Capítulo Duo

Não vi o momento em que Stephen passou a embriagar-se de uísque, porventura fora quando me agredia, impedindo-me de assimilar a realidade ao redor. Agora ele sentara-se no sofá e eu ouvia um gole por minuto. Minha pele deflagrada dificultava sutilmente a minha percepção, confusões mentais me atormentavam. Em centésimos de tempo, a fragrância da bebida inunda meu nariz e, por ela, julgo ser Byron Whisky, o favorito de meu Mestre. Mas, havendo uma desorganização sensorial, ainda que ínfima, eu poderia estar errada em meu palpite. Poderia ser Lavenh Whisky ou algum outro que eu não conheço. Stephen sempre adquire novas bebidas e, quando ele as toma, suas reações posteriores são imprevisíveis.

Ele levanta-se com o copo em mãos, pois não o escuto colocá-lo no pequeno criado mudo ao lado. Costumo focar-me em detalhes como estes, não apenas para tentar prever o que virá, mas para desviar a minha atenção da pele que arde com furor, das feridas e do objeto que incomoda levemente o sulco de minhas nádegas. Meu Mestre havia encaixado um artefato em meu ânus cuja ponta era como um diamante e a outra ponta como uma lança farta e curta. Era uma joia anal. Raspava dolorosamente quando não lubrificada.

Agora Stephen está frente a mim e meus olhos contemplam o que minha intuição deduzira. Quando ele abre o zíper de sua calça social, vejo seu pênis plenitúrgido apontado em minha direção. Grande o suficiente para me sufocar, e Stephen faz questão de me sufocar. Meus lábios tocam sua glande, sinto sua mão em minha cabeça a empurrar levemente enquanto sua cintura faz o mesmo. 

A sensação que tenho quando seu pênis penetra minha garganta, é uma sensação de amargura, como se eu soubesse que aquela violação será difícil suportar e eu terei que suportar. Ele penetra com força, constantemente, faz-me engoli-lo por completo e ficar sentindo-o pulsar na minha garganta por cerca de dez segundos infinitos. Soam perpétuos porque ferem. Regurgito em demasia. Não é algo que o estorva. Ele retira seu membro de minha boca e bate em meu rosto, um pouco de uísque cai no carpete.

— Imprestável! – Ele diz-me, bate novamente em meu rosto. Stephen costuma utilizar da violência emocional quando está realmente com ira de alguma coisa. Ele segura meu queixo com força e cospe seu uísque em meu rosto colocando, em seguida, seu membro em minha boca novamente. E não há rédeas para a sua ação, meus olhos são obrigados a chorar em defesa do organismo, ele bate outra vez em meu rosto e se abaixa para me livrar das correntes. Retira-me e joga-me ao chão, me pega pelos cabelos e, com intensidade, golpeia mais uma vez meu rosto, ele faz isso com frequência, cada vez mais, não hesita.

A linha... a tênue linha... começava a se romper. Junto dela, um profundo desânimo me cercava devagar, visões instáveis se faziam em minha mente como fantasias oníricas terríficas. Eu verdadeiramente gosto do sadismo de Stephen? Ele retira a joia de minha fenda, observa o local e nele encaixa seu pênis intumescido. Ele faz meu rosto tocar e raspar no carpete áspero e começa e penetrar-me com ferocidade desmensurada. Eu era o seu objeto, era claro naquele instante, para mim, como nunca fora. Um objeto, um títere. E talvez eu tenha sempre sido um.

Há três anos, eu o conheci. Stephen mantinha aquela barba em seu rosto, completando a curvatura de seu maxilar, recheando de forma uniforme, embora não fosse uma barda densa. Ele mantinha, também, uma postura sempre elevada, ares de superioridade e erudição. Seus cabelos curtos e negros eram finos, tão fáceis de afagar. Seu olhar era o que mais me instigava, era perverso e frio. 

Eu tinha dezessete anos, eu estava sentada na área livre da escola, era meu preferido ambiente naquele lugar tedioso. Dali eu podia observar o portão de saída, a porta de entrada da sala de reunião dos docentes e as escadas que davam às quadras de vôlei e basquete. Eu estava sozinha. Meredith, a minha única amiga, adoecera e não pôde ir à aula naquele dia. Talvez por isso eu o tenha visto sair da sala acompanhado pela diretora. Meus olhos fixaram-se nele, meu coração disparou como nunca, fiquei imóvel. Poucos segundos depois, fui tomada por um impulso que me fez caminhar lentamente em direção ao homem, escondi-me atrás da parede que me impedia de ser vista, mas favorecia-me a escutar a conversa dos dois. Eu precisava ouvi-lo falar, eu precisava de quaisquer resquícios da virilidade daquele homem. Eu, estranhamente, precisava.

A diretora falava, sua voz era idêntica à risada da mais insuportável hiena, eu apertava meus dedos em minhas mãos, eu precisava ver o homem outra vez. Então, espiei. Espiei tanto que hipnotizei. Ele estava taciturno, incrivelmente atraente. A diretora o deixou ali, disse que resolveria uma questão e já dava um parecer a respeito do que conversavam. Ele ficou sozinho, e eu o continuei observando. Quando não havia mais sinal da diretora, os olhos de Stephen viraram em minha direção, tão rapidamente que eu me sufoquei. No susto, escondi-me atrás da parede outra vez. 

Ofegante, temerosa, ouvi os passos lentos de Stephen vindo em minha direção. Seu sapato tocava no piso, fazia música pavorosa e aliciante. Comecei a suar frio até a sua presença alta e vigorosa se manifestar em minha frente. Olhei para seu rosto, excitei-me. Não uma excitação que curva o útero e desce vibrando a cona, gerando desejo desmedido. Não. Era uma excitação que nascia na pele e adentrava os poros, acendendo cargas elétricas por todo o organismo até chegar à cona, até chegar à ponta interna do clitóris. Enlevação extrema e ingênua.

— Diga-me teu nome, menina – ele ordenou com a voz tenra. Era tanto medo que eu trepidava. Ele estava tão perto... eu estava em uma condição ímpar de autêntica lascívia.

— Sublime. – respondi com um sussurro falho que indicou claramente o meu pânico e minha veneração. Stephen levantou sua mão esquerda e a direcionou ao meu rosto, tentei afastar-me, mesmo estando encostada na parede. Ele me toca, na maçã do rosto e acaricia.

— Não temas a mim, Sub. Não ainda. – ele diz e afasta sua gélida mão. Percebo que estou com a respiração travada no pulmão, impedindo a circulação respiratória. Então eu expiro intensamente, junto ao expirar, desliza de minha vagina um denso fluido. A sensação sui generis, tão excepcional e tão aprazível, me penetra o âmago. Eu tive medo de Stephen, e almejei ser tocada, mais, muito mais, eu queria deitar-me com ele e ser amada por ele enquanto o temia. Enquanto o temia. Eu nunca me esquecerei disso.

Incolor e brilhante. Sentei-me ao chão, levantei minha saia, abaixei minha calcinha e a fitei. Estava embebida, submersa em luxúria infantil. Eu ainda era muito infantil, tanto que fugi de Stephen após ouvi-lo falar e após senti-lo me tocar. Corri quando a primeira gota deslizou pela minha perna e os olhos de Stephen rapidamente perceberam. Ele viu claramente que eu estava em êxtase por ele. Então, evadi depressa.

O eflúvio de minha roupa íntima era agradável. Retirei-a e segurei-a em minhas mãos. Apertei conta o peito e lembrei-me do toque de Stephen. Foi por isso que eu voltei, foi para encontrá-lo. E eu planejei tudo, peguei em uma das salas um estojo de gizes, joguei-os fora e segui em direção à sala de reunião. Stephen ainda estava só, no mesmo lugar. Antes que eu pudesse fazê-lo me perceber, cerca de cinco passos de distância, Esther pegou pelo meu braço e perfurou minhas lentes com seu olhar de falcão. Fez-me parar, assustada.

— O intervalo já acabou – ela disse ríspida. Seu cabelo simetricamente cortado, alinhado e arrumado, sempre me dava arrepios, assim como as curvas sutis de sua pele recém-puxada por algum cirurgião plástico. Era amedrontador, nocivamente amedrontador. Toda condição etérea de outrora se esvaiu e eu fiquei perturbada. — O que estás esperando, Sublime Le Blanc? – Questionou Esther, seu tom de voz se elevou. Os seus malditos olhos semicerraram.

— A-a-acab-ou-o-giz – eu gaguejei e menti. Esther soltou meu braço e arrumou sua postura. Eu sabia que ela estava me chamando de Ninfeta em sutis sussurros enquanto reclamava para o fantasma de si mesma o quanto odiava o seu trabalho. 

— Vá logo! – ela gritou e apontou para a sala de reunião. Virei-me e olhei para Stephen. Ele não me olhava. Esther me seguiu, mas não adentrou a sala comigo. Então, eu a ouvi dizer: “Desculpe, Senhor Knill, essas crianças de hoje em dia não sabem obedecer às autoridades”. Em resposta, Stephen lhe deu completo e integral silêncio.