Capítulo Octo

Stephen chegara de seu trabalho, eu dormia no sofá enquanto a televisão marcava com sons e imagens aspectos lúdicos da humanidade. Eu sabia que ele demoraria a chegar, o trânsito alastrava-se por quilômetros. Sempre chovia nessa cidade, era, quiçá, uma resposta da natureza ao péssimo comportamento de nossa raça. 

Acabei adormecendo enquanto esperava Stephen, a música das gotas sobre o telhado apaziguava-me. Ao sentir carícias em meus cabelos, despeitei. Ia levantar-me, no entanto, meu Mestre disse-me para permanecer deitada entre as cobertas cálidas. Ele sentou-se a mesa de centro e ficou admirando-me, eu sorri ao senti-lo afagar-me. Era agradável vê-lo, era agradável estar com ele.

— Não está frio aí, Mestre? – indaguei aconchegando-me entre as cobertas. Eu o desejava, ele parecia cansado e precisava de mim. Stephen sorriu.

— Muito frio. – Clarões na janela e uma troca de olhares apaixonados.

— Não gostaria de esquentar-se em mim, Mestre? – perguntei com doce luxúria, ele sorriu com mais ternura. Levantou-se em seguida e começou a desabotoar sua camisa.

— Está quente aí? – indagou.

— Muito, muito – respondi. Ver Stephen se despir era demasiado excitante, seu corpo era forte, sua pele, seus pêlos, seus detalhes eram atrativos incontestáveis a mim. Tão bonito. Será que um dia já o elogiei desta maneira? Será que em algum momento confessei por palavras o quão o achava bonito? Ou bastava meu olhar sedento por ele para que ele soubesse acerca de sua perfeita figura?

— Árduo dia – ele proferiu com a voz ainda grave e impetuosa. Seu olhar vagava ao redor, tão sério em suas sombras contra luz. Ao voltar-se a mim, acomodou-se no sofá atrás de meu corpo, encaixando-me em sua cintura, estávamos nus. Decidi virar meu corpo para ficar de frente a Stephen, enxergá-lo, entrever as minúcias de sua expressão facial, descobrir os segredos entre seus confins.

— Deixe-me tornar teu dia mais ameno? – indaguei. Meus lábios entreabriram porque me lembrei do falo de Stephen ao admirá-lo. 

— Já o tornara – ele disse tocando meus lábios com seus dedos fortes — Apenas pela tua presença – concluiu. Apaixonantes sílabas na boca de um homem implacável. Sorri e o beijei, um toque fugaz de carinho enquanto eu descia meus olhos aos demais detalhes de sua constituição.

Ele é tão lindo. Não havia como não repetir o quão era incrível seu corpo, sua fisionomia. Atentei-me aos seus ombros, largos e imperiais como seus braços fortes. Stephen tinha quase um metro e noventa, era um verdadeiro rei que governava meu império. Após apreciar o seu tórax, ombros e pescoço, fui abaixando-me por dentre as cobertas até encontrar o sexo de Stephen. Sua pele estava fria, a minha tão ardente, abracei-o na região abdominal e senti a colisão da temperatura oposta. Toquei-lhe o falo adormecido e devagar fui acordando-o. Masturbei Stephen até que seu pênis tomasse a forma ereta que tanto me deleitava. Seu gemido baixo me fascinava, era tão vigoroso que fazia meu clitóris brandir e, cada vez que eu o chupava com volúpia e ganância, mais perto do orgasmo nós ficávamos.

Seu órgão sexual era perfeito, o comprimento, a espessura, a forma e o peso, eu poderia chupá-lo por horas, sugá-lo sem parar; sua energia contornava minha boca e ativava a vivacidade do meu organismo, eu era viciada por aquele pênis e eu me recordava disso sempre que Stephen me permitia brincar com ele da minha própria maneira. Sem agressividade, sem pressa, sem medo. 

Doce, suave, provocante; outro espaço dentro do espaço, uma galáxia de sabores e sensações. Sexo oral, sexo oral em Stephen, meu Dono, meu Mestre. Quando me dei conta, eu estava gozando sem toque, apenas ocupando minha boca com seu pênis; poucos segundos depois pude tomar de seu elixir venéreo. Egrégia polução. 

Cada gota de sémen eu apreciei, era um doce para mim, ainda que levemente amargo, era exageradamente saboroso. Stephen era invencível, era a minha sombra constante que me abençoava com a capacidade de enxergar até mesmo as cores. 

Quando aqueles homens me deixaram em paz, suada, ferida, mas, livre na escuridão, respirei profundamente e uma saudade se apoderou de mim. A lembrança me acalentou, nenhum homem incapaz de amar poderia ser tão afetuoso como Stephen fora, principalmente no instante segundo em que disse ser eu aquela que torna seu dia ameno. Havia, ainda, excessivas situações as quais ficava manifesto o seu sentimento e eu busquei lembrar-me de todas elas, para ser forte, para suportar tudo aquilo, para ser capaz de sobreviver.

Deitada e abandonada em uma cama fria, pensando em meu dono, compreendi que, no meu sonho, eu era capaz de enxergar as cores porque Stephen estava comigo, ao afastar-me dele a penumbra se propagou. Como não poderia levar este sonho ao nível de apreensão de um amor que eu temia não existir, por parte de Stephen, sabendo que se essa fosse a verdade, tudo ficaria ainda mais cinza em minha visão? Se aquele homem, Forsihar, estivesse certo ao afirmar que Stephen encontraria qualquer jovem para tê-la como satisfação de seus bel-prazeres lascivos, então a plena ablepsia seria um convite aos meus olhos, eu que tanto amo meu Mestre, jazeria na armadilha que minha idealização criara.

“Não...” – pensei. “Ele não está certo no que afirma” – movimentei meus braços para sentir as algemas de Stephen em minha pele. “Tanto apreço nos pormenores de nosso envolvimento não poderia se tratar de encenação” – ponderei sentindo arder os cortes em minha pele. Minha vulva inchada tomada por um frio intenso; sentia-me cansada, com sede, faminta. Eu não sabia há quantas horas eu estava ali. Minhas pernas tremiam; meu maxilar em algia. Eu tentava suportar. Estar com as algemas de Stephen era-me um consolo, embora estivessem úmidas de tantas lágrimas que sobre elas eu derramava.

A última vez que meu Mestre colocou-as em mim, fora em vinte e oito de agosto, cerca de um mês atrás. Stephen entrou em meu quarto e levou-me para sua cama, prendeu meus pulsos e começou a amar-me profundamente. Ordenou meu silêncio absoluto enquanto adentrava seu pênis em minha cona; movimentos ritmados até meu gozo subir em meu corpo, arrepiando minha pele, fazendo-me contorcer os músculos da perna e do abdômen – e o ritmo contínuo de Stephen, mesmo depois do meu gozo, e um segundo orgasmo se distendendo, e um terceiro e um quarto... Ele ficou por três longas horas me penetrando; meus olhos se reviravam de prazer e quando o seu membro entesou-se ainda mais, senti que Stephen ejacularia em mim e eu quebrei a ordem de silêncio naquele instante.

— Mestre... – sussurrei e Stephen me olhou. — Eu... — Stephen urrou e suas mãos fortes apertaram minha cintura. — Te... amo... — proferi e ele gritou pelo colossal deleite da plena satisfação. Sinto seu líquido consistente conglutinar nos meus órgãos, em todos eles, em cada um deles; sua ejaculação como um córrego inquieto, enervado e ferino me atravessou de tal modo que, naquele momento, jurei tê-lo sentido em minha garganta.

Infelizmente os pensamentos cessaram quando mais uma vez a porta foi aberta e Forsihar entrou. Ele era o chefe, certamente, o homem que coordenava todo aquele crime hediondo contra mim. Eu desviei meu olhar. Ele aproximou-se devagar e abaixou-se nos pés da cama, procurava pelo meu rosto, eu escondia-me e encolhia-me no canto da cama. Sua mão tocou meu queixo forçando o encontro, sua imagem me intimidava. Fui tomada por indignação e ódio, estava claro que aquele homem era um inimigo de Stephen e por que Stephen teria um inimigo? Naquele momento percebi, eu pouco sabia sobre o homem que amava, ou talvez eu não sabia o suficiente.

— Tu és um covarde... – sussurrei. — Esconde-se nessa... máscara – eu disse com a voz fraca, meu corpo estava inerme, eu estava abatida. Proferi palavras para demonstrar minha luta, manifestar minha força ainda que tão minúscula. O homem apenas gargalhou ainda segurando meu rosto. — És um monstro! – eu disse, em vão, tentando fazê-lo ter consciência de si. “Não posso ser fraca, não posso ser fraca” – pensei a posteriori.

— Sou como Stephen – ele disse — Os homens que te feriram, são como Stephen.

— Não! 

— O que os difere? 

Forsihar tentava me enganar, tentava me colocar contra Stephen e confessar algo que eu desacreditava. Stephen não era criminoso, não era abusador; havia um contrato, havia uma negociação aceita por mim. Se algo de errado existia em minha relação com meu Mestre, tratava-se de qualquer outra coisa, menos abuso.

— Está difícil fazer-te perceber o que a tua paixão impede, talvez isso te ajude. – Forsihar colocou na cama três fotografias e no momento em que as vi, consternei-me.

As três fotos mostravam nitidamente o dia em que Stephen me puniu deixando-me nua no quintal sob o frio da antemanhã. Presa com correntes e algemas – embora não as mesmas algemas que eu usava naquele momento – retraída no álgido chão em fino limo. As imagens foram tiradas de cima, decerto de algum dos prédios que rodeavam nossa casa. Lembrar-me daquele dia lacerou-me as certezas até então fixadas em meus pensamentos, pois, trouxe consigo o exato temor que senti no momento do ocorrido. Pensei que morreria no frio com a ausência sepulcral de Stephen por tantas horas, senti-me a pior pessoa, a mais usada, a mais descartável.

A pele suja, a visão cinza, a neblina e o caos interior; um hino de desesperança. Minhas expressões mudaram diante àquelas fotos, Forsihar conseguiu afetar-me com o dissabor de um outrora infortúnio. Desde aquele dia em que Stephen me desamparou, as coisas mudaram em mim; meus sentimentos decaíram depois de um alto e longo voo. E mesmo estando fragilizada, fria, cansada, a primeira coisa que Stephen fez ao me buscar naquele quintal solitário, foi penetrar-me e satisfazer-se para depois me libertar das correntes e me deixar sozinha outra vez.

Sozinha. 

Andei com dificuldades para dentro de casa e chorei dentro das águas fulgentes do chuveiro. Eu gostaria de entender a mente de Stephen, saber seus motivos, capturar a significância de seu silêncio. Mas era tarde, já não se tratava de uma possibilidade; estávamos longe, talvez nunca viéssemos a nos ver novamente. A história vivida – e quebrada – não pode ser recuperada. E aquele dia foi há duas semanas, desde então, eu e Stephen, nos extraviamos de nós.

— Nada difere, não é? Está notório em tua fronte – disse ele, aproximando-se de mim outra vez e tocando meus braços.

— Não... – eu disse devagar sentindo toda a decepção corroer-me alucinadamente. Forsihar agora tocava meu clitóris, as quedas-d'água em meus olhos inibiam dor e prazer. Olhei para as algemas de Stephen; a rosa rubra formou-se na lembrança, o sonho de outrora se despontou em meu âmago outra vez. Como poderia eu ver cores se, em meu cérebro, não foram criadas as imagens correspondentes às tonalidades? Como pude compreender as cores em um sonho se eu sequer sei reconhecê-las? Sequer sei o que elas são! 

— Tuas lágrimas não te salvarão – disse quando, inesperadamente, segurou meu pescoço e virou-me em sua direção. — Abra bem a boca, escrava. – Chorei ainda mais ao ver Forsihar colocar seu pênis para fora de sua calça. — Abra essa maldita boca! – ele ordenou comprimindo com mais acuidade a minha garganta.

“Foi por causa de Stephen” – pensei. “Por sua causa eu vi” – raciocinei perante o toque brutal de Forsihar em meu rosto, eu não ouvia as palavras dele, eu só ouvia minha mente. “Desde o início ele me ensinou a ver, da minha própria maneira, todas as cores do mundo, por isso eu não posso me deixar abater” – pensei. “Talvez o castigo daquela madrugada tenha sido merecido por um motivo que eu ainda não sei, mas Stephen, depois daquele dia, cuidou de mim... ele continuou preocupado comigo”. Antes de adentrar o sopor da nostalgia, um golpe em meu rosto fez-me cair e o sabor de sangue em minha boca retirou-me do transe.

— Pare de dizer isso! – ele gritou alto suficiente para me assustar, encolhi meu corpo. O que eu dizia? Eu não lembrava. Forsihar segurou meus cabelos e os distendeu, a imensurável dor transcendeu o tolerável. — Vou acabar com a tua miserável vida! – Ele golpeou-me, desta vez no abdômen, tossi várias vezes enquanto ele batia mais em meu rosto e em minha cabeça. Ele puxou a corrente que me prendia, pôs-me no chão frio e retirou de um dos bolsos de sua calça, uma faca curta, de prata. Exasperada, bradei o mais alto que minha voz permitiu e movimentei-me a fim de escapar de suas mãos. Eu lutava contra o seu corpo sobre o meu, tentava afastá-lo a todo custo.

— Silêncio! – ele grita. Sinto a temperatura da prata em meu pescoço, cesso imediatamente as minhas agitações. — Não temes a morte, não é? – ele diz. Está coberto de insânia, n’um aclive de psicose, mesmo que o pânico me afundasse em seu abismo, eu ainda não havia perdido meus sentidos e eu ainda era capaz de pensar. — Se repetires uma única vez essas palavras, eu corto tua língua. 

Fiquei em silêncio tentando lembrar quais eram as palavras que tanto afetaram aquele homem. As proferi em um estado de introspecção e percebi que só daquela maneira, imergindo-me em mim mesma, eu conseguia afastar a angústia, o temor, a raiva e a dor de estar nas mãos daqueles homens. 

— Entendeste? – gritou Forsihar.

— Eu... não... não sei o que eu disse... – proferi lentamente. Ele ficou em silêncio. Contínuo, constante e assíduo silêncio. Um longo tempo até jogar-me no chão e se afastar. Olhei-o andando com raiva, passos fortes até a porta. Abriu-a e dois homens se aproximaram.

— Quero que fodam-na novamente, eu quero vê-la sem forças. Espanquem-na, usem minha Cane desta vez. Não a alimentem. – Ele pausou a fala — Deem água a ela, água suja, de preferência. – O homem se retirou e os dois caras entraram fechando a porta em seguida. Eles se entreolharam e vieram em minha direção.