Capítulo Duodeviginti

Soen tem me visitado em sonhos que, longos e profundos, me tomam em aflição e tormenta. Não apenas ela, mas também Saphihr; ambas, de modo inominável, proferem a frase que li diversas vezes em Unus, escrito por Sublime há três dias. Eu verdadeiramente gosto do sadismo de Stephen?  –  eis a frase. Soen, imersa em seiva agônica chora em meus braços e brada a indagação enquanto Saphihr, afastando-se, questiona o mesmo. Um sonho contínuo e ininterrupto; e frente ao espelho eu vejo meu corpo vil, e sem que possa me oprimir, trago à tona a maldita pergunta ao meu próprio eu.

Na tarde anterior levei Sublime para sua primeira cena a qual ela não participaria, mas assistiria e seria ensinada. Ela estava mais tênue que antes, decerto o peso que carrega foi, em partes, doado à Escrita; e, agora, também a mim, o leitor. A cena estava particularmente esplêndida, feita por Annelia e Dona Liedra. Iniciaram com Kinbaku cuja arte, quando com maestria realizada, é uma ascendência erótica inigualável. Com suspensão e disciplina rigorosa, facilmente encantavam os olhos de minha posse enquanto aos seus ouvidos eu sussurrava cada detalhe que lhe cabia saber. Contudo, em constância, as imagens oníricas retornavam à minha psique de modo impetuoso, para turvar, para amedrontar minhas entranhas e vísceras.

—  Sois incríveis! Apaixonadas e um vínculo lindo de se ver!  –  disse Sublime após a cena. Liedra fixou seus olhos dourados em minha posse, com estranheza e desdém a mirou; Annelia gargalhou em baixa sonância, porventura a si mesma, enquanto mantinha seus olhos voltados ao chão.

Nunca te direciones diretamente a mim, menina, apenas com a permissão de teu Dono.  –  Ouço de Liedra. Sublime olha-me meândrica. — Não te preocupes, acostumarás com isso muito brevemente. Certas pessoas que se dizem "do meio" são as únicas incapazes de compreender a plenitude e importância da Liturgia. Essas pessoas... – Liedra expressa fastio em sua face — ...só querem brincar de pseudos subs e pseudos Doms. Diga a ela, peça, o que uma Submissa De Alma deve ter em mente em todas as circunstâncias.

Servir e entregar-se ao seu Dono ou sua Dona absolutamente, respeitando, ambos, o SSC. Estar ciente dos deveres e direitos, pois que uma relação SM ou DS não se trata de casamento ou namoro tal como os novatos e curiosos acham que é – profere Annelia, ainda com a face voltada aos seus pés. Sublime olha-me como quem pede para respondê-las.

Diga – ordeno-a. Ela me olha tímida e, em suave tom, inicia sua fala vestal.

Não compreendo, são muitas regras, não basta que possamos viver a intensidade e o…  –  ela hesita — ...o amor?  –  diz, temerosa. Liedra e sua posse riem.

Menina, não há amor no BDSM, isso é romântico, é baunilha. Obviamente que temos emoções, sentimentos, afetos, mas tudo é controlado. Annelia sabe muito bem o lugar dela, isto é, aos meus pés; se a amo? Não usaria este termo, ela é minha escrava e isso basta. Abandone o romantismo se quiser viver o Verdadeiro BDSM!  – Sublime se cala, envolve seus braços em meu braço direito e semiesconde o corpo atrás do meu; ela se retrai e eu a compreendo.

— Basta de teus ensinamentos Liedra, agradeço a tua dedicação. Sublime é uma rara mulher e conjecturas mundanas não alcançam a excelsa essência dela.  –  Despeço-me e retiro-me da sala, caminho com Sublime em direção ao jardim.

“Eu, acometida por um absurdo temor, olho-o e percebo que há uma linha tênue que interliga os meus limites às suas vontades. Esta linha poderia… se romper?”

Posso indagar-te algo, Mestre?  – ela pede, interrompe minha lembrança.

Fale.

Não posso amar-te?

Deves amar-me se sentes o amor, Sublime.  – Volto-me a ela.  — Escute, nenhuma linha se romperá; conheço teus limites, sei de tua força. É por isso que estás aqui, para que conheças o mundo que não conheceste ao se submeter tão cedo ao meu domínio.  – Ela ouve atentamente — Amanhã conhecerás Markus Nothr e aprenderás sobre a história das práticas BDSM, antes disso, tu terás de guardar em tua memória um ensinamento meu.

Sim, Mestre.

— Jamais permita que ditem o que deves pensar, sentir ou fazer. Tome a responsabilidade da tua vida a ti mesma. – Faço silêncio, respiro.  — Isso inclui minhas ordens, Sublime, siga-as apenas se pulsar em teu cerne o verossímil anelo de submeter-se a mim. E mais, lembres-te que estais aqui para aprender e não para ser moldada. Ouça, leia, compreenda, no entanto, não abandone a autenticidade, os princípios, os sentidos que significam tua vida.

Está bem, Mestre, ouço-te e protejo teus ensinamentos no mais profundo de mim…  – ela hesita – Desde tudo… tudo o que ocorrera… mudamo-nos… muito mais Tu, meu Mestre, toda tua álgida sombra já não traz meu eterno inverno.  –  Toco seu rosto, em reminiscência descansa suas palavras. — De maneira oposta, toda tua ártica essência aquece meu imo, me traz confiança...

A sombra de meus erros são espectros de abominação, imortal fel. Se minha cruel, álgida, insípida e insossa alma se aqueceu em níveis graves, é, pois, que sobre mim emergiu a sombra d’uma massa de gelo negro e cristalino; nele vislumbro o horror de minha vulnerabilidade espelhada em infindáveis fragas. Inda que, portanto, debaixo desta perpétua noite sacra que eutímica presencia meu extermínio, sou capaz de convergir meu ser ao ser de Sublime, de modo a continuar no domínio.

Há um brilho cinéreo em novo tom nos teus olhos, embora cintile, embora encalme, é pleno insulamento lôbrego – ela sussurra.

O Nada putrefará minhas entranhas – confesso. Paramos de caminhar; envolvidos por arbustos de Csamien, flor de eflúvio suave, tal como Sublime. Senti que estávamos no sepulcro de nós; ah… e como era chamejante e angelical cada íris de Sublime, elas contavam o infinito e narravam meu óbito.

Detrás de todos os sonhos, detrás de todas as cores e todos os prazeres, há este Nada... – Ela abaixa sua face e encosta-a em meu peito. — Encontrei um algo em Ti, Mestre, algo além do Nada; um tênue algo que trouxera sentido ao cinza peremptório. Temo, todavia, qu’este algo jaza e qu’eu descubra, tal como todos descobriram, a mórbida incerteza do Existir. — Sublime afasta-se debaixo, faz seus joelhos beijarem a grama úmida e acaricia as pétalas d’uma Csamien. — São as mais belas, dizem, mesmo com veneno em seus caules. Seiva de morte, a Csallina. – Ela me olha — Como é o sabor de teu sangue, Stephen? – surpreendo-me com a indagação. Abaixo-me junto dela, fito seu semblante inocente. — Como é o sabor da Csallina? – pergunta em seguida, desviando suas írises das minhas. Lágrimas emergem, curvam-na o rosto, inundam-na. — Não quero mais aprender sobr’este universo... são todos nadificantes e incertos... nenhuma razão n’este mundo qual vivo é digna de fazer-me almejar existir. Apenas tu... tu és o único sentido para eu estar aqui... vivendo, embora não viva.

Lembra-se que questionarás a história de Sirehnnias?

Sim... – ela responde. Do bolso de minha camisa, retiro um pingente em uma corrente fina; ambos reluziam idênticos. Estendo o item para que possa ser inteiramente visualizado por Sublime. É noite, há pouca luz ao redor, no entanto, o cintilar faz sua própria luz, não tanto quando a felicidade infantil que brota no corpo de Sublime.

Isto é...

Sirehnnia, especificamente a Vês-Obscura, tal como sabes. A corrente é feita da pedra lapidada e, no pequeno frasco, há um centímetro de pedra bruta. – Envolvo-a no pescoço de minha posse que está em êxtase.

É... não sei o que dizer... é linda... é como... é incrível!

No entanto, Sublime, não será esta pedra que te fará ter certeza da história detrás dela. – Sublime me olha enquanto segura sutilmente o frasco em seu pescoço. — Existem três tipos de Sirehnnia, tu sabes, precisas dos outros dois tipos para que possas encontrar Cihanno. Faça disso o teu sentido, se não há mais vida e se há apenas o Nada e a Incerteza. – Seguro seus cabelos para fixar em veemência meus olhos nos seus. — Posso ser o miserável que não te protegeu, que não cumpriu com Maestria seu papel de Dominador, Provedor e Dono, no entanto, menina, eu não minto, eu nunca menti. – Solto seus cabelos, levanto-me e a ordeno que se levante. — Estou em busca de Sirehnnia Amena para que tu possas possuir tua própria insígnia de fulgor, égide às paene umbras. Com ela poderás encontrar Sirehnnia Escarlate.

Mas, Mestre, Amena só pode ser encontrada, segundo a lenda, em oceano de lava em Cihanno... – Sorrio, pois, ela se encanta e, quando se encanta, não se atrai por Csallina.

Existe outro meio, lembras? – Sublime pondera por alguns silêncios.

Os seis símbolos de Clihviem... – diz.

Sim. Os seis símbolos. – Somos tomados por mais silêncios, ouço-a respirar. — Não há sabor em Csallina, Sublime, enquanto houver algum sabor no teu Ser; enquanto houver encanto em teu semblante... Não se destrua como todos os outros, menina, deixe que da seiva da morte sorverão os tolos e os medíocres.

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SublimeOanna SeltenComentário