Capítulo Quattuor

— Hm... – ele disse, olhando ao redor. Pouco tempo depois ele fitou-me os olhos. — É por isso que teus olhos são cinza. – Enzo levantou-se e caminhou até mim, ergui-me de imediato ao notá-lo. — Sente-se – ele disse, eu me sentei outra vez e ele encostou-se a mesa, de frente para mim. Eu abaixei a cabeça. Era tão natural fazer aquilo com Stephen que, em uma reação automática, fiz o mesmo com Enzo. Antes que eu pudesse retroceder meu ato, Enzo tocou meu queixo e levantou-me o rosto fazendo-me olhá-lo.

Estávamos quentes, nossa pele ardia mutuamente e ambos sabíamos o porquê. Era o desejo, latente, por detrás da cordialidade e formalidade de nossas posições. Ainda que, de minha parte, o desejo adviesse de ingênuas curiosidades.

— És uma linda criança – disse Enzo. Minha respiração travou, o tom de sua voz havia mudado, ressoava completamente impudico, e até mesmo sórdido. Ele sorriu torpe, descendo sua mão em meu pescoço. Afastei-me célere, empurrando meu corpo, levantei-me e fitei seus olhos perversos. Meu coração disparou. Era por querê-lo, sim, ele era diferente, no entanto, algo também me fazia repudiar aquilo e talvez fosse por conta da culpa.

— Não são... cinza... – eu disse, ofegante.

— Deixe-me vê-los então. – Enzo se aproximou de meu corpo e eu retrocedi. Ele tocou meu rosto outra vez e acariciou-me. — Certamente são olhos da cor cinza, um ingênuo cinza... – Enzo chegou ainda mais perto. — Eles me fazem querer... – Enzo tocou minha cintura e subiu sua mão direita na curva do meu corpo.

— Pare! – ordenei, com a voz fraca, pois era evidente meu desejo, ainda que retirar sua mão de cima de mim tenha sido a primeira coisa a fazer. Enzo me olhou.

— Desculpe – ele disse e meu coração se aqueceu. — Gosto de ti, Sublime, podemos trabalhar juntos, te ensinarei a rotina da empresa, tens potencial – falou após me soltar por completo. Respirei densamente, outra vez eu me sentia com sentimentos distintos, até mesmo ambivalentes. Eu não sabia o que responder e sequer o que pensar; ter um emprego era o que eu mais desejava naquele momento.

— Eu não sei – proferi. Enzo se aproximou outra vez, com mais cuidado, mais sutileza. Seu sorriso invadiu-me como a luz faz, deixou-me em ablepsia. Senti seu toque em meu ombro e foi declinando pelo meu braço fazendo queimar de atração. Vacilei e, quando me dei conta, eu estava a mínimos milímetros de distância dos lábios de Enzo. Foi quando virei meu rosto e dei um passo para trás.

— Eu sinto muito... eu... não posso aceitar. – Enzo queria me contratar, mas, suas intenções eram claras. Ele me desejava e, de fato, algo nele fez-me cambalear. Porém, algo também me fizera parar quando eu podia simplesmente me deixar levar pela aspiração. Este algo era Stephen.

— Sublime, não quero que pense que sou... eu... apenas... eu gostei de ti – confessou Enzo. Peguei minha bolsa e caminhei sentido a porta, não queria mais vê-lo. Eu não poderia trair Stephen e não poderia enganar Enzo ao manifestar intenções as quais não poderei exercer. Eu estava me sentindo mais tola do que outrora e certamente, a cada segundo, algo me fazia ser mais tola, eu estava começando a odiar a mim mesma. De repente uma memória barrou-me um pouco antes de abrir a porta e sair apressada, a reminiscência acertou fortemente meu cérebro e eu cessei meus passos. 

Stephen me puniria por não conseguir um emprego, essa havia sido a condição para permitir-me buscar por um. Eu não gostava das punições dele, por isso eram punições, estavam em nosso contrato e isso me amargurava só de pensar. Eu tentava sempre não errar com Stephen, eu queria nunca errar com ele, fazê-lo orgulhoso ou deixá-lo realizado era o meu propósito. Todavia, eu errava e, não conseguir um emprego, era mais um erro.

— Sublime, eu sei que queres o mesmo que eu – falou Enzo com condescendência em sua voz. Olhei para trás, o vi, ele implorava pela minha permanência. Eu queria, eu o desejei, mas eu não o amava e o amor por Stephen me assaltou de tal modo que por ele eu suportaria qualquer punição e negaria qualquer outro homem.

— Eu não posso – disse, com sinceridade e, pela primeira vez na vida, desejei usar mais ainda de minha sinceridade. — Eu não posso, pois, eu tenho um Dono. Desculpe senhor Enzo. – Abri a porta e saí sem ouvir as palavras dele, eu sabia que ele não havia entendido nada, como alguém pode ter um dono? Bem, eu tinha um, e eu o amava.

Não pensei em mais nada, a claridade do dia me invadiu assim que cheguei à sala de espera, procurei, com grande afã, os óculos dentro da bolsa, vesti-os e fui embora apressada como quem tenta fugir de um monstro, e eu tentava, ainda que ele estivesse dentro de mim, o monstro da culpa e da vergonha. Eu nunca deveria ter desejado outro homem, era uma ingratidão a tudo o que Stephen havia me feito. Eu estava, minuto por minuto, cada vez mais intensamente, sentindo-me tola.

“Stephen... como pude ser tão ingrata?” – eu pensava durante a caminhada de volta para casa. “E Enzo... tão estúpido e ridículo igual a todos os outros que dizem que meus olhos são cinza” – pensei. Estava mais do que óbvio que minha condição visual era um pesadelo que me seguia tanto quanto a culpa naquele instante. Stephen me veio à mente outra vez, antes da completa depressão tomar conta de mim, antes das lágrimas caírem dos olhos, antes da acromatopsia vir me dizer que eu era uma pobre coitada incapaz e infeliz. Ele veio à minha mente, porque ele foi o único que viu cores em mim e fez-me vê-las também, da minha própria maneira. 

Dois dias depois de receber a proposta de Stephen e rejeitá-la, eu estava na Praça Lïns olhando para o lago. Era um domingo nublado, chuvoso e, para minha sorte, pouco reluzente. Mesmo assim eu estava com os óculos de sol enquanto visualizava os peixes que nadavam incessantes em ritmo monótono. Stephen aproximou-se, sua sombra atravessou meu corpo, eu enxerguei melhor. Olhei para frente e o vi, tão belo quanto outrora, meu coração disparou incerto, parei de balançar as pernas, expressei grande temor, a presença díspar daquele homem me originava calafrios.

Lembrei-me de suas palavras “Não temas a mim, Sub. Não ainda” e senti congelar meus órgãos vitais. Lembrei-me de sua proposta, meu clitóris vibrou prontamente, era como uma onda de estímulos quando Stephen estava por perto. Eu sempre espero que ele me faça algum mal quando se aproxima, mas nada de mal ele faz, ao contrário, uma placidez insólita me envolvia diante a sua companhia. 

Stephen agachou-se bem perto de mim, pegou uma pedra em meio a tantas outras que descansavam na margem do lago e a jogou na água fazendo-a pular três vezes até afundar. Eu quis sorrir com aquilo, mas o choro curvou meus globos oculares. Eu estava infeliz naquele dia, pelo mesmo motivo de sempre: a paene umbra. 

Stephen, então, tocou minhas pernas enquanto perscrutava meu olhar. Tentei esconder, mas a lágrima escapou e caiu nos meus óculos para depois ruir em uma das mãos de Stephen. E suas mãos tocavam-me com sutil intensidade fazendo prosseguir o desejo sexual incitado. O laço entre a lágrima e a luxúria era dolorosamente belo.

— Uma lágrima, quando verte, indica sempre um dilúvio – ele disse, aproximando suas mãos de meu sexo, mesmo eu estando de calças jeans, ele tocava e com isso estimulava o desejo inevitável. Então eu gemi, involuntariamente. Meu dilúvio, entre as pernas, no peito, no espírito, nos olhos. Meu dilúvio, somente meu. Vertendo pelos meus olhos cinza.

Stephen sentou-se ao meu lado, sem deixar de me tocar. Próximo ao meu rosto, ele inspirou meu perfume. Seus olhos se fecharam, nossos lábios se aproximaram e com isso mais uma impetuosa energia me invadiu, aquele desejo afrodisia era como choque elétrico. Não nos beijamos. Eu o olhei e ele tocou meus óculos, eu o impedi de retirá-los.

— Não – eu disse — Não posso ver-te sem eles. – Engoli minha dor pela revelação que, outra vez, eu era obrigada a fazer. — A luz do dia me cega – confessei. Stephen me olhava atentamente, vi-me obrigada a explicar. 

— Acromatopia. – Respirei profundamente. — Fotofobia e hemeralopia. – Olhei para o lado. — Nomes prolixos para uma condição peculiar. Eu não enxergo cores. E luzes intensas me cegam. – Olhei-o e tentei desvendar seu semblante, ele estava mais sério e menos brando, quase perto da austeridade. 

— Por isso meus olhos são da cor cinza. É como uma densa nuvem ocultando a beleza amarela do sol – eu disse, evitando olhá-lo.

— Azul-areado – ele proferiu, como um trovão que sabe falar. — Esta é a cor de teus olhos – Stephen pegou meu queixo com força e fez-me olhá-lo. — E tu não dirás o contrário, entendeu? – ordenou. Ele estava nervoso, era como se eu tivesse pronunciado a pior das coisas possíveis. Balancei a cabeça levemente para demonstrar compreensão. Eu o temia. — Não podes contra luzes intensas porque tu és luz, Sublime. – Eu o amava. Fechei meus olhos ao ouvi-lo, pois, eu ambicionava beijá-lo. Meu amor por Stephen iniciou-se ali e nesse exato momento eu aceitei sua proposta.