O Existir

Alexandre Cabanel - Phaedra (meados de 1880)

Alexandre Cabanel - Phaedra (meados de 1880)

O existir é como uma sombra para mim. Persegue-me sob o sol pálido ou negrume. Insisto em acostumar-me com ele, no entanto, fracasso. Seja quem for o autor d'este haver, decerto que se trata de uma mente sagaz e vil. À esta altura, o leitor vivencia a eterealidade do pessimismo que dizem eu possuir, enquanto, ao meu ver, trata-se somente d'um declínio ao infortúnio duvidar. Andar sob linhas tênues que dividem o abismo e a atmosfera que asseguram a queda tal como asseguram o voo - este é o duvidar. A indagação é o martírio preciso?

O existir é como uma sombra mesmo, debaixo dos meus pés a refletir meu próprio eu num continuum abstrato e solipsista. Em tempo, ainda escuto no silêncio os sutis e efêmeros sons de quietude, rogo por sua permanência, mas é em vão. Abrem-se os ouvidos para o som e o som os penetra infindável, toda a serenidade taciturna torna-se fábula. Os ouvidos abertos são consciência, a consciência em seu princípio desvelado é balbúrdia agônica. Motim, caos em cerne. Ou, quiçá, seja eu incapaz de compreender a consciência e, diante de seu ser-consciência, retorno à infância, no desesperador vir-à-ser, o primeiro contato absurdo com o mundo; flor aberta em seiva e água, a luz em todos os sentidos; o primeiro alarde qual sei estar estigmatizado em meu espírito.

As idas doem mais que as vindas, as vindas sempre carregam um "por quê?" quando se tornam pequenas diante das idas. Este "por quê?" é solo fértil à angústia e da angústia eu conheço bem. É o pisar sorrateiro no caminho instável da vida, nos instantes ininterruptos de coexistência cingida entre os que correm e os que caminham. Eu sou um pequeno ponto no meio disso e a mente qual possuo, reconhece seu próprio universo. Não separo o Ente do Ser, todavia, se pudesse, o faria; uma Energia de Ser, solta aos ventos frígidos, poderia atravessar o firmamento e beijar a massa escura? Porventura, teria consciência? A mente sem um corpo seria mente? Dissipar-se-ia? Do pó ao pó? Enquanto há ente, corpo que limita e ascende, eu escrevo. O Existir tem seus males e seus bens.

É comum a exaustão quando se enxerga no abismo de si; cansa-se de estar debaixo do mesmo céu que outros estão, cansa-se a convivência, questiona-se mais um típico "por quê?", se não seria, pois, mais fácil sermos todos destituídos de razão e, por tanto, destituídos de linguagem - - a qual, em si mesma, gerou o ápice consciencial? Agiríamos no instinto, o limite dos impulsos no equilíbrio natural. Pois que a Mãe Natureza não criou o filho humano e eu não sei de qual natureza vem o filho humano, se dos deuses ou dos demônios, contudo, decerto que não é d'esta mesma Natureza que se vê nas tulipas e nos tigres, nas águas-vivas e nas bactérias, nas maçãs e nos gafanhotos. A natureza do humano não é a Natureza da Terra, a natureza humana vem d'um âmago abstrato, atemporal, indizível e terrífico. Natural de uma maldição e de uma benção cuja essência deflora em tormenta. Se não fosse isso verossímil, a questão de ser não seria vívida em nós por meio da linguagem. Nada haveria de se pensar num Ser, nem de se pensar por si. Nada haveria além de haver sem Ser e de haver por só haver.

Existir é a sombra de Ser que, em si mesmo, é sombrio, e todo o Existir só existe à sombriedade do Ser que, por sua vez, só existe nas sombras de um "por quê?" jamais respondido.

No âmago de mim há um anseio que por cada instante sussurra tenro desespero sobre o que não sei, sobre o inconcebível, o incerto, o vago. Um nada que me perfura os tímpanos, toca minh’alma, destrói as grades da cela do Ser e ascende-me à prisão prismática do paradoxo do haver. Sob quaisquer circunstâncias, sinto o abismo debaixo dos pés.
— Oanna Selten
ReflexõesOanna SeltenComentário