Nomscis - A Poesia D'outrora

Decidi criar Nomscis quando me vi envolta de um oceano de poesias puras que resplandeciam minha’alma n’um curto, porém vasto, caminho que percorri pelas palavras. Havia muita poesia nas gavetas, nos recantos; poesias cujo âmago era inteiriço amador, de quem ama e ama demais. Eu escrevia somente por amor, por amor às pessoas, por amor às possibilidades, aos sonhos e ao metafísico. Amor este que se foi metamorfoseando, em especial quando me voltei ao universo do saber. O conhecimento levou minha Escrita a seu próprio nível de compreensão de si mesma, onde eu, por fim, passei a escrever não por Amor, mas pela Escrita-Em-Si.

Considero Nomscis o caminho à Poesia singela, fundamentada na busca por sentido e tendo como norte as veemências sentimentais. Breve, no florilégio Altum Lyra que hei de publicar, será possível assimilar-me n’uma existencialidade íntima e n’uma profundidade ontológica do Ser-poético que comprova o meu afastamento, em certo grau, das impetuosidades românticas. Em Nomscis, todavia, o sentimentalismo exalava de mim e dele eu extraía um cântico de nímia beleza em versos falhos, dúbios e, por vezes, incoerentes ao leitor; esta é a sublimidade da Poesia Amante, considero-a rara, tanto que já dela muito perdi nas infindas metamorfoses experienciadas e preservo, com afeição, o que me resta.

No aprofundamento da obra, desperto o leitor de imediato nas primeiras páginas, pois, significo o nome Nomscis e vinculo-o a Ílus que, na época, ainda germinava. Trata-se da historicidade não apenas minha enquanto Escritora, mas minha enquanto Mmaehsísta, isto é, manipuladora transcendental da Escrita pela Escrita em sua essência. Para clarificar a obscuridade d’esta significação epítome, devo mencionar um trecho que muito desperta o Ser à sua transcendentalidade — embora fora escrito com outros objetivos — costuma ser de grande valor para o principio do sentido de Mmahesí — e afirmo de antemão que a transcendentalidade não está limítrofe à religiosidade ou espiritualidade no que se refere às suas significações taxionômicas e sentidos coexistenciais in-conscientes.

A linguagem é: linguagem. A linguagem fala. Caindo no abismo dessa frase, não nos precipitamos todavia num nada. Caímos para o alto. Essa altura entreabre uma profundidade. Altura e profundidade dimensionam um lugar onde gostaríamos de nos sentir em casa a fim de encontrar uma morada para a essência [...] Pensar desde a linguagem significa: alcançar de tal modo a fala da linguagem que essa fala aconteça como o que concede e garante uma morada [...] para o modo de ser dos mortais.
— Martin Heidegger

Cabem inúmeras compreensões n’este ínterim, no entanto me reservo em apenas uma: Para o modo-de-ser humano, para sua essência questionadora, a linguagem é o abismo e a atmosfera; é a morada do Ser. Transcender a Escrita é alcançar e manipular conscientemente o abismo e a atmosfera da linguagem; tomá-la para si na consciência de Ser e ir além de si mesmo e da linguagem, para encontrar a Escrita e o seu sui generis poder. Em Mmahesí sou capaz d’isto e, mesmo no germinar de Ílus já manifesto em Nomscis, eu sabia que era capaz, pois o Ser reconhece o que da racionalidade se desvia e o que diz respeito a si.

Descrevo Nomscis como o prelúdio de um inestimável develar-se à Escrita Transcendente; contudo, no interior das páginas pólen, o que se revela não é Ílus ou a etérea Mmahesí, mas sim as emoções, o caos, as fragilidades, as transmutações de um Eu que fui, nos cumes da mocidade, tão profundamente amante — e que sou ainda, de forma tenra. É no exercício da leitura de Nomscis, e somente assim, que tais instâncias multiformes vêm ao encontro da compreensão. Ousei selecionar algumas das poesias/prosas-poéticas de Nosmcis para apresentar aqui — deixando de lado o embargo d’este quase sacrilégio — espero que disponibilizá-las traga aos leitores e/ou curiosos uma pequena porção do âmago d’este meu caminho lírico.

A veemência levava-me ao pensamento de que o recíproco era preciso para o efetivar do prazer; que as amarguras eram dignas dos aplausos contínuos, pois, nelas descansavam as verdadeiras profundidades. Sob a égide do Mal do Século e tendo, desde cedo, um chamado constante da Angústia; toda a poética minha era um ínfimo jazer. Quis, portanto, tornar este Eu d’outrora n’uma obra imortal, para que haja lembrança concreta; para que a autenticidade transpassada nas folhas possam alcançar outros seres que precisem respirar intensidades para não se sentirem tão sós, embora a solidão seja crucial, cingi-la com Poesia é perpetuamente permitido.

De todas as minhas crenças dissolvidas no tempo, uma sobrevivera: Um livro tem seu próprio Ser, ao tocá-lo com os olhos e com as mãos, sentir-se-á sua essência, seu coração pulsante e vívido em cada sílaba que o compõe. Eis a experiência pura de vínculo entre Seres e Nomscis te convida a vincular-se.

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