Eu, Oanna Selten

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Há nos Outonos a essência de meu haver, longínquos arvoredos virente-orvalho junto ao calor dos dias claros e o álgido noturnal que desce feito dossel, incitando ao introspectivo voltar-se. Eu sou Oanna, proponho-me, n’esta página, redigir sobre meu eu, embora prefira a prosa-poética dos Flamingos. Evito dar ao meu Ego o espaço de sua expansão, é desnecessário, desagradável; é por isso que todos os quadros pintados à óleo descansam nas paredes d’este lugar, preenchem, tão afáveis, meu recanto, pois, assim, não se alastra a ignorância egoica. Escrever requer dilacerar-se em sílabas, incite exprimir-se entrelinhas e, solitário como é, o ato já promove o reflexo contínuo do próprio Eu, por isso agrada-me as supras poesias sazonais, os versos amanteigados de puro cacau. O ego, a imagem de mim, já está diariamente comigo — a Escrita é a fuga à vivência além-ego, além-quotidianidade, além-tudo e além-nada — no absoluto que o Nada é tão maior que o Tudo ou é, em si mesmo, o único Tudo; resguardo-me na Escrita.

Como está visível e legível, sou Filósofa; não porque autointitulei-me como tal, trata-se do Saber da Verdade. Uma vez que a Verdade se revela, não se pode escolher des-revelá-la; debruçar-se à Verdade requer estar, até o desfecho do Ser, sob seu fundamento. Como sei que se trata d’A Verdade? Sei, pois que me angustio e estou só; a angústia e a solidão são os únicos horizontes tangíveis para o tipo humano, este que foi jogado no mundo condenado a Ser. Embora não pareça, mantenho-me no equilíbrio entre o abismo e a superfície. Sorrio o mesmo tanto que choro, não serei encontrada no caos que não seja o meu próprio, o qual mantenho sob tutela. É por isso que faço d’Arte meu rumo, sem as cores d’aquarela, os pinceis, os lápis, a vida em movimento traçado, fotografado, vívido, brilhante e cantado; ser-me-ia um poço e nada mais.

Minha mente chegou ao fim do universo e foi além, sinto os traumas d’esta ambição desd’então; somente na Arte diminuo as dores traumas e calo, por segundos, esta mente que segue ad aeternum em busca de transcendência. Eu sei, eu a permiti ser o que é, ela sou eu e eu a sou, somos um único ser, uma consciência só; apesar das dores, não me apetece ser outra que não eu mesma. Quem me vê pouco sabe d’este tudo e d’este nada qual pertenço.