Capítulo Duodecim

Silencio. 

— Mestre? – Ela quebranta a nulidade. — Observas-me? 

— Sim – respondo.

— O que vês? – questiona-me. — Um horizonte em tonalidade vennusia, banhado em cerrações pálidas e silentes? – Fito seus olhos, há neles uma composição peculiar.

— Vejo o que se lê em teu nome. A significação – profiro. Sublime sorri; é etérea como a paisagem que recita. N’um segundo repentino, seu semblante cerca-se de consternação; o pesadelo d’outrora se faz vivo, eu o percebo contíguo. – Diga-me o que evidencia tua expressão – preceituo para ouvi-la.

— A lembrança – ela diz.

Pálida detrás do níveo dossel, ainda que os estigmas violáceos estivessem evidentes, conserva-se a ímpar venustidade característica somente de Sublime. 

— Os pesadelos... – Ela senta-se na cama, a seda é o ninho de sua agonia. — O homem... Ele disse que permaneceria dentre eles... dentre os pesadelos... – A luz tenra revela a lacrima nascente. — Era verossímil... era verossímil. – Suas mãos em sua face buscando esperança na escuridão, pálpebras fechadas, corpo contido. Caminho em sua direção; afasto o dossel. Aparto as suas mãos de seu rosto.

— Há algo com meus olhos? Por que sangram quando choro? – Sublime pergunta. Um aspecto perdido, um trauma real e enraizado; firmado sobre um existir que outrora era abismo somente a si – pela inocência e não pelo cruel extermínio dela. Toco as lágrimas de seiva.

— Porque tua angústia não advém daquele que te subjuga – respondo.

— Eu... sinto... dentro de mim... como um precipício... – Antes de sua fala cessar, tomo-a com força, seguro seus braços e os envolvo em minha violência; a expressão de Sublime transpassa medo, talvez pela reminiscência. 

— Quem tu tiveste a obrigação de tornar-se quando, sob meu jugo, escolheu existir? – Silêncio.

Absurdo silêncio na palidez de Sublime. Cansado da espera, golpeio seu rosto, seguro seu queixo e repito a ação.

— Responda-me! – exijo. 

— Forte... Tive de... ser... forte... – ela responde, em pausas frágeis. Bato em sua face mais uma vez.

— Forte? Desta maneira mísera? – indago.

— Eu... sinto muito...

— Não sinta – respondo — Não sinta, Sublime, nada além do que apraz teu ser. Lembra-te do por quê.

Naquele momento, algo desperta em seu imo, a cor retorna à sua pele, os olhos refulgem.

— A tua violência feneceu minha solidão, minha dor... naquele primeiro dia, no meu aniversário. Eu estava morrendo... — Seguro seu pescoço, privo-a de oxigênio enquanto levanto seu corpo.

 E agora, menina, a morte que te deleita é esta que encontras em minha presença.

— Sim, Mestre – ela diz com profunda dificuldade.

— Lembra-te – solto-a, ela respira. Seguro em meu cinto e o preparo para o choque, quero meu prazer. Antes de efetivar a ação, concluo que a ameaça é um jogo ainda mais fascinante. Assim, então, eu a aterrorizo; a simulação do firmamento de meu sadismo em sua pele. Ela se comprime, sobressalta, cerra seus olhos — Olhe para teu Dono! – mando. Ela me olha. Guardo o instrumento de terror, acaricio o rosto de minha submissa. — Diga. – ordeno ternamente.

— Há algo... nisso... no medo que me trazes... na violência que te envolve... há algo que me aproxima de ti, que alivia, que fere e cura... – Sutil silêncio, uma pausa reflexiva, eu apenas a observo. — Não é como... como sofrer o que sofri longe de ti. Contigo eu sinto... conforto... – Sublime abaixa seu olhar para fitar suas mãos trêmulas. — Nunca confessei isso... nem mesmo a mim... que a voragem que crias com teu magnânimo poder, é-me... um vício... 

— Isto é pertencer, Sublime. – Ela vem em minha direção, segura minhas mãos, beija-as. — Eu vingarei o sangue que esvai de tuas retinas... – Alguém bate à porta, interrompe-me. Era Miva: “Senhor, perdoe-me interrompê-lo, há uma visita a tua espera”. Antes de esvair-me, olho para minha posse, olho-a com obscura lhaneza: “Descanse menina. E se a insônia arder tu’alma, busque o teu alento” – profiro. Ela sabe qual alento buscarás: o alento de minha primazia.

Deixo minha posse na presença de Miva, a enfermeira, e caminho para a sala de estar. Lá, um visitante aguardava-me: Istvan Vidrač.

— Boa noite, Stephen Knill. – Sua aura era semelhante à minha, o semblante austero confessava. 

— Boa noite, Istvan. – Seguimos à privacidade do escritório. Apetecia-me o auxílio de Istvan para eliminar o verme que me subestimou.

— Qual razão o fez procurar por mim depois de tantos anos? – Escuto-o questionar e a resposta nasce fugaz.

— Sublime, minha posse, foi sequestrada. Quatro dias de abuso não consentido. Conheço o responsável por isso e este está na casa de Affenae. – Istvan silencia, está surpreso, embora não inteiramente surpreendido.

Dá-se início a um diálogo que poderia ser evitado, a inutilidade do mesmo era indubitável, Vidrač, todavia, não dispensava o proferir eloquente apoiado sobre bases de seus ideais e princípios.

— Esta é uma acusação grave.

— Certamente. E tu bem sabes das bases que existem para esta acusação.

— Achas que Ofir está por detrás do sequestro de tua posse?

— Tua pergunta é retórica.

— Por favor, Stephen! Tu não podes culpá-lo de um sequestro baseando-se em conflitos de cinco anos atrás. Houve investigação do crime? Há alguma prova que possa dar-te esta hipótese?

— E é preciso? – Levanto-me já esgotado de perder tempo — Ofir rumina ódio por mim e a reciprocidade é verossímil. Sublime tinha marcas pelo corpo, estigmas característicos de objetos sadomasoquistas. O teu núcleo BDSM não é santificado, Istvan.

— Não sou ingênuo como pensas, Stephen. Nutro apenas a minha clarividência. Não se pode culpar alguém sem provas.

— Ofir espancou a própria mulher e o próprio filho, esta é a prova da sua maestria e inconcussa competência ao crime hediondo. – O silêncio de Istvan é condescendente, o faz parecer estar aquém de sua posição.

— O que pretendes? Queres que eu obrigue Ofir a vir aqui para que tu te vingues dele com a mesma atrocidade?

— Seria precipitado, não há evidências legais, para haver, é inevitável o retorno ao meio BDSM da Sociedade ØĒHZĨÐ. – Istvan gargalha pateticamente

— Queres voltar? Interessante, Stephen Knill, e como o pretende fazer? Pois, pelo que sei, foste embora por discordar da liturgia.

— Não me oponho à liturgia, apenas tenho senso acerca de sua dispensabilidade.

— Pois então, meu caro, tenha senso que, diante desta posição, não entrarás outra vez no meio, muito menos através de minha estirpe.

— Não faça enredar o que insurge simplório, Vidrač.

— Stephen, eu não o aceitarei em Insrher outra vez.

A alta entrada em vidro negro abre-se, visualizo as pequenas mãos de minha posse. Ao adentrar o escritório apreendo o seu aspecto hermético. Istvan direciona seu olhar a ela e a faz estagnar seus passos infirmes. Há caos nas retinas de Sublime, ela está com medo de Istvan, pois não o conhece, não confia. Tal temor – asfixia.

— Este é Istvan Vidrač, Sublime, um amigo de longa data. – Ainda havia receio nela. — O que queres? – indago. O receio não a permite responder de imediato. — Responda! – ordeno. Ela fixa seus olhos em mim, abstrai tudo ao seu redor.

 O teu alento, Mestre – ela responde. — Os pesadelos levam-me à insônia precisa. 

 Há um entretenimento agradável que pode ajudar-te, menina, este se chama ‘Somni Fabulas’. Está na biblioteca de teu Mestre, tenho certeza que ele não se incomodará se pegares o livro e leres em teu aprazível recôndito. – Sublime me olhou com atenção frêmita e eu preceituei, em gestos, a permissão.

— Dê carinho a ela, Stephen. – profere Istvan após a completa ausência de Sublime.

 Achas que compreendes as necessidades de minha posse, Istvan Vidrač? 

— Não se trata disto. Eu apenas conheço a inatividade dos teus sentimentos.

— Basta! – profiro em equilíbrio. — Responda-me sobre a proposta.

— Qual? Aquela de incluir-te dentro de minha casa, com a minha família, sabendo que não respeitarás as regras e que abominas a liturgia? Tendo ciência de que tu estás caçando Ofir n’uma vingança cega enquanto Sublime morre pelo trauma junto à frialdade de um Dono preso em si mesmo? Se a proposta é esta, Stephen, a resposta é: não. 

Silencio. A ignorância não é digna de palavras.

— Mas eu possuo uma contraproposta – diz Istvan.

— Profira – ordeno.

— Serás bem-vindo em Insrher se trouxeres Sublime e ensiná-la sobre BDSM, sobre a liturgia da sociedade ØĒHZĨÐ. Guiá-la da maneira correta dentro deste universo, ensiná-la sobre a força e o poder que ela possui sobre si mesma. O que vi aqui, Stephen, foi uma criança; uma criança traumatizada por abuso sexual e que implora pelo teu amor enquanto oculta-se diariamente em sub-drop.

— Deténs certezas umbráticas; algo conjecturado, pois, a trivialidade está detrás da suma maioria humana – afirmo.

— Abandone a prolixidade comigo, ela não me afeta – profere Istvan, como se apreendesse o significado de meu léxico — Aguardo por tua resposta até a noite de amanhã – conclui.

SublimeOanna SeltenComentário