Capítulo Decem

Então, eu gritei. Por amor eu gritei com o resto de força que havia em meu peito, gritei no escuro, no silêncio, gritei o mais alto que pude. Meu grito se difundiu no ar e, depois dele, outro nascera, e mais outro e novamente outro. Vociferei a dor de não estar mais sobre a sombra de Stephen, de não ter revelado a ele todos os meus pensamentos, todos os meus sentimentos; eu queria poder dizer, eu queria poder confessar os conflitos, pedir ajuda... pedir ajuda para continuar nadando à superfície.

Sempre fui “quase” na vida, estive à beira dos “quases”; quase sombra, quase cega, quase capaz de ver as cores, quase apaixonada, quase beijada, quase amada, quase ferida, quase morta. Sempre prestes à, no entanto, nunca por inteira. Meus estrépitos alardes vieram, também, do ódio pela minha condição de “quase alguma coisa”, porque eu simplesmente não podia ser-me completa? Por que mesmo com Stephen eu me negava essa possibilidade, ocultando-me em minha miserável existência, sofrendo sobre a avantesma de outroras traumais? E eu não confessava meu imo, minhas nuances, minhas extremidades. Stephen não sabia quem eu realmente era. Foi no grito de meu caos interior, expurgado para fora, que eu tive consciência de que estava intolerável permanecer na inércia.

Os três homens entraram no quarto e eu não parava de gritar. Forsihar ordenou que me calasse, segurou-me com violência e feriu meu rosto. Eu não parei. Persisti nos gritos insanos de meu espírito e por mais que o homem preceituasse, por mais que me lanceasse, eu permanecia. Eu permanecia da mesma forma que Stephen permaneceu naquela noite em que me deflorou.

Forsihar retirou-me da cama e jogou-me ao chão, golpeou meu rosto com o punho e eu vomitei, sobre seus pés, sangue e resíduos de um organismo debilitado. A fraqueza de meu corpo fez-me calar e Forsihar chutou-me o busto com seus sujos sapatos enquanto me insultava de qualquer coisa elusiva.

— Espera que um grito risível como este possa salvar-te do teu pesadelo? – Forsihar passou a faca sobre meu rosto, eu apenas tossia voltada ao chão. Senti a lâmina em meus cabelos. — Nada te salvará – ele grunhiu — Exceto a tua rendição. – Olhei-o sem compreendê-lo. Suas mãos tocaram meu rosto e o vértice da arma insinuou romper minha pele. — Quero que te rendas à verdade da essência do homem; somos animais, predadores irracionais – ele proferiu ainda com a arma sobre mim, cada vez mais próxima do corte. — Sadismo é uma palavra agradável para definir a insanidade cruel do homem e, mulheres como tu, são instrumentos. Os teus sonhos, as tuas idealizações são alimento à nossa psicose. – O homem interrompeu a fala. Três minutos de silêncio até segurar meus cabelos e cortá-los em um único ato certeiro. Gritei com a voz débil e inferior; meu medo, meu sofrimento e meu ódio, já tão desprotegidos, eram cada vez mais grotescos. Lutar parecia impossível.

Meus cabelos caíram sobre o chão ao meu redor e Forsihar gargalhou.

— Stephen e eu somos iguais. – Ele levantou-se, empurrou-me, meu corpo sobre chão e eu o sinto pisar sobre minha face virada. — Diga: Stephen e Forsihar são iguais – ordenou. Silenciei. — Diga que somos iguais! – ele gritou.

— Poupe... tuas míseras... ordens... – eu proferi com extremo estorvo enquanto o sentia esmagar-me com mais brutalidade. — Stephen não... se comprara... a tua... turpitude... – Forsihar me alçou com ira cavalar e jogou-me contra uma das colunas de madeira do local, senti a dor nascer impetuosa pelos meus ossos. No paladar, o sangue.

— Preferes a ilusão, como todas as mulheres preferem. – Uma tontura se apoderou de mim, já não conseguia ver os homens com a mesma nitidez. Senti um líquido quente tocar meu abdômen, vi com relutância o que acontecia ao meu redor enquanto um dos homens livrava-me das correntes. O odor foi o que me fez compreender o instante, aquele homem biltre e miserável estava urinando em mim. Ao som de risadas canalhas, senti-me afogar; o chão tornou-se escorregadio, meu corpo frágil não conseguiu manter-se ereto. Caí sobre o chão, sobre a urina; e naquele ínterim, os três homens faziam a mesma coisa.

— Diga-me, escrava, como te sentes quando Stephen embriaga-se e usa-te como uma Boneca Liviehr? – indagou após cessar o ato repugnante. Eu o fitei para afrontá-lo. Mais uma vez estava claro que Forsihar conhecia Stephen, e o conhecia muito bem. — Deixe-me adivinhar... – Ele caminhou de um lado ao outro, como se pensasse. — Tu te entristeces, torna-te chorosa, no entanto, acreditando no amor diferencial de seu mestre, tu te rendes, sem vontade e com pesar, aos atos cruéis e vis que ele comete.

Dizem: “amar é avisual”, isto, pois, trata-se de uma modificação no sentido da visão que leva a uma negação da realidade que a visão enxerga. É uma negação da própria visão. Não se trata de uma cegueira plena, é algo bem peculiar. Meu amor era avisual? Forsihar havia alcançado o seu objetivo, colocou-me em uma situação pungente de dúvida. Porque, não havia como negar, ele adivinhou corretamente; em muitos momentos me prostrei a Stephen somente por crer em seu amor acima de seu sadismo. E sofria outras vezes ao deparar-me com sua crueldade fria, lembrando-me da nossa negociação: “sem envolvimento emocional”. Meu amor era avisual.

Porém havia em mim uma vontade de me prostrar a Stephen e não sei ao certo se a culpa era do amor. Amar, o que é amar afinal? Amar é uma vontade absurda de ajoelhar-me frente a Stephen e dizer-lhe que o sirvo e o servirei para sempre? Amar trata-se de uma necessidade transcendente de me submeter aos desejos dele? Soa confuso, pois, se amar é um anseio pela presença, pelo carinho, pelo cuidado de alguém sobre si mesmo, pela companhia agradável, pelo sorriso ou, simplesmente, pela intimidade; como poderia ser o amor, também, dependência, subordinação e servilismo?

Eu estava inexata, minha mente estava indefinida, eu não conseguia deixar evidente o significado do amor. Alguém um dia foi capaz desta proeza?

— Submissão. Uma palavra romantizada pelas mulheres – ele afirmou como se soubesse de meus pensamentos — Submissão não é amor, é condição da avisualidade do amor. Amar em si é só um nome, também romantizado, que se refere à intimidade por conveniência. – Forsihar abaixou-se e segurou meu queixo. — Tu trazes vantagens a Stephen, vantagens sexuais. Esta é a única razão para ele ter estado ao teu lado por três anos.

Olho para cima; está anoitecendo. Poente a luz esvai com sincronia à intensidade da brisa. Envolvo-me em solidão até o instante em que sinto as mãos de Stephen sobre mim – um abraço quente. Volto meus olhos a ele, vejo o reluzir obscuro do entardecer em seu rosto. Ele segura minha mão, estende meus dedos e sobre minha palma coloca um pequeno objeto. Olho-o.

— Sirehnnia – ele profere, eu o encaro ainda com dúvida. — A lenda das lágrimas da matéria escura transformadas em quartzos negros como este – ele explica. Olho novamente para a pequena pedra, aparentemente híbrida. Suas particularizes encantam a visão, cada olhar direcionado a ela é um novo desvendar. Atentamente, posso percebê-la modificar a tonalidade, olho para Stephen com surpresa e encantamento, ele sorri. — O que vês, os tons e o brilho, não existem; trata-se do direcionamento de teu olhar sobre o quartzo – ele conta.

— É verossímil? – indago como uma criança seduzida, Stephen sorri outra vez, impressionantemente sempre sorria com seu espírito dominante; isso o deixava ser sério e dissoluto até mesmo na suavidade de instantes como aquele.

—Talvez – ele responde. Seu corpo em postura soberana.

— Um dia, Mestre, tu poderias contar-me toda a lenda? – perguntei enquanto tocava o quartzo para sentir sua textura.

— Esta noite – Stephen acaricia meu rosto, eu o fito com idolatria — Saberás a lenda de Sirehnnia. – Não consigo travar meu sorriso que sai tão naturalmente, sinto-me feliz, sinto-me necessitada em agradecê-lo pela benevolência e pelo conhecimento que me proporcionará. Então, ajoelho-me a sua frente, curvo-me. Sei que não estamos sós, sei que posso ser punida por isso, no entanto, era mais que crucial gratificá-lo daquela maneira.

— Pela magnanimidade de meu Mestre em conceder-me o conhecimento, gratulo a ti com amor e submissão. – Permaneço imóvel, estendida sobre seus pés. Stephen, então, abaixa-se e faz-me olhá-lo.

— Recolho tua gratidão com fascínio ao teu gesto servil – profere. A posteriori um silêncio nos submerge. Stephen ainda mira meus olhos com firmeza, sei que seu sadismo está aflorando, a íris confessa, sinto-me atraída e a atração me estremece. Descerro os lábios e fecho minhas pálpebras; arfo pela volição sexual que me assaltou.

— Peça! – ele ordena. — Peça o que teu corpo está suplicando.

— Beije-me, Mestre, rogo-te – sussurro de olhos fechados. Regra de número vinte e dois: não deve haver, em público, demonstrações de afeto, com ou sem conotação sexual, entre Mestre e submissa.

Stephen beijou-me voraz, um beijo que durou muito tempo, um beijo perene. Sei que inúmeras pessoas nos olharam com repúdio, principalmente pela visível e óbvia diferença de idade entre nós. Sei, pois, ao voltarmos de nossa caminhada, os olhares vinham como lanças. Não havia um indivíduo naquela praia que não fitasse Stephen com aversão. Ele não parecia incomodar-se, ao contrário, segurou minha mão esquerda e caminhou devagar, em silêncio, até o estacionamento.

Se fosse somente pelo sexo, se fosse apenas por conveniência, por que quebrar uma regra – ditada em um contrato – apenas por um pedido romântico de uma submissa? Por que perder três horas contando uma história e depois adormecer, tranquilamente, sem um toque sexual sequer? Que Stephen era sádico, este era um fato; muitas vezes me feria acima do que eu suportava. Nunca, todavia, tive de ir ao hospital por sua causa; nunca me vi verdadeiramente entre a vida e a morte em suas mãos, tudo o que eu sentia era plenamente simbólico, sentimental e emocional; nas mãos de meu Mestre eu nunca corri riscos reais. Nem mesmo quando ele estava ébrio, nem mesmo quando estava irritado; podia ordenar-me subir para meu quarto, como naquele dia em que me perdi em pensamentos, no entanto, sei que na madrugada ele vai cuidar das marcas em minha pele; eu sei que nas noites mais difíceis ele estará disposto a qualquer coisa por mim, assim como esteve nestes três anos.

— Podes conhecer Stephen, mas tu não sabes quem ele é – proferi o restante de minha força — Podes matar-me, torturar-me e envenenar-me, eu, simplesmente, continuarei amando Stephen. – Forsihar estava imóvel — Certamente, aqui, o único psicótico e o único que se relaciona por conveniência és tu.

— Eu... vou... te matar... e... depois... matarei Stephen – ele proferiu com uma eutimia aterrorizante. — Aliás... matarei Stephen.... mas a deixarei viva para... sofrer. O teu pesadelo indestrutível continuará – ele disse, referindo-se a si mesmo como o meu pesadelo, mais uma vez.

— Indestrutível... – sussurrei com uma tênue graça no tom de voz, pois, Forsihar estava se tornando, para mim, cada vez mais patético — Tu és fraco... e se autodestrói... assim como todos os... homens... cegos pela própria... cólera – proferi devagar. Forsihar não suportou ser chamado de fraco, não suportou ser vencido por uma mulher. Então, enfurecido segurou minha cabeça e a colidiu conta a madeira; imediatamente eu perdi todos os sentidos em um desmaio absoluto.