Capítulo Novem

Cerrei meus olhos e mergulhei no mar, estava glacial; minha pele contrastava com a plúmbea primavera. Abismei-me nas águas, abri as pálpebras, vi a perfeição da escuridão de suas profundezas. A sensação de estar embaixo d’água era mais que um deleite; eu sentia-me aprisionada no som único do oceano, ele me chamava para si e eu, bem devagar, afundava em direção ao seu núcleo recôndito. Em dado instante, já não havia mais movimentos corporais a realizar; tudo estava espesso e as águas tomavam formas ameaçadoras através das algas que me abarcavam com a mesma lentidão qual eu anegava.

De repente, todo o exímio fascínio e todo o êxtase envolvimento armístico com aquele lugar, transformou-se em aguda cacofonia levando-me a perceber a ausência de oxigênio. Olhei rapidamente para a superfície longínqua e me exasperei. As algas me prendiam enquanto eu tentava intensamente nadar de volta. As silhuetas do dia; a luz da estrela insistia a tentativa, clamava o ar em recompensa. Meus lábios entreabriram, sei que vociferei ajuda à natureza do oceano, no entanto, nenhuma natureza ajuda a humanidade; não há clemência ao vírus da destruição.

Cerrei meus olhos novamente enquanto contorcia-me; a energia ia, ao poucos, acabando. E quando olhei para meus pés, vi a escuridão outra vez e o que vi nela foi capaz de me arrebatar à delusão somatoforme. Em minha pele nascera grandes manchas, nódoas que doíam com uma proporção inimaginável; o oceano lutava contra mim, e batia-me, feria-me, destruía-me antes de privar-me totalmente do viver. Eu não podia contra ele, eu nunca pude contra a voragem.

A recordação deste momento fragoso alcançou-me e gerou-me uma pulsante dor de cabeça. Toquei meu corpo, estava álgido e úmido. Os homens já haviam me deixado há tempos no amplo breu mais uma vez e eu nada podia fazer além de pensar e dormir. Fora duas únicas vezes que me permiti lembrar-me do afogamento que sofri na puberdade, a primeira foi após despertar, no hospital, viva e sem laivo algum no corpo. A segunda vez, agora, encarcerada e sozinha, veio-me na memória por alguma razão; porventura pela escuridão ou pela vulnerabilidade que me sufocava, tão idêntica a que senti debaixo da água. Impossível nadar à superfície quando esta está tão longe dos olhos que sequer pode ser vista. .

Conheci Stephen quatro anos e onze meses depois do acidente que demudou meu cerne, eu estava cada vez mais introspectiva e mais oculta em minha própria mente, no entanto, ao conhecê-lo, uma chama acendeu-se em mim, recuperando o calor do meu corpo, permitindo-me olhar outra vez para as margens.

“Stephen...” – sussurrei ao isolamento enquanto me lembrava. Antes de Stephen eu era um olhar fixo em um ponto vazio na multidão, e somente dei-me conta da extensão da paixão sustida por mim, quando me prostrei ao sadismo dele pela primeira vez.

Um toque na porta, olhares que se perdem entre si. Suspirei inquieta, ansiosa, com extremo desejo enquanto um sol crescia em minhas entranhas e fazia-me sentir cada vez mais cobiça. Stephen atendeu ao meu pedido e no dia em que eu estava sozinha no apartamento, ele foi ao meu encontro. Era o meu aniversário de dezoito anos; a preferência à solitude era já uma verdade, por esta razão ninguém me procurava ou me incomodava nestes dias comemorativos. Eu celebrava sozinha, a solidão colonizava-se, a solidão era o oceano que me afogava e eu somente notei esse alagamento latente no minuto em que Stephen mostrou-me o amanhecer jazido em mim. A luz revivificada tocou as águas da minha dor e permitiu-me retornar à superfície branda que há tempos não via.

Foi como uma arma raiada na minha boca, quiçá como um tiro adentrando-me o cérebro; o exato instante em que Stephen pegou-me pelo pescoço e, então, olhei teus olhos lívidos impudicos. Amedrontei-me com a mesma impetuosidade em que me excitei. “Quero que te dispa, eu a observarei” – ele proferiu. Soltou-me e caminhou até o sofá, sentando-se em seguida. À sua frente parei; tímida o obedeci, lentamente despi-me sem ousar olhá-lo nos olhos. Ele estava incrível, como sempre, atraente e envolvente. Em minha alma o indizível se propagava, a luz tenra me devorava e eu me entregava completamente.

— Aproxime-se – ordenou. Caminhei nua até o sofá. Senti suas mãos em minha pele, fechei meus olhos. Stephen gemeu, levou seus lábios ao meu abdômen. — Ferir-te é indubitável. – senti-me fremir, eu estava eriçada. Stephen fez-me sentar em seu colo, pela primeira vez senti a extensão dura de seu sexo. Ele afagava-me, suas mãos me contornavam, delineavam e traçavam-me por inteira. — Há uma sede sádica em mim – ele disse com dois de seus dedos em minha boca e dois em meu clitóris, o prazer atravessava-me. — Posso ser violento contigo, minha Sub. A priori, porém, terás uma escolha. – Gemi pelo toque ardente, eu precisava de Stephen, eu precisava senti-lo mais. — Se te revelares a mim com a pureza da tua inocência; então estarás implorando minha crueldade... – Agora Stephen tocava meus seios, lentamente, na ponta sensível de cada um deles, o êxtase não evadia e eu roçava em sua região pélvica para sentir seu falo plenitúrgido. — Se, todavia, te revelares a mim com lascívia; então, não serei desumano.

Uma escolha. Desde o início, Stephen dera-me escolhas. Eu poderia deixar óbvia toda a minha volúpia, virar-me a ele e obsecrar para experimentá-lo, abocanhar seu pênis, saboreá-lo e, sobre ele, encaixar-me deliciosamente; no entanto, diante o que Stephen me causava, eu escolhi a primeira opção; eu queria sentir a crueldade dele, eu precisava apreendê-lo por completo em seu sadismo que era sentido na ponta de seus dedos; exalado pelos poros de sua pele. Eu aspirava em encontrar a essência plena de Stephen, e se ela era puramente bárbara, eu estava preparada. Inconscientemente eu tentava voltar ao fundo do oceano que quase me retirou a vida.

— Tuas mãos... – eu disse, tocando-as — Me assustam – revelei. — Teu olhar... – Olhei para Stephen, ele estava, com sua mais brutal força, prendendo o animal atroz e malvado dentro de si mesmo, isso era um verídico axioma — Teu olhar me desespera; temo pela minha vida, mas... – olhei para baixo, para minhas mãos, vi minha vida num estalo de memória. Eu apenas precisava sentir, eu necessitava sentir mais e mais do desconhecido sabor da personalidade daquele homem. — Mas eu preciso, não sei como ou por que... – uma lágrima nasceu em minha íris, era a sombra da minha singularidade abrindo-se para a sombra da singularidade de Stephen.

Ele segurou meu pescoço antes de minhas palavras renascerem. Olhamo-nos. — Tu não gritarás, não gemerás, apenas chorarás e enquanto eu estiver submetendo-te a mim, obedecerás. – Balancei a minha cabeça, devagar, para demonstrar entendimento. — Palavras proferidas devem ser objetivas e claras; jamais desperdice vocábulo. – Stephen levantou-me e levou-me até a parede escura da sala, a mais aberta e vazia do cômodo. Estendeu meus braços e pernas, deixou meu rosto contra a parede. Ouvi-o retirar o cinto de sua calça num único movimento, oscilei. Tão logo ao vibrar, Stephen feriu em minhas nádegas consecutivamente. Ininterruptamente. Várias vezes. Sequer pensar me foi possível, gritei quando houve fôlego dentro da presteza de seus movimentos. A força dele era sobeja.

— Quieta! – ordenou. Obedeci, por temor. E ele não parava de me bater, um golpe de cinto, um atrás do outro, no mesmo espaço corporal; minhas lágrimas brotaram como tempestade de verão. E ele encostava sua mão direita na parede, ao lado de meu rosto, enquanto usava de toda a sua força com a mão esquerda para a violência de seu ato.

Quando finalmente cessou, segurou-me pelo pescoço e ajoelhou-me no chão, desta vez de frente a ele. — Curve-se à minha austeridade! – preceituou. Curvei-me aos seus pés. E novamente o cinto foi usado para o seu prazer sádico. Em minhas costas, fui lacerada como nunca imaginei que um dia seria. Quanto à minha sensação, era o extremo da dor, do horror, do pavor e da paixão. Surrada como uma escrava; mas, de alguma forma, satisfeita por estar naquela situação; a prova disso era a lubrificação das retinas e da cona simultaneamente.

O couro sintético se envolveu em meu pescoço e eu fui levada até a bancada da cozinha, o espaço era aberto e arejado, ele curvou-me sobre o mármore, tornei-me indefesa, ainda mais; entre lamúrias e ganidos, eu sentia-me flébil, meu coração estava acelerado, todavia, fraco. Os dedos de Stephen escorregaram com facilidade para dentro de mim, mas esquivei-me célere – minha virgindade era o testemunho de minha condição reclusa e imaginei que Stephen questionar-me-ia quando soubesse. Questões não me apeteciam, o fundamental tratava-se das sensações; as palavras precisavam de crucificação fulcral.

Quando cessei os soluços, senti-o tocar a extensão de minha coluna, seu toque era áspero e afável, desejei pousar meu rosto em sua palma, desejei, irrefletidamente, passar minha língua sobre ela.

— Sei que há dor em ti e esta não advém de meu sadismo – ele pronunciou com a voz grave. Olhei-o outra vez, ele compreendia meu ser de uma maneira insólita. Rasguei-me ao choro compulsivo, era inconcebível a imprescindibilidade de ser-me perante Stephen, mostrar-lhe tudo o que eu sentia, desejava e pensava.

— Ouça-me, Sublime – ele ordenou e eu ouvi o zíper de sua calça abrir-se; e eu ouvi sua gravata desfazer-se e envolver-se sobre meus pulsos — Romperei teu hímen agressivamente – ele gemeu no fim de sua frase, senti sua glande na entrada de minha cona; ele já sabia, desde sempre, sobre a minha virgindade, como pude acreditar que ele não perceberia? — Lancinar é uma regra, por isso, diga-me – ele puxou meus cabelos, curvei o corpo, seu pênis forçou-se contra mim — Diga-me teu desígnio.

Eu ainda lagrimava, eu ainda desejava, eu ainda sentia-me melancólica e triste, eu ainda sentia o sol em minhas veias, eu ainda morria e vivia na presença de Stephen Knill. Eram extremidades raras para quem viveu de “quases” eternos e medianos. Carecia-me de imersão, desta vez, no obscuro dele.

— Servir-te... – sussurrei — Desvele-te plenamente, eu imploro – proferi sem pressa. Seu falo me penetrou friamente, senti a pele se romper, o odor de sangue se espargir. A dor era a atmosfera inebriante que me fez duvidar da minha espacialidade; perdi alguns sentidos ao ascender outros a um nível impensável. Stephen não parava, seus sons lúbricos eram a sinfonia pecaminosa da sua glória sobre mim e, finalmente, eu sentia. Eu sentia e sentir era suficiente.

Não gritei, não lamuriei. Obedeci-o de minha própria maneira para ser merecedora de mais. Ele feria-me com suas mãos, batendo-as contra minha pele, puxava seu cinto em meu pescoço, tomava meus cabelos como cordas e, tão forte era a ponta de seu órgão sexual em meu ventre, que eu podia jurar que estava sendo embalsamada.

Stephen virou-me, saiu-se de mim, jogou-me sobre o tapete e apontou seu sexo para meu rosto. Vi-o, era como um deus manchado de sangue, um deus infalível e perversamente tirânico. Senti-me turva, pisquei inúmeras vezes até senti-lo penetrar minha boca. O sabor de minha vagina, o gosto de seu pênis, a acidez de meu sangue – tudo em minha língua, em minha garganta; eu regurgitava tanto quanto Stephen gemia de prazer.

Meu rosto era o depósito de golpes alucinados, esquentava-me a pele, ardia-me. Seu cuspe era o ataque mais humilhante que me fazia ter compreensão de minha submissão a ele. Suas palavras agressivas, seu comportamento violento, seus beijos insanos, seu carinho viripotente depositado como recompensa, seus braços ao meu redor, minha dor e meu prazer.

Somente após longas horas, às seis da manhã, é que fui abençoada com seu esperma em meus seios. Os sinais em meu corpo eram os mesmos dados pelas profundezas do oceano no dia do acidente – desta vez, todavia, eram fidedignas. Olhei-o, ele vestia-se graciosamente em seu soturno ares. Eu sobre a cama, com seu esperma secando em minha cútis, apenas o observava. Foi então que, de súbito, pulei sobre ele em um abraço forte e intenso que veio da emoção mais pura que havia em mim. Abracei-o profundamente, abracei-o com minha alma. Abracei suas pernas, pois, eu estava fraca demais para ficar de pé e, ainda assim, o abraço foi recíproco. Stephen abaixou-se, ficou junto a mim no chão de meu quarto. A luz matinal nos brindava, eu ouvia sua pulsação imortal.

— Não vá, por favor, não vá; não me deixe sozinha, não me deixe... – implorei rápido e com pranto quase furtivo. Eu não queria deixá-lo, eu não queria ficar sem sentir sua presença ao meu lado controlando-me com todo o seu poder insigne. Minhas lágrimas banharam seu peito, meu choro inundou seu espírito e Stephen apenas afagava lentamente meus cabelos. — Preciso de ti, preciso que fique, Mestre, permaneça, por favor... – Era um desafogo, era uma catarse que me tomava. Sentia-me livre para dizer tudo, para sentir tudo, para finalmente ser. Olhei-o, sua imagem nevoada. Toquei seu rosto, ousei tocar seu rosto com minhas mãos pequenas... plangi com mais afinco.

— Sublime... – ouvi-o chamar-me. Seus dedos retiraram as gotas de meu rosto — Sublime Le Blanc — ouvi-o chamar-me outra vez, senti minha pele arrepiar porque dentro de mim a voz de Stephen proferindo meu nome era como lithium. “Ah... permaneça, permaneça dentro de mim, quebre-me, destrua-me, reviva-me” – essas eram as palavras que me dominavam a mente.

— Permaneça, permaneça dentro de mim, quebre-me, destrua-me, reviva-me, Stephen. – eu disse no breu de meu cárcere inundando as algemas de angústia, levando meus lábios até elas, beijando-as enquanto em minha mente somente as palavras de meu Mestre ecoavam de forma ensurdecedora, uma memória porfia.

— A tua luz em minha sombra, Sublime... A tua luz é a vívida razão primeva para permanecer – ele disse, fixado em meus olhos. Mal sabia ele que as sombras de sua existência eram as causas da disseminação de luz em mim.