Capítulo Tredecim

Cristais de whisky lacrados com ódio. Afrontava-os enquanto a lembrança do sangue nos olhos de Sublime me afeleava. “Hemolacria, provavelmente com procedência na acromatopia, mas não podemos ter certeza” – dissera-me Solie Nejye, médica de Sublime. Ilusão, pois, a seiva escorria como somatização de uma inolvidável névoa na atmosfera densa do ser de minha posse; Sublime lacrimava o sangue do oculto de seu espírito corroído pela crueldade d’outrem.

Noto-me no evitar; fuga de enfrentar a decisão precisa para efetivar minha vingança. Saberei controlar a desmesurada fúria, há tanto não emergida em minhas entranhas, no momento exato de enfrentar Ofir? O espelho ao lado esquerdo obriga-me vislumbrar meu corpo culpado. Minhas mãos se fecham e, num impulso fugaz, eu o destruo em um único golpe. Toada peculiar àquilo que se fragmenta célere. Efêmero som. Ferida em meus dedos – a culpa por tê-la deixado só é meu único martírio.

— Senhor Stephen! – Ouço Miva, ela estava assustada com a visão de um homem ébrio pelo furor quebrando algo com os próprios punhos; enquanto enfermeira, ela tinha como obrigação saber lidar com o imprevisível – o susto prova sua incapacidade. 

— Não se aproxime – ordeno. Ela detém os passos que pensara em dar. — Algo de errado com Sublime? – indago, reconheço o severo tom de minha voz.

— Não senhor. Apenas está se recusando a dormir. É preciso que ela descanse, caso contrário, não se recuperará. – Levanto-me e caminho devagar à minha mesa. Com a mesma, ou, quiçá, com o dobro da mesma fúria, golpeio a madeira – esta se abre e o ferimento que me causa dá-se ainda maior. Miva encolhe-se em si, sorrio com a sua fragilidade medíocre. — Tens alguma maldita formação acadêmica em dor psicológica humana? – vocifero. Miva pisca inúmeras vezes, encolhe-se mais, está confusa e com medo, posso sentir o temor emanar de suas vísceras; é quase tangível.

— Acalme-se, senhor Stephen – ela profere. Aproximo-me e ela recua.

— Leve Sublime até meu aposento – preceituo.

 Senhor, estás fora de si, é mais seguro que Sublime nã...

 Obedeça-me! – O som é grave e perigoso.

— Senhor Stephen, por favor, não a machuque mais...

— “Não a machuque mais”? – indago de maneira ácida.

— Senhor... ela é só uma meni...

— Miva... – A voz doce, tão completamente baixa e tão completamente servil, quebranta-nos. Nossos olhos seguem à sua direção, pois, é impossível não o fazer – a paz que emana em sua fala conforta até mesmo o mais nefário demônio. Seu olhar... azul-areado, é fleuma placidez. — Está tudo bem. A presença de Stephen me agrada. – Sublime anda vagarosamente até sua enfermeira, segura suas mãos — Está tudo bem, deixe-me ficar com ele aqui agora. – Miva fita-me, faz o mesmo com minha posse e, depois, retira-se do escritório.

Sublime ajoelha-se assim que ficamos a sós. Observo-a por longos segundos. Seus joelhos na madeira, suas mãos unidas. Cabeça baixa demonstrando respeito. Seu calor inocente faz-me sentir... sentir que ainda há, além da culpa, espírito dentro deste meu corpo humano. 

— Há três dias retornaste ao teu refúgio; desde então, o silêncio foi inescusável. Agora, contudo, a minha raiva em genuína manifestação, exige palavras. – Observo-a acatar o que lhe foi imposto: os gestos para que se sentasse, como serva, ao assento à frente. — Há três anos eu proferi-te: comigo não haverá contos de fadas. E nunca houvera, a minha falha prova tal dito, falhei como homem e como Mestre. – Silêncio — Compreenda minha alocução como dádiva, pois erro algum me leva aquém de minha supremacia sobre quaisquer seres, máxime ao ser que me pertence. 

— Mestre, eu compreendo que és Eĕr, deste modo apreendo tuas palavras – Exprime Sublime, para surpreender-me. Inegável que ela é minha porque faz jus a.

— Bom. – Aproximo-me dela, toco seus cabelos, alicio-os. — Bom que te recordes do primeiro livro que tiveste a honra de ouvir-me declamar – profiro. Eĕr, referência do livro Krisya, assim como o termo ūam e Eĕrūam.

 Lês para mim, Mestre, para trazer-me o teu transcendente conhecimento. Não posso esquecer-me de nada. – Solto-a, afasto-me.

— Um Eĕr é um humano e, por sê-lo, fracassa como tal, sonha como tal, morre como tal. Sua erudição, altivez, magnificência e soberania que o faz ser Eĕr. – Silêncio — Não vivemos a fantasia da perfeição. – Silêncio — Tu te despertaste ao mundo, almejando desvendá-lo expondo-se a ele a partir de um ofício longe de teu latíbulo e, este fato, me declinou ao taciturno fel. – Silêncio — Somente porque tua inocência veraz me entretém sexualmente. Sair de teu templo resultaria em perda de tua pureza; eis a clavem para minha extrema imersão ao quarto pecado capital, pois eu não perco prazeres. – Silêncio — Esta conjuntura fez-me deixar-te só naquela noite. 

— Não era objetivo de minhas escolhas afastar-te do prazer, Mestre. 

 Não pelo teu querer, menina, trata-se do curso natural da exposição à mundanidade razoável. Escute, agora, e fique em silêncio. Em amnésia pelo ódio desenfreado, eu não pude ensinar-te a proteger tua essência, a inocência que me apraz. Estavas inerme por razão de minha instabilidade e foste tirada de mim quando, no acúmen da fraqueza de nossa relação, tu te perdias em dubiedades. – Silêncio.

— Então não é avisual... – segreda em voz opaca.

— O que significa isso, Sublime? – investigo. Ela treme.

— Desculpe... eu... eu apenas... lembrei que tive dúvidas se, o que sinto por ti, tratava-se de avisualidade.

— É mais que manifesto que esta relação que te aliança ao teu Mestre ultrapassa as cláusulas do contrato de inicialização; se estivéssemos falando de relações por conveniência, eu já teria a desertado. E tu sabias com clareza a respeito disso antes de nossa alienação por motivo de cólera, como já mencionei. 

— Mas usei de minha memória para fortificar-me, a lembrança de nós...

— Basta! Fique em silêncio até ser-te concedido permissão para o diálogo. – Sublime soergue-se sutilmente, ajeitando-se em seu lugar — Levei-te, na vicissitude, à dúvida derradeira. E sei que duvidaras também do teu gáudio sob a dor em teu corpo e mente. Agora, contudo, não mais deverás arder na angústia da insegurança. – Sublime levanta sua mão direita, o gesto de solicitação. — Ainda não – riposto. — Para tal realização, eu a ensinarei sobre quatro alicerces: BD, DS, SM. E tu conhecerás pessoas que vivenciam estes fundamentos, poderás, com elas, dividir seus anseios e alcançar maiores níveis de autoconhecimento. – Silêncio. — A ira que me cegara, agora, jaz; e para vingar-me pelo teu sofrer não consentido, o qual eu tive culpa através da anterior nutrida volubilidade, torná-la-ei resistente. – Silêncio — Agora, fale.

 É-me aspiração instruir-me com teu saber... – Ouço-a. Seus olhos desviam-se de mim, retornam inquietos. — Eu... eu te amo... – ela profere hesitante, apenas por desconhecer minha reação posterior. Ordeno que ela se aproxime e curve-se a mim, pois, eu sou o seu deus. 

— Não pelo sentir defectivo, mas pela envoltura espiritual que nos une Eĕrūam, deste modo sensorial inefável, podes atingir o saber de nosso integral elo – afirmo. — Agora, menina, – Levanto-a e a curvo sobre a mesa danificada. — Seja útil. 

Suas sobrancelhas alçam, rarefeitas, não protelam minha ação. Sua pele encrespa com uma urgência jovial, suas mãos vibram como seu clitóris. Eu avisto os seus pormenores, são êxtase. Abro-a para mim, sua vagina é pequena, sou tomado pela lembrança de seu hímen, o qual eu rompi brutalmente. O odor que exala é perfume feminil, o sangue d’outrora que, na memória, vivifica-se, acorda minha ferocidade. Intumescido e sedento, introduzo-me dentro de sua cona com a força que me apraz. 

Ela geme; o tom é suave, compreendo como encanto. Na violência que empenho, o seu ventre em minha glande, percebo o gemido transmutando-se à lamúria chorosa; o deleite fixado. Suas costas, curvas como cetim, instigam-me a pressionar suas ancas; assim a dor esparge. Sempre me concentro no desvelo de captar todo ponto particular da sensualidade de minha peça; isso prova o quão improfícuo é a palavra-de-segurança. Dedicação basta, dedicação e prudência. Vejo Sublime cerrar intensamente suas pálpebras por cinco segundos, então, cesso o ritmo.

— A primeira lição BDSM que terás será dada neste momento. – Contínuo e lento, com o sair total de meu falo e com entrada centrada, contemplo o nascer da besta em minhas vísceras outra vez, basta o movimento. — A tua palavra-de-segurança será “Osciam”, pronuncie sempre que estiver no limite de tua servidão – A ganir, Sublime esforçava-se para dar a devida atenção ao que lhe era dito. Apenas há prazer, evito a penetração completa, seu corpo pequeno suporta pouco de minha extensão.

— Mestre... já percebes... tanto... os meus... limites... – fala arquejante. 

— Sim, cada um deles. – Sorrio, impensável; este ser femíneo, tão inócuo, diverte-me. Paro de penetrá-la, levanto-a, viro-a, pego-a e a encaixo outra vez, segurando-a com minhas mãos, suas pernas me envolvem e agora posso ver sua expressão lasciva. Seus olhos pestanejam, ingênua raridade. Os seus cabelos estão desarranjados, um gozo vê-los entre o rosto rosado, tímido e voluptuoso – atiçam a perversidade. Sublime morde levemente os seus lábios, a saliva escorre imperceptível, aprofundo-me com mais veemência.

 Fique quieta! – ordeno, ela prende a respiração por três segundos. Impossível não gemer. — Ah... nenhum som deve... sair... de tua boca... – Agora posso fodê-la mais, pelo meu absoluto agrado. Coloco-a de pé, de costas para mim, seguro seus cabelos e os tomo à minha direção. Faço-me bárbaro, a hegemonia de meu bel-prazer. Esqueço-me de Sublime. Vivencio a masturbação pela utilização de uma boneca.

— Osciam... – Escuto. A voz rúptil suplanta meu estado entorpecente. Estagno minha cinesia, abro meus olhos, saio de dentro de minha posse e a olho com esmero. Devo indagá-la a razão do uso de Osciam, contudo, por meio da taciturnidade, impresso em meu semblante a expressão de controle, torno a pergunta cognoscível. — Eu... só... eu só queria saber... o que aconteceria se eu... pronunciasse. – O temor em sua voz trêmula é incomensurável, faz-me gargalhar em razão de sua puerícia. Ela sorri, desconcertada.

SublimeOanna SeltenComentário