Sob O Lusco-Fusco

Marie Bashkirtseff — Autumn (1883)

Marie Bashkirtseff — Autumn (1883)

Vos observo aqui de onde estou, pondero quem sou e o porquê. Se pudéssemos existir na singularidade, juntos, sem a angústia do sofrer. Se pudéssemos respirar este ar que nos cinge, sem o sufoco das impurezas.

Sois etéreos, como cristalinas águas de meu imaginar. No terror instintivo de vossas vidas há beleza pel’ausência da Razão. De que serve esta mente ascendente inenarrável se o equilíbrio não se encontra às nossas mãos? De que sirvo senão p’ra servir a esta Terra que não se sabe quanto perdurará, nem se outra igual, por aí, há?

Folhas que degusto para viver, peço perdão por sugá-las a energia de vida quando relembro que, tão logo, em um centésimo temporal, sucumbirei ao vosso solo, servis-vos-ei do corpo meu. Todo respeito deito às tuas radículas, os verdes de tuas maturações. Se erro em existir, pois, sou d’esta raça perdida no vazio da não compreensão, nutro a busca pel’ausência do círculo egoico.

Porventura, contudo, estas letras sejam ínfimas e, sobretudo, reste apenas o silêncio em si, os ventos à face enquanto lacrimejam os olhos; porque sei que de tudo o que é, o mais indigno de ser, sou; e de tudo o que foi, o mais cruel foi deixar-nos, humanos, cá ser.

Oanna SeltenComentário