IV

Pensar na ideia de Deus para uma ex-cristã é munição para o ego dos cristãos atuais que estão sempre enraizados na única busca que lhes soa autêntica: pregar a palavras. "Pregar" que vem de "prego", os cristãos se acham os "martelos" do mundo, prendendo pessoa por pessoa na "madeira da metafísica" rsrs... "Acreditar" e "ter fé" tornou-se "ser cristão" e eu, que sempre fui cristã, pela ira de ver os meus "irmãos em Cristo" pregando palavras de ódio e incoerência, tornei-me cética.

O ceticismo é uma armadilha, bem como a ideia de Deus, bem como a mente humana. A mente humana é um maldito labirinto cheio de saídas e que busca sempre seguir o mesmo percurso assim que encontra uma das saídas, a mente jamais tenta descobrir outra para por em prova novas possibilidades. Esta é a mente humana: um mísero conjunto de hábitos. É por isso que busco a consciência, esta que está acima do hábito, do quotidiano, da metafísica, do ceticismo, da fé.

De fato é uma busca angustiante, principalmente porque, antes de perceber, a mente já está reinando. Hoje mesmo eu fiz as mesmas coisas de ontem (as quais não gostei), no entanto, somente agora me dei conta disso. Estou me repetindo, assim como a mente deseja. Não, a mente não está "fora" de mim, tampouco vive para me sabotar. Trata-se de um meio de ser, um modo de ser instintivo. A mente defende a si própria, isto é, nos defende. Seguir um hábito sempre soa mais seguro do que se aventurar. 

Não gosto que digam que sou abençoada por Deus - eis um dos pontos em que estive pensando. Se ele existe, prefiro que abençoe pessoas que sofrem mais, que são ignorantes, que estão dominadas pela mente e já sequer sabem o que é consciência. Se é para abençoar, escolha as crianças na Síria e não eu. Eu estou bem aqui, eu consigo pelo meu próprio mérito... Sempre que me direcionam um "Deus te abençoe", quem me dera dizer "Não, obrigada" sem que me achassem o próprio anticristo. Não sou contra Cristo, nem contra Deus ou deuses; sou contra os hábitos ignorantes e a baixa consciência; querendo ou não, a ideia de Deus e a religiosidade estão vinculadas à baixa consciência.

Não sou mais cética, ou, pelo menos, estou deixando de ser; isso não significa que acreditarei em Deus ou deuses, significa apenas que acreditarei no que observo. Eu não observo milagres, não observo Deus, não observo bençãos. Eu observo a mente e seus hábitos, a consciência e seu poder, a vida em si e a morte. Observo as raízes do que há e do que veio-a-ser. Acredito nisso que observo e isso não significa que estou acreditando em contos de fadas. O plano racional está vívido em meu cérebro. Acreditar é uma ferramenta (mal usada pelos crentes em metafísica) crucial para a consciência absoluta. Acreditar significa não duvidar, as dúvidas podem gerar estagnação; isso não quer, também, dizer que deve se fechar os olhos; não, o acreditar deve ser consciente, racional e compreensível, mas nunca, absolutamente nunca, cético. 

Se por um instante hesitei que seria capaz de conseguir ganhar algo apenas com o poder da mente, o obstáculo está posto, provavelmente não conseguirei atrair o objeto desejado. Mais uma coisa interessante é: não adianta repetir diariamente que ganhará algo ou que algo acontecerá; a atração pelo pensamento não acontece primeiro no plano cognitivo, mas sim no plano sensitivo. Exatamente! Sentir que acontecerá algo é muito mais potente do que a pronúncia básica do "Eu acredito e vai acontecer"; lembro-me da frase "good vibes" da sociedade egocêntrica de hoje: "foco, força e fé" - nada é mais risível que essa frase. Sua raiz é o ego puro, a vaidade. Quer foco, força e fé? Faça silêncio e deixe de buscar "likes" no Facebook.

Escrevo para mim mesma, pois, escrever para pessoas é extenuante. Nunca - ou quase nunca - são capazes de compreender o que transferi à arte em relação a elas. Compreender a arte não é caçar um "por que?", é sentir que a efemeridade foi imortalizada ali, nas palavras, e tudo o que se pode fazer é sentir - abandonar a racionalidade - apenas sentir... no silêncio... Sentir consciente é uma lei para mim.

Oanna SeltenComentário