa-se “CASA” para representar algo do real, isto é, a casa qual moramos, a casa que construímos. A casa enquanto algo-que-existe é concebida logicamente pela Razão, pois pode ser descrita e o ato de descrever é o primeiro passo para se analisar e, posteriormente, provar a existência — coisas que, como já mencionei, fazem parte da racionalidade que de tudo duvida e baseia-se sempre no real que, preferencialmente, pode ser provado como real. A lógica da Poesia da Razão é a linguagem que pode descrever a realidade.

A Poesia da Razão também precisa de ordem, pois, a lógica não basta em si mesmo; se tudo estiver desorganizado, ela não consegue permanecer. Sim, a lógica é um tipo de ordem, mas a Razão quer sempre mais, por isso a Poesia da Razão precisa ser escandida. A escansão fixa dos Fósmeos é hexâmetro dactílico e talvez você se pergunte o porquê. Bem, o hexâmetro dactílico possibilita o uso de palavras mais complexas e a complexidade fascina a Razão, tudo por que a leva a exercitar-se para conceber a lógica dos significados em seus vínculos pelas palavras, por exemplo: A frase “Eu te amo” é já muito compreendida pela Razão, pois, logicamente, descreve o sentimento de vínculo relacional intenso; já a frase “Ontologia Esquálida” requer muito mais estudo lógico do que “Eu te amo”, ela faz a Razão buscar a essência significacional de “Ontologia” e “Esquálido” tentando formular a significação lógica da união d’estas duas palavras tão distintas e complexas, principalmente a palavra “ontologia” que é muito discutida na Ciência e na Filosofia.

Quando se cria escansão com tônicas próximas, impossibilita-se o uso de palavras como “imponderável” cuja tônica é na penúltima sílaba após três sílabas curtas. O verso em hexâmetro dactílico é feito por uma sílaba tônica e, em seguida, duas curtas; tomemos como exemplo o primeiro verso da primeira estrofe do primeiro Fósmeo que escrevi: Ósculos à liberdade inevel em cidez blimeO que temos aqui é, em negrito, as sílabas tônicas/longas e, em itálico, as sílabas curtas. É um manjar dos deuses para a Razão! Mas, como mencionei acima, a Razão é feita de Lógica, Ordem, Dúvida, Questionamento, Realidade/fidedignidade e Terror. Até agora apresentei a Poesia da Razão em sua lógica e em sua ordem, agora apresentarei o conteúdo e como ele se dá na poética da racionalidade.

Iniciamos com a dúvida e o questionamento; escrever um Fósmeo, isto é, um poema da Poesia da Razão, requer desvelar-se racionalmente sobre as indagações e dúvidas da existência humana, por exemplo: Seguindo a lógica da razão, haver um Deus é impossível; para a Razão pura, a existência tem uma ordem e, se ainda não a conhecemos completamente, é porque ainda não compreendemos sua totalidade lógica. Todavia, como a Razão sempre duvida e questiona, a lógica ainda não descoberta sobre a existência é, por vezes, posta em questão pela própria Razão a partir do questionamento: “E se não houver uma lógica para a existência?”. Aqui vemos claramente um exemplo do terror da Razão; para a racionalidade é terrífico considerar, por um átimo, a possibilidade da existência ser ilógica e desorganizada. O acaso, por exemplo, é um demônio cruel para a Razão.

Portanto, a Poesia da Razão, em conteúdo, expressa: 1) Dúvidas sobre toda a existência; 2) Questionamentos sobre o que ainda não foi compreendido logicamente e sobre o que já foi compreendido logicamente — aqui temos a influência do primeiro item, a dúvida, pois mesmo aquilo que já foi compreendido em lógica, poderá vir a ser questionado de acordo com os próprios questionamentos realizados pelo item dois que é o questionamento; 3)O terror da dúvida infinita; 4) O terror da possibilidade de ausência lógica para os dados existenciais; 5) O terror da possibilidade da realidade ser ilusão — aqui temos o terror da Razão em relação a realidade que é o seu principal fundamento, contudo, a realidade é apreendida pelo sensual — os cinco sentidos — e como foi supracitado, o sensual nem sempre está correto, pois funciona unido também às emoções e sentimentos e não somente ao dado real que se mostra na realidade do real. Aqui também adentra a dúvida sobre o real ser de fato real; 6) O vislumbrar e admirar das realidades possíveis em lógica, ordem e fundamento — aqui temos o “lado bom” da razão que também se deleita quando posta frente à ordem, à lógica e o fundamento; 7) O cultuar da beleza do que é complexo — tal como mencionei das palavras mais difíceis e a união de seus significados, essa prolixidade leva a Razão a exercer sua essência criando lógicas, associações e fundamentos; eis a sua beleza.

A expressão da racionalidade em Poesia é esta, a expressão do deleite para a lógica, a complexidade, a ordem e o fundamento das coisas que existem, ao mesmo tempo a expressão do terror que a dúvida e o questionamento geram sobre as coisas da existência. Escreve-se um Fósmeo quando os sete conteúdos mencionados são explanados e expressados aos versos escandidos em hexâmetro dactílico.

Voltemos, agora, à forma do poema. Já elucidei sobre o hexâmetro dactílico e, portanto, posso explicar sobre a contagem de sílabas poéticas, a contagem dos versos, quantidade de estrofes e o que tudo isso significa para a Poética da Razão. Pois bem, o Fósmeo melhor coube em três quartetos e um monoístico dentro de um monostrófico com treze versos; o porquê disso? Não sei ao certo, posso confessar que perambulei outros formatos de poemas e o que mais senti satisfazer minha racionalidade foi este. Acredito que isso aconteceu, pois, dado a complexidade d’este tipo poético, é preciso que um verso sempre se apoie no outro (em relação a ser um monostrófico); quanto aos quartetos e ao monoístico, tratou-se mesmo de uma análise intuitiva — mesmo que a racionalidade não aprecie muito a instância intuicional.

Eis o meu primeiro Fósmeo, agora completo:

Fósmeo 1o

Ósculos à liberdade inefável em lúcidez súblime
Tal Poesia ascendente nadífica desta vazia existência
Às inefáveis gotículas vertem, e árvores mortas se calam
Quando os versículos aos esquálidos céus de tristezas
Vêm e contando a respeito de Teu absenteísmo em revérbero
Este que faz amargura e se pesa em misântropo torso
Ora nos frios espíritos sós e noctívagos como o que porto
Raro fumega incontáveis as ganas de nímias questões
Tanto a sorver os sinais do que, etéreo, se é o possível em pânico
Vindo do núcleo do tal coexístico qual se ambienta
Sou inquietude perante o uno justo direito que é a sensátez
Neste alardante em horror exprimido por ela, tacíturna,
Põe, por agora, sem tardo, o dossel fluvial que pertences.

Fósmeo 1o — Análise silábica

Ósculos à liberdade inevel em cidez blime
Tal Poesiascendente nafica desta vaziexistência
Às ineveis goculas vertemárvores mortas se calam
Quando os verculos aos esquálidos céus de tristezas
Vêm e contando a respeito de Teu absenteísmo em revérbero
Este que faz amargura e se pesa em misântropo torso
Ora nos frios esritos sós e nocvagos como o que porto
Raro fumega inconveis as ganas de mias questões
Tanto a sorver os sinais do que, ereo, se é o posvel em nico
Vindo do cleo do tal coexístico qual se ambienta
Sou inquietude perante o uno justo direito que é a sentez
Neste alardante em horror exprimido por ela, taturna,
Põe, por agora, sem tardo, o dossel fluvial que pertences.

Fósmeo 1o — Compreensão

O que apreendemos n’um Fósmeo é o seu caráter de fluxo-de-pensamento, ou seja, ler um Fósmeo pode soar impossível, sem lógica, sem nexo, improvável de ser assimilado; porventura até mesmo soe como um insulto à Poesia. Isso, pois, que os Fósmeos captam com perfeição o fluxo da Racionalidade que é um fluxo contínuo, difícil e complexo como um fractal. Após a leitura é possível ver — e decerto que os críticos de plantão hão de mencionar — os “erros” de acentuação em algumas palavras. Estes “erros” não são erros, pelo contrário, existem para tornar nítido que se trata de um Fósmeo, isto é, a Poesia da Razão; a racionalidade cria, literalmente, lógicas para tudo o que existe; sempre em busca do encaixe perfeito, da ordem, do controle; a modificação das tônicas nas palavras utilizadas transmitem o poder da mente de tecer lógica quando esta não há, ainda que seja uma lógica própria da subjetividade racional em questão e mesmo que modifique a realidade em si — vale lembrar do terror da racionalidade e que este está sempre presente, pois a Razão, em sua busca árdua, muito se perde em si mesma. Percebam que as palavras com tônicas modificadas não perderam o sentido, tampouco a compreensão, apenas a sonoridade. Eu poderia trocar a sílaba tônica de “agora” para “agorá” ou “ágora”? Não, pois ao serem pronunciadas, afastam-se demais da palavra original. “Sensátez” ou “súblime” não se afastam tanto a ponto de soar como uma nova palavra.

Compreender um Fósmeo requer cuidado, colocarei a compreensão dos versos abaixo dos mesmos e em itálico.

Ósculos à liberdade inefável em lúcidez súblime
Beijo a liberdade indizível em lucidez sublime, isto é, glorificar a liberdade estando incrivelmente são.

Tal Poesia ascendente, nadífica, desta vazia existência
A poesia do beijo à liberdade é ascendente, nadificante, d’esta vazia existência; ou seja, beijar a liberdade é poético e ascende, leva além, de forma nadificante, acima do vazio da existência — aqui é possível perceber o terror da razão ao dizer que beijar a liberdade é ascendente, mas nadificante, ao mesmo tempo que leva além do vazio, ou seja, o terror não se extingui mesmo quando soa extinguir-se.

Às inefáveis gotículas vertem, e árvores mortas se calam
Às indizíveis gotas caem e as árvores mortas se calam, os dados da realidade são vistos a partir do terror da Razão.

Quando os versículos aos esquálidos céus de tristezas
Quando os versículos aos descuidados céus de tristezas, ou seja, o terror da Razão invade os dados da realidade quando os versos se tornam descuidados e o céu é tristeza — menção ao terror da Razão, sua não dissociação com as demais instâncias mentais e, também, a dificuldade em se manter no padrão que a constituição racional impõe, o estorvo para a subjetividade que escreveu o Fósmeo. Isso é importante lembrar, pois, a Razão em si não é um ente, ela é uma instância psíquica de uma singularidade humana. Os Fósmeos se diferem em expressividade quando escritos por pessoas diferentes.

Vêm e contando a respeito de Teu absenteísmo em revérbero
O que vem é a tristura nos céus e ela conta sobre a ausência de alguém que se reverbera — mais uma vez mistura-se instâncias psíquicas e estas são postas a partir do olhar racional, mesclando dados reais com complexidades lógicas e associações próprias: a ausência de alguém com a lógica da realidade conturbada.

Este que faz amargura e se pesa em misântropo torso
Aqui escrevo sobre mim e sobre o que a racionalidade em sua busca insana faz comigo: A solidão pesando nas costas como uma cruz.

Ora nos frios espíritos sós e noctívagos como o que porto
Complementando o verso acima, cito-me enquanto espírito frio e noctívago, tudo porque há essa racionalidade exacerbada.

Raro fumega incontáveis as ganas de nímias questões
N’este verso clamo as dificuldades da constante dúvida, como um fumegar infinito d’uma excessiva febre.

Tanto a sorver os sinais do que, etéreo, se é o possível em pânico
E tal febre vai sugando tudo o que pode ser um alívio que tão logo se transforma em pânico, uma vez que calar a razão é impossível (no meu caso, lembrando que escrevo sobre a minha racionalidade).

Vindo do núcleo do tal coexístico qual se ambienta
Não poderia eu deixar de citar o caos da Razão na coexistência qual me estou, pois toda a sua constituição me leva a certos ceticismos e afastamentos sociais; n’este verso eu expresso isso.

Sou inquietude perante o uno justo direito que é a sensátez
Logo mostro os afastamentos mencionados e o que causam em mim, fazendo-me ter o direito somente de ser sempre sensata — ou buscar sempre ser, pois é o que me cabe enquanto ser racional.

Neste alardante em horror exprimido por ela, tacíturna,
Mais uma vez falo do terror racional e da taciturnidade que ele causa.

Põe, por agora, sem tardo, o dossel fluvial que pertences.
Por fim menciono um possível alívio, sentir o “dossel fluvial” que ‘alguém’ é pertencente. Este ‘alguém’ é o mesmo sujeito do ‘teu’ do quinto verso.

Percebe-se a dificuldade de compreender os Fósmeos, no entanto, com maestria, ele representa a Poética da Razão; quiçá não represente ao leitor que agora finaliza este ensaio, mas quando eu escrevi finalmente este primeiro Fósmeo, senti grande prazer, senti minha racionalidade em êxtase e, por isso, inspirei-me a desvelar, aqui, o âmago dos Fósmeos. Este necessidade teve seu início há um tempo, quando percebi que estava sendo cada vez mais tomada pela constituição da racionalidade, por muitas vezes minhas emoções e sentimentos se afastavam de mim e a minha mente em constante dúvida e questionamento me impossibilitava até mesmo de dormir ou de sentir o prazer de algum momento intenso em minha vida. A partir disso decidi que descobriria a Poética da Razão, para assim despejá-la nos versos e aquietá-la um pouco, ao mesmo tempo, compreendê-la em sua constituição. É-me realmente puro regozijo ter conseguido redigir este ensaio explorando os Fósmeos e expondo toda a história de seu surgimento por meio de minha Escrita. O uso do termo “fósmeo” para representar a Poética da Razão se deu porque “fósmeo” significa “incompreensível” ou “difícil de compreender”, além disso, é de etimologia misteriosa; nada instiga mais a racionalidade do que um dedicar-se a compreender, tornar lógico e ordenado o que é incompreensível e, nada mais agradável à Razão do que buscar desvendar um bom mistério.

Anseio por agora criar mais Fósmeos e desvelá-los cada vez mais, para tanto, em breve escreverei uma coletânea denominada “Fósmeos em Dm e lá porei todos os meus Fósmeos. Se vier-me alguém indagar, por fim, posso firmemente dizer ser poetisa, sonetista, e também, fósmetista.

 
Oanna SeltenComentário